A maioria dos estudantes que vive em moradias estudantis de universidades está vivendo longe da casa dos pais pela primeira vez. Este é o caso, por exemplo, do trio de amigas e estudantes de fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP), Isabela Possignollo da Silva (17 anos), Taynara Fernandes (18 anos) e Jéssica Pereira (19 anos). Elas são das cidades de Santa Bárbara d’Oeste, Barra Bonita e Igaraçu do Tietê, respectivamente, dividem o mesmo quarto e se definem como irmãs.
“É muito bom viver na moradia estudantil da USP. Nós formamos uma nova família aqui”, comenta Isabela. Além de morarem juntas, as meninas estudam na mesma sala. “Nós também saímos juntas, conhecemos as famílias das demais. Fazemos tudo juntas”, completa Taynara.
A amizade é tanta que as meninas até fizeram um pacto. Quem conta é Jéssica: “A gente combinou que, se houver brigas, vamos sentar e conversar para rever a situação, porque somos uma família, além disso, contamos com a ajuda e as dicas das meninas mais velhas do alojamento”, garante.
Na FOB, são três estudantes por quarto, com uma cama, escrivaninha e guarda-roupa próprio. As visitas precisam ser nomeadas e cadastradas na segurança e só podem permanecer nos apartamentos até as 23h. A entrada e a saída dos visitantes são registradas. Apenas moradores podem dormir nos residenciais. A manutenção dos equipamentos, como geladeira, freezer e máquinas de lavar roupas é oferecida pelo câmpus.
Adaptar-se é preciso
Também estudante do primeiro ano de fonoaudiologia da FOB/USP, Abikeila Genaro, 17 anos, está como moradora provisória da moradia do câmpus enquanto passa pelo relatório socioeconômico. Ela veio de Iacanga e entrou com o pedido de moradia porque não há horários de ônibus entre Bauru e Iacanga que se adequem às suas necessidades. “E como não tenho dinheiro para bancar um aluguel, entrei com o pedido”, completa.
A adaptação longe de casa tem sido um desafio para Abikeila, que divide o quarto com outras duas meninas. Entretanto, por dividir anteriormente o quarto com uma irmã, ela aponta que a experiência de viver em quarto coletivo não está sendo um grande desafio.
“Eu penso que se você souber respeitar os demais moradores e manter a sua parte organizada, não terá problemas. Os primeiros dias são sempre os mais difíceis pelo fato do calouro não conhecer ninguém na casa. Além disso, não é fácil realmente ficar longe da família, e sei que para eles também não está sendo fácil. Mas a adaptação vem com o tempo”, comenta.
Para assistente social do câmpus da USP, morar coletivamente ajuda os jovens a conviver com diferenças
Viver em uma moradia estudantil ajuda os estudantes, muitos deles ainda adolescentes, a amadurecerem. Entre as vantagens, está o exercício do convívio e respeito às diferenças. Quem comenta é a assistente social e membro da Comissão Administrativa do Conjunto Residencial estudantil (Cacre) do Câmpus USP de Bauru, Christine Habib.
“Os alunos entram e recebem o regulamento e regimento da moradia, que devem ser assinados. Os pais vêm para conhecer o espaço e acabam ficando mais tranquilos. É um momento de inclusão”.
Um zelador faz a fiscalização constante dos blocos. Os meninos e meninas também levam os problemas até ele, normalmente sobre limpeza, uso inadequado dos equipamentos... O próprio zelador, Luís Carlos Garcia, define-se como uma espécie de pai por ali.
“Digo isso porque a gente dá apoio, ombro amigo, principalmente para os que chegam. Muitos têm dificuldade de adaptação no início, choram e até pensam em voltar para casa. Então a gente conversa, orienta...”, pontua.
Regras da casa e normas de convivência mantêm a ordem
Roger Seidi tem 21 anos e também é estudante de fonoaudiologia. No segundo ano da faculdade, ele também vive o seu segundo ano de moradia estudantil. Para o morador, quando há respeito entre os colegas dificilmente há problemas.
“A higiene é essencial, por exemplo. A gente precisa manter tudo em ordem. É uma maneira de agradecer pelo fato de vivermos aqui sem pagar. Viver dentro do câmpus nos traz muitas vantagens, entre elas o fato de estarmos ao lado da biblioteca e de outros recursos oferecidos pela universidade”, destaca o aluno, que veio de Jurucê, distrito do município de Jardinópolis, na região de Ribeirão Preto.
E, por falar em regras, o estudante diz que nem todas agradam muito os moradores, como o fato das visitas serem permitidas até as 23h. Porém, ele reconhece que a medida ajuda a manter a segurança. “A violência hoje é muito grande. Então se a gente analisar, é uma regra consciente”.
E, além das regras impostas pela universidade, ainda há aquelas criadas pelos próprios alunos para garantir a convivência harmônica. “A gente divide as tarefas e os dias em que elas precisam ser realizadas, por exemplo”, cita Roger.