Quando se olha com encanto, tudo se encanta, sobretudo a coisa olhada. Quando se olha com desprezo, desprezada a coisa fica. Com ódio, odienta ficará. Nossos olhos fazem as coisas serem belas ou feias, boas ou más e, até mesmo, o que nunca foram. O amor, por exemplo, é cego: vê o que ninguém vê, mas não vê o que todos estão carecas de saber. O que mais o amor sabe fazer é enganar a retina.
E o os olhos maternais? Neles, o perdão não tem medida. Clemência maior não há. Vale a pena, também, olhar os olhos mágicos da criança. Em cada coisa vista, outras se agregam ludicamente. Uma pedra nunca é uma pedra só. Mais do que pedra, dinossauro, foguete, monstro, caminhão, revólver... até coisa sem nome, posto não existir ainda.
Tendo a história por fazer, o tempo tem pressa. Então a escola se apressa, sabe que precisa castrar os olhos infantis. Afinal, já se anuncia a chegada da idade adulta. Hora de educar para a realidade da vida. Nessa nova pedagogia, pouco vale a poesia nos olhos da criança. O cotidiano dos homens sérios reclama um outro jeito de olhar. Reclama olhos contábeis do somar, do subtrair e, sobretudo, do multiplicar. Hora, enfim, de ver na conta o que realmente conta.
Olhos poéticos sabidamente não contam. Poesia é apenas perfume, coisa epidérmica, nada produz, nada compra, nenhum espaço ocupa no bolso fundo ou na rica bolsa de valores. Disso sabendo, a escola, por força do seu compromisso pragmático, passa a investir fortemente na razão e quase nada na emoção. Muito no raciocínio, pouco na sensibilidade. Muito no homem competitivo, pouquíssimo no homem cooperativo. Assim de mãos dadas com o sistema, a escola aplaude os “winners”, que vão se dar bem na vida. Completamente esquecidos, ficam os “losers”, perdedores fracassados. Na lógica desse “american way of life”, é justo que fiquem pelo caminho todos os derrotados. Sem taça ou medalha na mão, nenhum pódio, pouco valem.
Claro que é preciso investir na razão, no intelecto, nas técnicas, a modernidade precisa desse homem pragmático. Só um idiota o negaria. Mas por que, em igual medida, não investir também no homem estético? Por que tão pouco no homem, cuja pele arrepia se tocada pela emoção. A escola há muito está manca. Teimosa, insiste em pender para um lado só.
Oportuno seria indagar como andam as linguagens estéticas, hoje, em nossas escolas. Como anda a poesia? O teatro? A dança? A pintura? A escultura? O cinema? A fotografia? A música? A arquitetura? As artes digitais? Como andam, em nossas escolas, todos esses estímulos estéticos formadores de um homem mais humano? Hoje, carência maior não há.
Além de ensinar a ler – coisa que, aliás, deixa muito a desejar, a escola deveria ensinar a ver. Que se estimule o cérebro, mas não se descuide dos olhos. Pelos olhos, o mundo ganha sentido e beleza. Pelos olhos, a lágrima ainda nos emociona e nos une. Olhemos, então, com olhos melhores a transformadora pedagogia do olhar.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras. curso_romag@uol.com.br