Articulistas

A ópera do malandro

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min


No terceiro ato da ópera Aída, de Verdi, a heroína canta a famosa ária conhecida como “O pátria mia”. Aída, simplesmente expressa sua desesperança crescente pela pátria. Em Norma, de Bellini, a personagem se sente traída, joga a coroa no chão e entrega-se aos druidas em sacrifício, enquanto o coro atinge o seu clímax e as cortinas se fecham. Puccini, em  Madame Butterfly mostra a  força do destino, muitas vezes construído por nós mesmos. A presidente afastada Dilma Rousseff disse que vai aproveitar o seu tempo livre para ouvir óperas e frequentar livrarias. Motivos não vão faltar para se emocionar e refletir sobre os últimos acontecimentos que sacudiram o país. Mesmo para quem se opõe ao impeachment, Dilma foi vítima do isolamento que ela própria criou a sua volta. Lula acreditava na sua capacidade de gestão, mas não percebeu em tempo a maior dificuldade da sua protegida, o de relacionamento. Lidar com dezenas de deputados, senadores, ministros, empresários e sistema judicial não é uma tarefa para os fracos do estômago.

Apagam-se as luzes. Fim de 13 anos de poder do Partido dos Trabalhadores. Houve momentos de glória. A orquestra agora toca acordes soturnos, as luzes se apagam e fecham-se as cortinas. “O teatro é o manicômio, e a ópera o pavilhão dos incuráveis”, sentenciava Rossini.

Um novo espetáculo tem início. Os cantores de ópera não costumam desejar boa sorte uns aos outros. A fórmula usada no meio é a expressão italiana “In boca al lupo!” (na boca do lobo), cuja resposta é “Crepe il lupo” (que morra o lobo). Fundado há 36 anos numa sala cedida pelas irmãs do Colégio Sion, em São Paulo, o PT pode estar chegando ao fim ou, no mínimo, a um duro recomeço.  Conseguiu ser, ao mesmo tempo, pai dos pobres e mãe dos ricos. Para chegar ao poder aproximou-se do que de pior havia na política. Em 2002, a esperança venceu o medo e o maior partido de esquerda da América Latina elegeu o presidente, com 50 milhões de votos. Deu Lula no segundo turno. Em 2005, perdeu sua inocência com o mensalão. Decepcionou não só a madre superiora do Sion, como a maioria dos intelectuais que apoiou a ideia de um Partido dos Trabalhadores. Em 2014 veio o petrolão. 

Segundo ato. Apresenta-se um governo de “salvação nacional” que conta com um quadro ministerial de primeira ordem: nove deles foram citados em delações da Lava Jato, inclusive o próprio interino Michel Temer. Um deles, o ministro dos Transportes Maurício Quintela (PR), está condenado por desvio de recursos da merenda escolar em 2014, quando era o secretário da Educação de Alagoas. Recente pesquisa do DataFolha revela que somete 2% dos eleitores consultados votariam em Michel Temer, numa eleição presidencial.  Restou limpo Henrique Meirelles, ministro condutor de toda a política econômica, do qual depende o país para abrir o paraquedas que interrompa a sua queda livre. Meirelles, ex-presidente do Boston Bank foi chamado para ser o fiador de Lula, em 2003. Sua presença no Banco Central seria a garantia de que o metalúrgico, governaria cumprindo a cartilha da economia. Deu certo. Meirelles assumiu com juros de 25% ao ano e inflação de 12,5%. Saiu com os juros em 10,75% e inflação de menos de 6%. A dúvida está em saber se o Congresso Nacional, com 60% dos seus integrantes acusados de algum tipo de crime – até de homicídio – estará disposto a aprovar as medidas que possam salvar o país, no curto prazo. No longo prazo, estaremos todos mortos, rezava Keynes.

O mercado já precificou as ações na Bolsa e as correções cambiais, antes mesmo da certeza da queda de Dilma. Desde sexta-feira tratou de realizar lucros e voltar ao patamar de antes, até que o governo Temer possa cumprir sua lua de mel com o sistema econômico. O presidente interino deixou claro que não será candidato em 2018. É uma vantagem. Pode tomar medidas impopulares. Precavido, tratou de anunciar que continuará com os programas sociais. O Bolsa Família (Adams), atende a 50 milhões de pessoas e custa 30 bilhões de reais por ano ao país. Seria um investimento produtivo se fosse emancipativo e não apenas compensatório. Temos o Minha Casa (Mal Assombrada) Minha Vida; o Pronatec, de acesso ao ensino técnico e ao emprego; o Fies, de financiamento escolar; o Prouni, de bolsas integrais e parciais de ensino superior. Haveremos de dar conta. Vem aí o imposto “provisório” sobre as movimentações financeiras (CPMF), a reforma da Previdência, o congelamento salarial, o salário mínimo sem ganhos reais. A esperança é que, nessa Ópera do Malandro, os protagonistas se regenerem e tratem de cuidar do moribundo, antes que morra sem deixar herança.

O autor é jornalista e articulista do JC

Comentários

Comentários