Geral

Conferência liga suicídio à genética

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Malavolta Jr.
Para Fabrício Gimenes, dados são alarmantes e abrem um novo caminho na busca por tratamento 

O ato do suicídio não é desdobramento da depressão, mas tem origem no marcador genético, a partir do que os cientistas definiram como cromossomo 17. A afirmação, que já está causando, sem exagero, revolução entre cientistas da neurociência e psiquiatria foi apresentada, no mês passado, na Conferência Anual de Neurociência em Santiago, Chile, onde esteve o psiquiatra bauruense Fabrício Bertoli Gimenes.

Para Gimenes, os estudos – conclusivos – vão demarcar parâmetro e conceito no mundo da ciência. Até então, enfatiza o psiquiatra, o suicídio vem sendo tratado como desdobramento da depressão. Por esta razão, os medicamentos creditados a lidar com a prevenção sempre foram os antidepressivos. Mas a pesquisa desenvolvida pelo neurocientista  David Sheehan seguem em outra direção completamente diversa.

Segundo Sheehan, a pré-disposição ao suicídio está no marcador genético (cromossomo 17) e, portanto, os moderadores de humor lançados aos pacientes servem apenas para tratar depressão. Como tudo em ciência, a pesquisa de Sheehan vai “causar espantos” no meio científico e entre médicos.  

Todos os anos são registrados cerca de 10 mil suicídios no Brasil e mais de 1 milhão em todo o mundo. Isso representa um suicídio a cada 45 minutos no Brasil e um suicídio a cada 45 segundos no mundo. Os dados são alarmantes e abrem, na visão de Fabrício Gimenes, um novo caminho na busca de tratamento que impeça o portador do marcador genético fazer acionar o “gatilho” que pode levar a pessoa a dar cabo da própria vida. Leia na entrevista exclusiva ao JC:    

Jornal da Cidade -  O que a neurociência traz de novo para buscar a compreensão ou o diagnóstico sobre o suicídio?
Fabrício Bertoli Gimenes - É um divisor de águas. Se me perguntasse há três meses, eu teria uma definição a respeito do suicídio. Depois dessa Conferência Anual de Neurociência no Chile, em abril, eu vejo a diferença. A concepção era a de que o suicídio era o desdobramento da depressão. Ou seja, algumas situações fariam com que a pessoa perdesse o discernimento. O suicídio era um desenrolar dessa situação. Hoje vejo que não. As linhas de pesquisa apontam que o suicídio pode ter componente genético e não necessariamente vinculado à depressão.

JC - A rigor, a linha de pesquisa é que depressão e suicídio não estariam interligados?
Gimenes - Então, a partir dessas linhas de pesquisa com mais avanços nos EUA e Canadá, a ciência começa a pensar que nem toda pessoa depressiva cometerá suicídio. E nem toda pessoa vítima de suicídio tinha o componente depressivo. Até agora, os medicamentos que se acredita que podem evitar o suicídio são antidepressivos, para tratar o humor. E a ideia, até então, era a de que, consequentemente, isso reduziria o número de depressivos, o que reduziria o número de suicídios. Mas hoje isso não é necessariamente uma correlação. Portanto, ligar o suicídio à origem genética é uma nova linha de abordagem, de pesquisa nessa área na ciência.

JC - A mudança de abordagem na identificação do suicídio ligado ao marcador genético gera um marco na ciência?
Gimenes - Sim, esse é o grande marco a partir da pesquisa do neurocientista David Sheehan, que fez essa abordagem no Chile em abril passado. O grande marco é que a ciência, então, vai pensar pela primeira vez em desenvolver um medicamento específico para combater o suicídio, e não utilizar os moderadores de humor porque estes estão ligados à depressão.         

JC - A explicação para o suicídio, então, estaria no código genético identificado na pesquisa como o cromossomo 17?
Gimenes - Sim. Exatamente! O mais difícil da pesquisa nessa área foi mapear o processo genoma, algo finalizado há algumas décadas. O desafio é passo a passo, como tudo em ciência. Agora, temos a informação de que o suicídio está identificado nesse marcador genético, o cromossomo 17. O que chamou a atenção é que, como tudo na medicina, como o diabetes, como a hipertensão e alguns cânceres, há uma associação genética muito proeminente entre suicídio e o cromossomo 17. Esse marcador genético faz a gente ter a segurança de que sua presença pode trazer a pré-disposição ao suicídio nessa pessoa. Aqui, não é questão determinante.

