A garotinha entra na loja e pede para a atendente do balcão de lembranças para o Dia das Mães: “Você tem algum cartão para duas mães?”. Somente o humor do cartum da revista The New Yorker para sintetizar este momento em que existe ainda uma intolerância muito grande em relação a casais homossexuais e à própria homossexualidade. Passei muito tempo pensando no assunto, perguntando-me se era a favor ou contra casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Daí, a ter filhos por adoção ou concebidos em barrigas de aluguel ou não, seria apenas uma consequência. Agora, as pesquisas revelam que as crianças educadas por casais homossexuais não são nem mais felizes nem mais infelizes do que as educadas por casais heterossexuais. Sobretudo porque a função paterna pode ser exercida por uma mulher e vice-versa. Os americanos fazem essa observação há mais de 30 anos e não verificaram nenhuma diferença essencial.
No fundo, sempre pensamos que a função paterna e a função materna devem ser encarnadas por um homem e uma mulher, o que não é verdade. Nos anos 1980, a escritora e psicanalisa francesa Élisabeth Badinter causou controvérsias quando questionou “O Mito do Amor Materno” (Nova Fronteira) como uma criação mental, sem base científica (constructo). Denunciava vigorosamente a pressão exercida sobre as mulheres para que amamentem e para que sigam práticas como dormir com seus bebês. Instinto maternal existe sim, mas entre os macacos. Aquele conceito segundo o qual durante a gravidez as mulheres sentem pelo feto um amor irresistível e automático não passa de mito.
A utilidade desse mito seria atribuir às mulheres, um papel exclusivo – o de ser mãe. Para os homens, o poder, e, para as mulheres, a casa, o cuidado com as crianças, os trabalhos domésticos. O amor materno não constitui um sentimento inerente à condição da mulher. Isto não é um determinismo, mas algo que se adquire. Tem toda uma história e uma relação com os nossos pais. Lembra Badinter que nos séculos 17 e 18, as crianças eram entregues às amas. O conceito de amor aos filhos era outro. Só voltavam ao lar depois de cinco anos. Só uma criança em cada duas sobrevivia.
As babás eram mercenárias, e não alimentavam os bebês devidamente. Nem as aristocratas, nem as burguesas e nem as pequeno-burguesas queriam amamentar. No século 19, fizeram enorme pressão sobre as mulheres para que ficassem em casa e amamentassem durante seis meses, um ano, a fim de que os bebês sobrevivessem. Consideravam que o leite materno assegurava a sobrevida, e a França precisava de soldados e camponeses. Até o final do século 20, muitas mães francesas, sem leite, serviam vinho na mamadeira aos bebês, para que crescessem “saudáveis”.
A mãe ideal é tão rara quanto surgir um novo Mozart a cada século. Há mulheres com um dom particular, que conseguem achar a boa distância entre elas e a criança. Chegam a conciliar da melhor forma o seu projeto profissional ou realização dos seus desejos como um ser humano qualquer, com a sua vida de mãe. Mas a verdade é que não se pode exigir de todas, a abdicação dos seus sonhos de realização para ficar em casa com as crianças. Uma mulher é um ser humano com história, ideais e neuroses.
Será que elas são mais felizes por tolerarem os filhos e fingirem que não sabem da infidelidade dos maridos? Essa atitude é de uma mãe medíocre. Pode ser diabólico, mas a mulher não pode ser uma fonte de culpa – alertou Badinter. Fazer o que pode, tudo bem. Nem todas as dificuldades podem ser vencidas. E ponto. É o destino da humanidade. Essa história de dizer: “Mamãe, hoje a senhora não vai cozinhar”, pode ser boa para dono de restaurante. Minha mãe ouviu muitas frases como essa. Como uma mulher prática e conformada com o seu destino, simplesmente respondia: “Meu filho, deixa de ser cretino. E sai da cozinha”.
Abro o velho Larousse, abandonado em tempos de Google, e leio o conceito ligado ao adjetivo maternal – “Tendência primordial que cria em toda mulher normal um desejo de maternidade e que, uma vez satisfeito esse desejo, incita a mulher a zelar pela proteção física e moral dos filhos”. Fica cada vez mais claro que o amor materno não é um determinismo, algo inerente à mulher, mas algo que se adquire. Uma construção nascida do convívio.
O autor é jornalista e articulista do JC