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Uma preguiça das boas!

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Douglas Reis
Pedro Santoro Zambon é um preguiçoso assumido.

Deolinda Azevedo, bancária, aos 54 anos diz não ver a hora de se aposentar para ficar ociosa de verdade,  o que só acontecerá aos 60, se a regra não mudar.  Ela assume gostar de ser preguiçosa. “Sempre tive dificuldade para sair da cama, para atividades físicas, e no calor, em vez de nadar,  sempre fui de virar jacaré. Meu negócio é ficar ali, curtindo o sol, e gosto de ser assim”, relata. “Mas tenho consciência de que as gerações estão cada vez mais preguiçosas. Minha mãe brigava comigo e ela tinha razão. Ela teve uma vida mais difícil e de mais afazeres do que eu.  A minha avó, por exemplo, era da roça, imagina cozinhar no fogão a lenha. E eu tive mais trabalho do que minha filha e, do jeitinho que minha mãe brigava comigo, eu briguei muito com ela para sair da cama. A vida moderna facilita a gente se tornar preguiçoso”, conjectura.                 

E emenda:  “meu neto não larga o tablet e já vejo minha filha brigando com ele”.

Deolinda Azevedo permitiu que usássemos o depoimento dela, mas não quis ser fotografada de jeito nenhum. “Não pega bem", justifica. "Preguiça é pecado, né?”.  É, mas nem tanto assim...

Primeiro, não é pecado mortal. Segundo, cada vez mais estudiosos mostram a necessidade de o ser humano parar e não fazer absolutamente nada, até para manter a saúde mental, é o chamado ócio criativo. E há até quem afirme que enfrentar uma maratona de 12 horas de uma série de televisão, não é ser ocioso. É o que diz o professor  universitário Pedro Zambon, ele mesmo um defensor “irredutível" da preguiça na vida das pessoas.


Preguiça social

Antes também de creditar a alguém o rótulo de preguiçoso, é importante também diferenciar o ato de algumas patologias. Por exemplo, a narcolepsia, que é o excesso de sonolência ou a depressão, tem entre seus sintomas a passividade e a falta de motivação. Há ainda a Síndrome da Fadiga Crônica, ligada ao cansaço. Assim, se conclui que se o preguiçoso não está doente, algumas pessoas, quando portadoras dessas doenças,  têm a preguiça entre seus sintomas.

E há também “preguiças pontuais”, um comportamento mais moderno e ainda pouco estudado. E sem querer, você que está lendo pode ser vítima dela.  Não é fobia, mas é a falta de desejo de sair, passear, largar o ninho, viver fora da sociedade nos momentos de lazer.

Você tem vontade de ir ver amigas, de passear, até compra ingresso para uma peça de teatro, programa um cinema entre amigas, marca de aparecer em um happy hour,  e não vai. Vai ficando, vai ficando e quando vê, já não saiu de casa. A esse sintoma se chama “preguiça social”.  São pessoas, por exemplo, que estão, nos dias de hoje, avessas a baladas e encontros.

A professora Renata Faleiros é uma delas. “Acho que minha profissão me tira um pouco dessa vida social”, diz, aos risos. Mas Renata acha que as grandes reuniões sociais estão fadadas a serem superficiais. “Por isso, sempre me reúno em casa ou em casa de amigos, mas só em programas com pequenos grupos.  Já não consigo mais frequentar lugares barulhentos e com muita gente falando. Eu sempre fui de sair, dançar, conversar... Mas de uns anos para cá, tudo mudou”, diz ela, que desenvolveu a tal “preguiça social” e hoje só curte encontros mais intimistas.

Parece coisa de velho. Mas não é. Cristina Bastos Pimentel, ex-modelo, hoje “do lar”,  endossa o coro dos que têm a preguiça social. E olha que ela é bem jovem. Adora ficar ao lado da filha Alice, 5 anos. “Pago para não sair de casa, só faço programas com ela mesmo.” E Cristina, por causa da profissão, já foi de muita badalação. Em São Paulo, era frequentadora assídua das festas de Alicinha Cavalcanti, considerada a mais famosa promotora de eventos do País. “Saía de segunda a segunda”, lembra ela, que já não trabalha mais. “Hoje, se puder faço tudo pela Internet. Não faço o menor esforço para sair de casa”, conclui.


