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A fase do novo perfil do trabalho

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

A roda da economia não gira com o mesmo vigor em tempos de crise e os efeitos afetam as planilhas de venda, a produção e o faturamento. O elo gera seus reflexos nos custos e trabalhador é “convidado” a rever posturas, atacar vícios de comportamento, buscar racionalização e economia nos processos de produção, logística e execução, do operário ao prestador de serviços. No meio do furacão da crise, o brasileiro ‘comemora’ mais um 1º de Maio com o coração aflito, mas, também, sob a onda puxada pela necessidade de ampliar vínculos com o trabalho, participar com comprometimento, uma corrente que pode, sim, não só salvar contratos como promover mudanças culturais no labor.

É lógico que o fantasma da vez é a demissão. Mas, forçosamente ou não, o fato é que especialistas em RH, coaching, economistas e mesmo trabalhadores mais atentos confirmam que a crise tira a poeira sobre o comodismo, remexe gavetas, provoca revoadas na cultura da vivência à sombra e, por mais rigorosa ou cruel que seja a citação, gera racionalização de comportamentos e perfis.

O economista Fernando Pinho vê sinais de mudança em curso. “As pessoas estão sendo chamadas a racionalizar na vida pessoal e no trabalho também. A euforia irreal relaxou as pessoas. Elas se endividaram em demasia. O ruim é que ainda por dois ou até três anos ainda vamos ter dias bem difíceis, de medidas duras para consertar o estrago que foi feito. E terá aumento de impostos para tapar esse buraco. Isso a um custo brutal para resolver e com o agravante do desemprego em alta. A dívida pública brasileira é brutal. O lado da esperança é que isso acaba com o modelo oba oba”, fala.

Ele aponta que as empresas e os trabalhadores ainda estão passando pela fase do chacoalhão. “Empresas mais eficientes e com cada vez menos gente é real. O trabalhador está entrando no chacoalhão e o efeito colateral é o da otimização do custo de capital. É uma necessidade forçada da racionalização. O que se espera é de plano de longo prazo para enfrentar buracos antigos, como o previdenciário, o político e o tributário, com aperto nos gastos públicos. Sem mexer nisso o País não volta a andar com sustentação”, aborda Pinho.

Para a diretora regional Bauru da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Laura Câmara, crise gera oportunidades. “Procedimentos que estavam engavetados na fase de bonança agora são tirados da gaveta por necessidade. E o que andava com defeito e a fase boa acobertava agora é posto sobre a mesa. Muitos colaboradores têm sim possibilidade de melhorar processos, inovar. E isso não significa só reduzir vagas, mas melhorar formas de trabalho. E isso mexe no perfil do trabalhador”, aborda.

Para Laura, a fase ruim também gera ganho em comprometimento. “Muita gente trocou de trabalho por imediatismo, por um salário mais atrativo, sem levar em conta a carreira ou o médio e longo prazo. Sobretudo jovens fizeram isso com mais frequência. Hoje esse profissional vai pesar mais se há sustentabilidade daquele trabalho. Vai ver risco, se é perene aquele negócio. E mais: como vou fazer para tomar conta daquele trabalho junto com os outros colaboradores e não só sob a ação do dono?”, amplia.

A profissional de RH acha que esse sentimento não está ‘contaminando’, no bom sentido, o colaborador, mas também o empresário. “Nós temos níveis de maturidade diferentes no mercado. Temos empresários que ainda só veem o negativo. Mas temos também um histórico de superação do brasileiro em crises piores que esta. E essa experiência, como na fase da inflação a 80% na década de 80, ensinou muito. O brasileiro é criativo e sabe lutar e se defender de crises. E isso está sim mexendo com soluções mais caseiras, fáceis e que a gente não fazia. E com a redução das vagas, pessoas passaram sim a empreender em coisas que não faziam, apesar da crise.  Ela finaliza: “Trabalhador, não deixe o desânimo bater. A crise passa e ai você tem de estar forte. Use tempo para estudar se estiver parado e use sua energia para inovar, acionar sua criatividade e melhor eficiência se você está atuando”, ressalta.   


Crise gera racionalização dos custos e derruba vícios do consumidor  

Para o economista Fernando Pinho era previsível que o desaquecimento da economia e o fim do ciclo baseado no estímulo excessivo ao crédito causassem estragos. “Mas mesmo com todos os prognósticos ruins que estavam sendo postos com o esgotamento desse modelo econômico, os economistas foram pegos de surpresa com a magnitude dos efeitos da crise, a partir do instante em que o governo não teve mais como esconder o tamanho do rombo, neste ano”, avalia.

No ambiente do trabalhador comum, entretanto, Pinho lembra que as pessoas reagem muito em cima das sensações de curto prazo. “Além da grande massa não ter a percepção do que está acontecendo e não ter condições de perceber os estragos com antecedência, o trabalhador brasileiro ainda permaneceu por tempo esticado vivendo na euforia a partir do primeiro mandato de Lula. Os salários foram sendo ajustados acima da produtividade e isso mascarou tudo, justificando a colagem da anestesia psicológica sobre as pessoas comuns”, comenta.

De qualquer forma, o economista vê com naturalidade o comportamento de anestesia das pessoas. “Nossa democracia é muito jovem e temos uma base da pirâmide social carente de tudo, de informação, de educação, de cultura, de qualificação. É compreensível, com esse quadro, as pessoas serem seduzidas por discursos mais fáceis, as pessoas serem iludidas com mais facilidade. Na economia, basta a pessoa ganhar um pouco a mais que ela tente a se anestesiar pelo momento. Isso é um processo que arrebenta a vida das pessoas não só no Brasil mas em toda a América Latina. Elas não veem que essas medidas populistas, mas sem sustentação, devastam a vida social. Praticar excesso de crédito para quem não tem a mínima condição de avaliar o cenário real é um desses excessos que produz a anestesia”, complementa.

Na Apas Regional Bauru, dirigida por Émerson Svizzero, a sensação é de que o setor revê processos internos de atuação. “A ideia de que todos estamos tentando fazer mais com menos é real. Vejo os empresários enxugando setores e buscando reduzir rotinas ou racionalizar procedimentos. Outra mudança sensível foi a melhora na triagem nos processos de contratação. Antes havia escassez de mão de obra, então a necessidade afrouxou um pouco os critérios. Agora, há oferta de gente qualificada e menos vagas. Aparece muita gente treinada, qualificada. É o lado positivo da crise no ambiente de melhorar a eficiência e gestão em relação à crise”, sustenta Svizzero.

Outro aspecto destacado pelo empresário do ramo supermercadista é o de que, mesmo entre jovens, há sensível evolução no comprometimento dos trabalhadores. “A crise é estranha. Afeta a vida de todos, por várias formas. Mas provoca mudanças de comportamento também, por necessidade ou não. O lado bom é que há despertar de mais comprometimento e menor migração de mão de obra por imediatismo. Até pouco tempo, o ímpeto de jovens talentos era atacado pelo atrativo de ganhos imediatos melhores em outros empregos. A crise faz as pessoas pensarem mais”, completa. 

Da regional Bauru da construção civil (Sinduscon), Ricardo Aragão, conta que o fim do boom no setor provocou mudanças. “Até cinco anos, o aumento significativo da procura por mão de obra levou muitos profissionais a cobrar mais caro por serviços e a preterir um trabalho por outro, imediato, mas com ganho maior. A crise gera o inverso. Há mais qualificação de mão de obra e melhor triagem nas contratações, até pela oferta. E isso muda padrões e exige também perfil de maior comprometimento”.      

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