Por volta de 2001, quando ainda lecionava, durante uma campanha eleitoral para a Presidência da República, deliberadamente, disse aos meus alunos de História: “Coloquem-se numa nave espacial, sobrevoem o espaço sideral e, de cima, numa visão historicista, vejam todos os presidentes da República brasileira de cabo a rabo, como um conjunto horizontal de fotos, desde 1889 até este ano. Vão ver que somente homens letrados e saídos das elites ou classes médias altas estiveram na administração de nosso país. Portanto, não percam a oportunidade que se apresenta e façam História!”
E fizemos História elegendo um operário, um homem saído das classes pobres para administrar a República de nossa pátria. Passados oito anos de novo, argumentei com meus alunos de História: “Gente, é a primeira vez que uma mulher vai ocupar o cargo mais alto de nosso país! Vamos fazer História!”. Acreditava que, pelo fato das mulheres se apresentarem em menor número na estatística da corrupção, dos crimes e da violência em geral, por serem responsáveis por quase 40% dos lares brasileiros e pela candidata ter sido quem foi, fosse a grande oportunidade de uma administração qualitativa!
E mais: quando eu estudava na USP/SP, por volta de 1968, este pessoal era composto por nossos ídolos! A Guta, amiga da Russa, frequentava o nosso “Puleiro dos Anjos”, pertinho da PUC/SP. O Chico e a Miúcha, amigos da Beth e da Lena de Ituiutaba, estudante do Mackenzie, faziam serenata em nossa janela! Éramos jovens e tínhamos a vida toda pela frente. Ledos argumentos. Deu no que deu... Tanto fizeram que se permitiram esta carraspana nacional. E onde foi que erramos? Será mesmo que a gente não sabe votar ou este jargão é somente um artifício apologético para resguardar as peripécias de politiqueiros? Eu tenho certeza, sabemos votar sim, sabemos fazer História com dignidade como fazem os cidadãos de qualquer outro país! E votamos com austeridade! Com consciência de causa! Essa conversa de não saber votar é um jargão que não cabe aos cidadãos brasileiros que, nas eleições, honram seus candidatos com seus votos.
O que a gente não sabe, e acredito que nem tenhamos formas de saber de antemão, é qual é a resistência do caráter de nossos escolhidos diante das negociatas indignas propostas inúmeras vezes. Não temos como avaliar até onde vai a força de sua honestidade e dos valores morais destes nossos homens e de algumas mulheres frente à tentação do vil metal? Em quais medidas eles se enquadram para não se deixarem cooptar pelas armadilhas do poder? Em quais parâmetros se encaixa sua ousadia para governar em benefício de um só grupo de pessoas desconsiderando a nação como um todo?
Onde se apoiam, em que se fundamentam para justificar a realização de seus sonhos políticos em detrimento dos outros sonhos menos poderosos, porém, não menos dignos de seus irmãos trabalhadores? Ou, mesmo, como saberíamos quais as intenções mais profundas que os conduzem a governar com temeridade, acreditando que existe um regime político tão perfeito que seja capaz de privilegiar a todos? Ingênuos! Eles e nós. Enfim, o que faltou aos nossos eleitos para bem desempenharem sua missão? Escola? Berço? Dignidade? Caráter? Respeito? Sabedoria pelo menos? Já dizia o meu amigo ex-prefeito de Bauru Edinho Gasparini: “O difícil mesmo é não se deixar corromper”. Ele bem sabia o peso destas palavras, porque foi um político incorruptível!
Lembro-me também de certo governador do nosso Estado que dizia com convicção que: “O sujeito que vier ao meu gabinete com propostas desonestas, sai daqui preso”. Tempo bom... Quero dizer que acredito em bons políticos, que acredito na democracia onde o eleitor vota para eleger, mas também, por meio de seus representantes, tem o direito de excluir aqueles que não honraram seus compromissos feitos em campanha, que traíram seus fiéis e crédulos eleitores, que usaram e abusaram da boa fé de todos eles, envergonhando-os diante do mundo, primeiro por permitir que a corrupção se instalasse e, para além disso, em níveis inimagináveis!
Receberam um país economicamente “redondinho”. Socialmente faltava muito, é verdade. Mas... depois de lá ficarem mais de uma década, nos devolveram um país economicamente esbulhado e socialmente desestruturado! Os que haviam subido, melhorado de vida um pouquinho, descambaram ladeira abaixo e ficaram piores do que antes. Estão agora no “menos zero”.
Não poderia sequer imaginar o quanto me custaria como educadora e historiadora aquela minha atitude. Não poderia imaginar quão caro pagaria o meu país pelo desgoverno autorizado. Foi mesmo um golpe perfeito e perverso porque mostrou aos menos favorecidos o que é qualidade de vida, o que poderia ser bom, para depois, quase que concomitantemente, permitir sem dó nem piedade, sem qualquer escrúpulos ou responsabilidade histórica solapar muito suor, muitos sonhos e quase todas as esperanças que tínhamos. Mas brasileiro não desiste nunca!
Recentemente, a Câmara dos Deputados e o Senado da República libertaram-me do peso que torturou minha consciência, em função da influência exercida sobre meus educandos, embora cheia de boas intenções e conhecimentos de História. Sinto-me exorcizada!
A autora é professora, doutora em História pela USP