Geral

Rede social reforça o sentimento de solidão

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

pandalargo.com.br
A plataforma mundial oferece a falsa sensação de acesso irrestrito, mas até escraviza

Aparentemente contraditório, o acesso às redes sociais, ao invés de estreitar as relações entre as pessoas, tende a favorecer o isolamento. A solidão na rede frustra, de certa forma, a expectativa originária gerada sobretudo no início da década de 90, quando a mundialização da informação por redes digitais prometeu revolucionar as relações humanas. Na prática, o que se vê 25 anos depois é que o contato na ponta dos dedos fortaleceu a individualização, apesar do acesso “irrestrito” e imediato possível entre pessoas em qualquer lugar do planeta.

Na euforia da novidade da comunicação virtual, o surgimento de programas de relacionamento, como o ICQ, foi apresentado como elemento capaz de permitir a “humanização” de todos a partir do conforto do lar e com o acréscimo de que cada um poderia estreitar relação com qualquer indivíduo e não mais somente por intermédio da turma da escola, do trabalho, da igreja, do bairro ou do time de futebol.   

Ao contrário, as plataformas de comunicação por computador fortaleceram a individuação e “escravizaram” relacionamentos em razão de sua implícita lógica de artificialidade. Além disso, as relações digitais trataram de condicionar a escolha dos contatos e dos ‘diálogos’ ao sabor do momento e dos desejos dos usuários. A carência por vínculos de afeto e amizades profundas acabou, inclusive, sendo exposta, de certa forma, nas redes.

Dependência

Os “amigos virtuais” passaram a demonstrar vício emocional pela necessidade de verem suas fotos, boa parte de conteúdo íntimo, pessoais, aliás, curtidas pelo público. E como adverte o sociólogo Leandro Karnal ao abordar a tese da “sociedade líquida” levantada por Sygmunt Bauman, o “número de clics passou a ter mais importância do que o próprio conteúdo dos posts”. A partir de então, a solidão na rede ainda assumiu comportamentos de dependência, com a máquina ‘ditando’ a regra de relação com o indivíduo e a plataforma servindo de confessionário das mais rasas fragilidades psíquicas e de comportamento.

A ferramenta de interação passou a ser utilizada como o instrumento da frustração pessoal do indivíduo. Os portais pessoais passaram a assumir o papel de exposições virtuais de carências. E a máquina se transformou no ópio do narcisismo, das confissões inconfessáveis, da intolerância ou, em boa parte do que se publica na rede mundial, de frivolidades e futilidades da espécie humana.

Consequências

E o que este uso sistemático das redes sociais está provocando nas relações humanas? Os avanços tecnológicos que facilitam o contato entre pessoas são acompanhados no mesmo grau pela satisfação pessoal e a melhoria na comunicação interpessoal? Para o sociólogo francês Dominique Wolton, a velocidade das informações produzidas em nível mundial pelo mundo digital cria um descompasso com a comunicação que, ao invés de aproximar as pessoas, acaba por distanciá-las.

Tal seleção de convívio não dispomos no mundo real, pois somos obrigados a encarar o outro e suas contradições seja em casa, no trabalho, na escola e não podemos simplesmente ignorá-lo fechando uma janela como fazemos nas redes sociais. A ideologia técnica constrói a ilusão de que, por meio da comunicação via novas tecnologias, nós poderemos nos compreender melhor do que por meio da comunicação humana. “Mas isso não é verdade”, salienta o sociólogo Wolton.

A intimidade disponível em um click

Frenesi do maquinário tecnológico permite que todos se coloquem em contato com dezenas de amigos virtuais e o click libera a privacidade para o mundo

Por Nélson Gonçalves e Fausi Santos

Tornou-se corriqueiro encontrar pessoas conectadas ‘24 horas por dia’, que dividem seu tempo de trabalho ou de estudos com chats de bate-papo, blogs, twiter, facebook, instagran e uma infinidade de outras redes sociais.

O frenesi do maquinário permite que todos se coloquem em contato com dezenas de amigos virtuais, que troquem intimidades, postem acontecimentos, compartilhem pensamentos e imagens e, em alguns casos, leiam e escrevam aforismos sobre pensadores, literatos ou celebridades. Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a lógica, como bem sabe todo viciado em chat, é o entrar e sair, a manutenção da ‘mania’ de inundar o silêncio com ‘mensagens’. E, assim, aborda o pesquisador, não são as mensagens em si que se constituem como conteúdo, mas sua circulação.

O que Bauman evidencia é que as redes sociais são um espaço aberto, na medida em que possuem várias ‘entradas e saídas’. Processo que dá ao usuário infinitas possibilidades de se conectar a uma infinidade de pessoas no circuito de participação. Por isso mesmo, as ferramentas virtuais são volúveis e efêmeras como os próprios laços humanos na contemporaneidade.