JC -  Então, a identificação do cromossomo ligado ao suicídio é um marco. Mas isso não significa que isso vai se manifestar, que o gatilho será acionado nessa pessoa?
Gimenes - É pré-disposição ao comportamento suicida. E a pessoa pode desenvolver ou não esse comportamento. Como na hipertensão, a neurociência traz que o fato de que eu ter o marcador genético não significa que eu vá desenvolver. Isso depende dos meus hábitos de vida, de como vou conduzir minhas ações de escape, minhas atitudes frente a vida, a saúde. Mas a identificação está lá. É essa linha de raciocínio. Isso acrescenta uma ferramenta valiosa, porque leva a ciência a pensar em medicamento exclusivo para o suicídio. A droga teria, a princípio, o papel de inibir que o gatilho seja acionado a partir de sua presença no marcador genético.

JC -  Por outro lado, a ligação do suicídio à genética não exclui as ferramentas atuais da medicina?
Gimenes - É um demarcador porque traz uma hipótese antes não aventada, ou não identificada em pesquisa. Mas é uma ferramenta valiosa para complementar o tratamento ou direcionar em alguns casos. Eu fui ao encontro anual que reúne um grupo de neurocientistas, sobretudo dos EUA e Canadá, onde eles apresentam os estudos que estão sendo feitos. E esse foi apresentado agora. Então, essa linha de pesquisa vai gerar publicações científicas especializadas em dois ou três anos, com a abordagem e a conclusão a respeito do tema.    

JC - A linha de pesquisa específica que liga o suicídio à genética foi apresentada na conferência por David Sheehan?
Gimenes - Sim. É um médico irlandês radicado nos EUA, David Sheehan, muito comprometido em sua trajetória com a neurociência. É o novo caminho a ser percorrido no estudo do suicídio. O doutor Sheehan disse na conferência, como tudo em ciência, que ele estava dando a contribuição, o start inicial e que ficará para as novas gerações de cientistas percorrer o longo caminho. É bom lembrar que é um trabalho conclusivo. Outra informação importante é que já faz parte da análise clínica do paciente (anamnese) a checagem dos casos de ocorrência ou não de questões como o suicídio na família. O estudo, portanto, traz toda a bagagem do doutor Sheehan de seus estudos em neurociência com a contundência de dados empíricos vinculados na base. Sabíamos que o fator hereditário para determinada doença, como a hipertensão, aumentava a pré-disposição. O código genético identificado faz essa identificação agora para o suicídio. Está dado o start. Agora tem o desafio sobre a questão ética no estudo desse tema. A mutação genética é inviável até o momento. A linha de pesquisa é aceitável para saber quem é o inimigo. Mas interferir no código genético é fora de cogitação nos dias atuais. O que podemos ou não fazer com essa informação? Qual o caminho agora a percorrer com a localização do código genético ligado ao suicídio? A neurociência traz esse ponto de partida, como disse, um divisor de águas.

JC - Pensando no componente emocional. Qual o efeito disso para as famílias que se culpam quando há suicídio entre os seus?
Gimenes - É uma ocorrência também do ponto de vista humano magnífica, porque tira a carga sobre a culpa, normalmente trazida à tona, com força, entre os familiares, que se martirizam querendo explicar onde erraram. O marcador genético está lá. A pré-disposição pode ter o gatilho acionado por fatores ainda a serem estudados. Mas, ao contrário do que se tinha até agora, isso traz alívio sobre a culpa.

JC - E quais as orientações sistêmicas consolidadas para evitar o acionamento do gatilho para o suicídio?
Gimenes - Identificado ou não o fator genético, é preciso muito cuidado no uso de psicoativos, como maconha, cocaína e todo tipo de droga, incluindo álcool. Muito cuidado com os sintomas depressivos, ansiosos em exagero. A família é um termômetro significativo para o psiquiatra.     

Comentários

Comentários