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A vida ativa dos "oitentões"

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Malavolta Jr.
Irma Rangel Martins, 82 anos, frequenta as sessões semanais de pilates: “Gosto muito, me ajuda física e mentalmente”
 
Douglas Reis
Geraldo Martins, 81 anos, bem à vontade durante exercícios: ele também adora música

Eles estão em competições de natação, na aula de pilates, no grupo de voluntários, na oficina de bordados, na turma da caminhada e da dança, nas ruas, na escola, no meio social... em tudo. A magia da vida dos “oitentões” ostenta, evidentemente, fatores genéticos favoráveis mas, sobretudo, a opção pelo equilíbrio entre cuidar do corpo, da mente e da vontade de viver, o tempo todo.   

É o que revelam os inúmeros “oitentões” encontrados, com facilidade, pelo JC, ao abordar o aumento da expectativa de vida (leia mais na página ao lado) e a rotina recheada de atividade daqueles que ingressam nessa jornada do viver depois de oito décadas.

Entre os cada vez mais comuns personagens dessa vida ativa, está Flávio Motta, 84 anos a completar em julho próximo. Com quase 600 medalhas e mais de 30 troféus, o nadador máster cai nas piscinas quatro vezes por semana para manter uma média de 900 metros por dia de braçadas. “Para competições, eu treino 1.500 metros diários. Associo a atividade com a musculação para aprimorar a força e resistência”, conta.

Nabo, como é conhecido no meio, é incentivador da atividade física permanente e longeva. “Recomendo que todas as pessoas, evidentemente, façam atividade física regularmente, mas que, a partir dos 60 anos, todos mexam o corpo com frequência, regularidade. É não só saudável, mas fundamental. Os ‘coroas’ param muito cedo de se mexer e ficam barrigudos e doentes mais facilmente”, aposta.

Ele credita sua boa forma à insistência. “No meu caso, eu nunca parei com a atividade física e nem de competir. E isso é fundamental. Claro que eu também não fumo, bebo pouco, sob controle, e me alimento direitinho. Isso ajuda. Mas sem mexer o corpo não teria chegado até aqui como estou”, posiciona.

Dona Laura Soares da Silva, 83 anos, não participa de competições como Nabo, mas nem por isso está sedentária. “Eu tenho calendário semanal no Grupo da Terceira Idade do CSU (Centro Social Urbano) da Bela Vista, onde temos várias atividades. Com isso, também formei uma família lá. Todos são amigos. Rimos muito e nos mantemos ativas”, conta.

Entre suas “obrigações”, estão trabalho artesanal, bordado, dinâmica de grupo, exercícios e muitas viagens. “Eu não perco um passeio. E sempre tem. E ainda faço pilates uma vez por semana, cuido da casa, mas também gosto de ‘bater’ perna e viajar com o grupo”, acrescenta.

Da turma de 81 anos, Geraldo Martins Francisco, auxiliar mecânico da locomotiva a fogo da Noroeste do Brasil por 31 anos, instrutor do Liceu Noroeste por 18 anos, não desgruda de sua gaita de boca. “Eu tocava piston e mantenho a gaita, que gosto muito. Música faz um bem danado. Mas exercício físico é muito importante. Eu faço uma hora de exercícios por dia há 10 anos, direto. A gaita eu toco nas festas que me convidam”.

A prática com exercícios foi adquirida na formação em educação física. “Eu converso muito com o pessoal para que façam exercícios. Que não fiquem parados. Eu faço peito, braço, pernas para fortalecer. Mas também gosto de fazer artesanato em casa e ajudo minha esposa em fazer tiaras de cabelo. Vamos à Feira Ubá em Bauru com frequência para vender”, acrescenta, esbanjando bom humor.

Bom humor que Irma Rangel Martins, 82 anos, tem quase como um dogma de vida. “Alegria é essencial. Se aborrecer por pouca coisa só deixa a gente mal e não ajuda em nada. Outra coisa: quem não perdoa guarda mágoa. Quem sorri e mantém esperança deixa o coração cheio de desejo de viver e ele não fica doente”, filosofa.

Irma frequenta as sessões semanais de pilates. “Gosto muito, me ajuda física e mentalmente. A gente troca ideias e aprende muito. Eu também faço trovas, gosto muito de escrever”, cita ela, que foi professora primária por 30 anos. Irma ainda tem como gosto pessoal a poesia, o canto, a dança e o teatro.

“Quem está vazio fica mal. Quem mantém a alegria interior sempre está pronto para vier bem”, defende Irma.

Outro exemplo é Ives Pedro Rossi, 82 anos, empresário educacional e diretor-presidente do colégio GBI. Aposentado do Banco Nossa Caixa, Ives já foi dono de um posto de combustíveis e de uma imobiliária, em Bauru. Na Entrevista da Semana do JC, no último dia 24, ele afirmou: “Para mim, o trabalho é um prazer.”


Convívio e afeto são fundamentais

Aposentadas não, guerreiras. De bem com a vida sim, velhas e velhos jamais. Mas, sobretudo, cercadas de atenção e afeto. Para a psicóloga junguiana Michela Kauffmann Pires, a visão de que as  pessoas nesta idade estão “no fim da vida” é algo bastante “ultrapassado”.

“Discutir que é comum conhecer pessoas na faixa etária dos oitenta anos com muita disposição, energia e atividade, além de sapiência é fato. Mas talvez a contribuição para o novo olhar para essa situação, cada vez mais comum, é o de também não associar essa vitalidade apenas à prática de atividades físicas e hábitos saudáveis. Há outros elementos importantes a serem considerados e aqui a essência está também no convívio com a família”, observa a profissional.  

Michela Pires adverte que muitas dessas pessoas mantêm rotinas de trabalho, inclusive, mesmo adequadas à sua condição, mantém planejamento de ações em casa e, sobretudo, de relacionamento com os seus próximos. “São pessoas realizadas, bem humoradas, que não passaram pela vida por acaso. Além da saúde e dos fatores hereditários, é importante observar como a família está acolhendo essas pessoas, qual o envolvimento em afeto no convívio com essas pessoas. Esse talvez seja o diferencial mais importante a ser considerado”, sugere.  

Do ponto de vista psicológico, ela aborda que é preciso “ter sempre sentido do que estamos fazendo. Não dá para agir sem propósito, pois torna-se a vivencia vazia, sem objetivos”. Ela exemplifica, em seus laços, a convivência com Francisco Luciano Sampaio, 85 anos, que continua a administrar sua loja (Gaby Sampaio) juntamente com seus filhos.

Michela Kauffmann Pires também lembra de Juca Botelho de Figueiredo, na mesma faixa etária, que atua ainda em sua empresa de administração de condomínios e terceirização de serviços (Consiste).

“Ambos têm suas limitações por conta da idade, mas isso não faz deles menos importantes em suas atribuições. Conheço outras pessoas nessa faixa etária do sexo feminino e que encontraram no artesanato uma forma de viver bem, procurando se atualizar e acarinhar o tempo”, acrescenta.

Assim, para a psicóloga, o suporte familiar é essencial, além do convívio rotineiro com filhos, netos e demais parentes. “São pessoas que requerem mais atenção, cuidados. As dificuldades aparecem menos sempre que a família está pronta para esse tipo de ajuda por conta de suas atividades e responsabilidades da vida atual. Por outro lado, a falta da família por perto, com afeto, é muito sentida por essas pessoas”, adverte a profissional.

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