Bem que o show de Kid Vinil da semana passada, no Sesc, poderia ser neste 1 de maio. Afinal, seu sucesso oitentista “Sou Boy” tem tudo a ver com Dia do Trabalho. Quem foi boy, sabe. Acordar cedo, chegar atrasado, abrir a marmita, sentir pés doendo e, no fim do mês, aquela mixaria. Mas vale dizer: é rica experiência para toda a vida.
Na minha época de boy o negócio era bem empírico, sem muito treino e pra já: pastinha com papelada na mão, bicicleta feiosa rangendo pela cidade. Tinha vez que era moleza e dava até para passar em casa tomar o café da tarde com a mamãe. Só que a coisa apertava em certos trechos do mês.
Sendo assim, as tardes ficavam até perigosas nas subidas e descidas para cumprir as metas do escritório. O relógio do mundo acelerou, as leis avançaram e a proteção aumentou. Aquele boy do meu tempo, e do tempo do Kid Vinil, acho que não existe mais. Só na música.
Até porque a papelada diminuiu e dominar tecnologia ficou mais importante do que colher assinaturas em várias vias ou entregar cobranças datilografadas.
Avanços trabalhistas desde as funções mais iniciais, contudo, não devem ofuscar o legítimo direito de trabalhadores buscarem sempre o melhor para suas famílias – conscientes também de que generalizar patrão como vilão ficou meio sem sentido. Também o patrão tem seus monumentais desafios a enfrentar, ainda mais em tempos de crise.
Espero não estar errado: a impressão é de que diminuíram os casos de trabalhos análogos ao de escravo ao mesmo tempo em que aumentaram as bases legais para sustentação de ofícios mais justos.
Isso é conquista de uma sociedade vigilante e atuante contra abusos. E é por isso que as instituições, como sindicatos e Ministério Público, devem funcionar. Da mesma forma como funcionam entidades de apoio e de intermediação entre jovens e o mercado, como CIEE, Legião Mirim, etc.
Que os deuses do trabalho, que estão lá na merecida tranquilidade de seus olimpos, sempre protejam quem protege os trabalhadores. E que a corrupção desenfreada não desestimule todos que ainda acreditam na decência do trabalho: sejam eles adultos com sede de reconhecimento ou boys com sua fome de leão.
O autor é editor executivo do JC.