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Em tempos de crise, aprendiz já vira provedor de sua família

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 3 min

Malavolta Jr.
A jovem aprendiz Terezinha de Freitas, 16 anos, mantém sua família praticamente sozinha
Éder Azevedo/JC Imagens
Simone Nicolau, do Ciee de Bauru: “Ou os jovens aprendizes trabalham para sustentar as famílias ou para ajudá-las”

Terezinha de Freitas tem 16 anos, mas parece ser bem mais madura para sua idade. Desde os 14, ela sonhava em conquistar a independência financeira. Todavia, a moça foi além: mantém sua família praticamente sozinha, graças ao trabalho de jovem aprendiz, que exerce em uma agência bancária de Bauru. Ela é só um exemplo dos muitos adolescentes que passaram a sustentar suas famílias nestes tempos de crise.

A garota vive junto à irmã, ao cunhado e à sobrinha, que ainda é criança. “Minha irmã passou a ser dona de casa depois que se casou com meu cunhado. Ele, por sua vez, perdeu o emprego e, hoje, faz bicos”, narra. Diante disso e já com pretensões de conquistar certa independência, Terezinha foi encaminhada ao Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) de Bauru. “Nunca foi fácil, mas não gosto de ficar parada”, acrescenta.

Essa realidade pertence a várias outras “Terezinhas” espalhadas pela cidade, conforme sustenta a supervisora do Ciee, Simone Pires Nicolau. Ela explica que a maioria dos jovens aprendizes atendidos pelo Ciee, de 14 a 24 anos, é de baixa renda. “Ou eles trabalham para sustentar suas famílias ou para ajudá-las. Contudo, devido à crise, o primeiro item tem se intensificado”.

Simone pontua também que é muito mais fácil um aprendiz conseguir uma colocação no mercado de trabalho do que seus pais ou pessoas de mais idade. “O aprendiz ganha, em média, R$ 600,00 para trabalhar seis horas diárias. Além disso, os encargos trabalhistas são menores. E o mais vantajoso: depois da crise, o profissional estará plenamente qualificado para trabalhar na empresa em que foi jovem aprendiz”.

Estagnação

Simone Nicolau confirma que houve uma estagnação de vagas de emprego neste ano em relação a 2015. Representantes de outras instituições, que fazem trabalho semelhante ao do Ciee, vão além: as ofertas caíram até 40% no mesmo período (leia mais abaixo).

A supervisora do Ciee atribui essa estagnação à crise econômica, mas diz que o trabalho que o órgão exerce junto às empresas evitou que houvesse queda de vagas. “Quando um cliente desliga um jovem aprendiz, nós o visitamos pessoalmente para mostrar que, mesmo que haja obrigação de tê-los no quadro de funcionários, há benefícios”, afirma.

Vagas para adolescentes caem até 40% em 2016

Embora os mais jovens tenham menos dificuldade para conseguir emprego, outras instituições que fazem um trabalho semelhante ao do Ciee, como a Legião Mirim, perceberam uma queda de até 40% das vagas de trabalho para esta faixa etária. “Por contenção de gastos, há empresas que despedem e outras que não abrem novas vagas”, justifica a assistente social da entidade, Luciana Aguiar de Oliveira.

Ela diz, ainda, que a Legião, que se mantém graças às empresas e à prefeitura, busca novas parcerias para “driblar” a crise. Uma delas é junto à Universidade do Sagrado Coração (USC), que disponibiliza estudantes de psicologia para ajudar a qualificar os jovens. Outra iniciativa é com a Concilig, que está com 40 aprendizes da Legião. A empresa cedeu um funcionário para capacitar todos os jovens vinculados à entidade.

Renan Casal/JC Imagens
“Independentemente da crise, eles têm de ser incentivados a enfrentar qualquer situação”, diz João Carlos Previdello, do Cips

Outro caminho é investir na autoestima dos trabalhadores, conforme sugere o presidente do Consórcio Intermunicipal da Promoção Social (Cips) de Bauru, João Carlos Previdello. “Independentemente da crise, eles têm de ser incentivados a enfrentar toda e qualquer situação”, acrescenta. Mesmo assim, a instituição registrou queda de 25% das vagas de emprego neste ano.

Obrigatoriedade

O que ajuda o jovem aprendiz a conseguir emprego em plena crise é a obrigatoriedade de sua contratação. O número de jovens aprendizes contratados pelas médias e grandes empresas deve ser igual a 5% do mínimo ou 15% do máximo de funcionários. “Eles não substituem os trabalhadores comuns, porque não ficam oito horas no trabalho e não exercem qualquer função, estão em fase de qualificação”, justifica o presidente do Cips, João Carlos Previdello.

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