“Ócio não é lazer”

“Eu sou um apoiador irredutível do papel e da importância da preguiça na vida das pessoas, só que minha visão é um tanto quanto diferente dessa postura de postergar as coisas, a preguiça social, o isolamento, não querer fazer nada... Tenho uma visão de que o ócio tem um  papel extremamente importante dentro da formação da rotina e do equilíbrio de uma pessoa”, defende o professor universitário Pedro Santoro Zambon, mestre em comunicação.

Ele explica o que é o ócio que muitas pessoas confundem com o lazer. “É diferente de lazer, de você  estar executando alguma coisa – o que acontece é confundirem uma procrastinação de lazer com a preguiça.Quando você está vendo uma série de televisão, usando o computador no Facebook, você continua lendo, escrevendo, produzindo,  consumindo, você não está no ócio, você está executando uma ação que não é o seu trabalho, mas você está produzindo.. Trabalho é qualquer atividade em que  você executa um esforço... uma maratona de assistir 12 horas de série, não é uma preguiça... é lazer, não é ócio.”


A diferença

O mestre Pedro Santoro Zambon fala ainda sobre a importância de não fazer nada mesmo, não gastar energia. “Quando se fala em não fazer nada, e quando se diz nada quer dizer não produzir, não gastar energia, é o nada mesmo. E fazer isso conscientemente é o que produz  equilíbrio mental”.

Zambom explica que, diferentemente do  sono, que é um fazer nada que leva para o nível inconsciente do seu funcionamento mental, quando você fica parado, mas numa condição de consciência, você está, na verdade, assentando  aqueles pensamentos que durante a atividade de trabalho que você executa não consegue fazer. "Quando está ocupando sua mente com ações, você não consegue pará-la. No ócio consciente há um  processo de reflexão para ressignificar seu pensamentos de tal forma que consiga executar suas tarefas de maneira mais plena, refletida e compreendida...”

Sentiu a diferença? Em outras palavras, é importante reconhecer o valor da preguiça. E ele faz coro a  autores que reconhecem a necessidade dos momentos de preguiça para que possamos refletir sobre o que estamos fazendo. A falta de vontade de fazer algo deve ser momento de descoberta.


O que é preguiça

Falar em preguiça significa pensar em  um dia de descanso, quando deixamos as atividades de lado para relaxar, até a falta de vontade em retomar essas atividades ou iniciar qualquer forma de esforço físico ou mental. Uma falta de vontade que, em algumas pessoas costuma ser constante, igualzinha àquela que inspirou Jim Davis, a criar o personagem Garfield, o gato gordo, preguiçoso, adorador de lasanha e que, a rigor faz todos à sua volta (o dono, o cachorro companheiro) moverem mundos e ele mesmo, nada.

E em que pese a preguiça ser considerada um dos sete pecados capitais e, biblicamente, o ser humano laborioso (exatamente o oposto do  ocioso) ser  extremamente valorizado, não dá para atirar uma pedra nela, na bancária Deolinda Azevedo, e menos ainda na própria preguiça.

E mais: os momentos de ócio são muito indicados pelos médicos para a manutenção da saúde mental e não há definições médicas ou psiquiátricas que classifiquem a preguiça como uma patologia. No máximo, se pode dizer que é um ato inerente ao ser humano, já que na natureza não há animal que seja preguiçoso. Nem mesmo o bicho-preguiça é. Ele é apenas lento.  Sem contar que nos dias de hoje há a tal preguiça social e, claro,  o famoso ócio criativo.


Não é um sentimento

“A preguiça tampouco é um sentimento. Antes, ela é um estado exacerbado de repouso. A preguiça é um conceito inventado pela cultura”, explica o professor José Chadan, bacharel e mestre em filosofia. “Os animais, por exemplo, após comer, fazer sexo e ter as necessidades satisfeitas, deitam-se até que o relógio biológico os desperte para que satisfaçam as necessidades novamente. Fora isto, podem deitar-se e repousar. Todavia, ninguém seria capaz de chamar um animal de preguiçoso. Porém, se um ser humano fizer as mesmas coisas que acabo de descrever, certamente acusá-lo-ão de ser um preguiçoso”, explica ele em sua tese: “Preguiça – O Desejo Pervertido”. A  preguiça é, portanto, um conceito inventado pelo homem. A preguiça consiste na aversão ao trabalho. E talvez isso também justifique o fato de que muita gente não assuma ser preguiçoso, mas só em off.

 

 

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