Ou seja, o ambiente virtual comunga de uma tendência fluida que perpassa a personalidade e os afetos dos indivíduos no meio social. Da mesma forma que o usuário da rede pode se conectar e desconectar quando melhor desejar, as relações de afeto e sexualidade também são marcadas por essa característica interativa e rápida.

Exibição

Raras vezes na história o corpo foi tão exposto como na atualidade pelas redes sociais. O que antes ficava privado a um álbum de família guardado a sete chaves, passou a ser disponibilizado em snapchat, facebook, instagram, álbuns virtuais de todos os gêneros. Também não é difícil se deparar com perfis abertos onde meninos e meninas se exibem em fotografias em variadas situações, sejam retratando eventos públicos ou na intimidade do quarto, em poses sensuais, às vezes demonstrando atributos de beleza, força, virilidade ou posicionamentos ideológicos (político, esportivo, étnico etc).

Assim, parece evidente que algo presente diariamente na mão das pessoas seja utilizado por elas como ferramenta de expressão de suas intimidades. Nas redes sociais, o corpo e as expressões de afeto são veiculados ao espaço público mundial (é o chamado sistema maquínico). É a plataforma no qual a subjetividade, os corpos e a sexualidade são expostos de forma cada vez mais comum, sem critérios de produção e postagem, sendo uma ferramenta apenas para expressão das vontades e desejos pessoais, uma via de expressão das fantasias, uma válvula de um querer e desejar anárquica, quase sempre.

Como anda a felicidade diante da Internet?

Divulgação
“Apesar de a Internet aproximar virtualmente as pessoas, não consegue estabelecer vínculos que supram a solidão e as angústias diárias”, comenta o professor Paulo Rennes

Toda essa facilidade e dinamismo das relações virtuais vêm acompanhados de maior sensação de felicidade e têm contribuído na superação da solidão entre as pessoas?

Para o professor Paulo Rennes Marçal Ribeiro, coordenador do mestrado em Educação Sexual pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara, parece que não. Para ele, um aspecto que as redes sociais evidenciam é a fuga de muitos indivíduos das adversidades e descontentamentos da vida real para o mundo virtual.

“Não é raro encontrar pessoas que substituem o convívio familiar, provocam o afrouxamento das relações sociais e em muitos casos na diluição de relacionamentos amorosos (casamentos e namoros) para “viver um romance virtual”. Em alguns casos há até a substituição do sexo real pelo sexo virtual, veiculados por esses indivíduos a um grau de satisfação e realização superiores ao sexo real”, afirma Ribeiro.

Mas para o acadêmico, é óbvio que na maioria dos casos se constata o deslocamento na percepção que esses indivíduos possuem sobre si mesmos e seu corpo. Isso porque muitas vezes a vida amorosa, sexual e social de alguns indivíduos é marcada pela rejeição, seja por padrões de comportamento e vícios de personalidade ou deformidades físicas e limites orgânicos que a impedem de possuir uma vida sexual prazerosa. Há também casos de degeneração das relações amorosas, o que pode levar a episódios de “traição virtual” e toda espécie de comportamento que converte as “máquinas” computacionais em plataformas da expressão das pulsões sexuais e dos afetos.

De qualquer forma, segundo Ribeiro, as redes sociais se tornaram o espaço da manifestação dos desejos que denuncia um tipo específico de subjetividade: o da conversação, da troca de ideias, da veiculação das futilidades diárias, da sondagem da vida das personalidades, da expressão de desejos, dos afetos, da canalização das carências e frustrações, da construção de subjetividades sobre subjetividades por meio de personagens imaginários ou virtuais (imagéticos) fruto da livre criação dos afetos.

No entanto, apesar disso, há a sensação em muitos usuários de que o tudo não é o bastante. Ou seja, apesar da Internet aproximar virtualmente as pessoas, não consegue estabelecer vínculos de comunicação profundos que supram a solidão e as angústias diárias. Estes usuários se queixam do esfriamento e afastamento real das pessoas, que algumas vezes, mesmo estando presentes fisicamente, se isolam em seu universo online com amigos virtuais. Quem já não se incomodou com situações onde o amigo presta mais atenção ao celular do que na sua presença?

Outro fenômeno observado por Ribeiro é o aumento da ansiedade em muitos usuários que possuem uma necessidade quase compulsiva em postar a todo momento seus afazeres diários e suas tarefas cotidianas. “O privado e o público se confundem. Tal postura denuncia, em alguns casos, uma carência e solidão profundas que precisam ser saciadas a todo instante por meio das curtidas, comentários e compartilhamentos”, conclui.

Comentários

Comentários