Tribuna do Leitor

?Adeus, Lênin?

Renato Ghilardi - Professor Unesp - ghilardi@fc.unesp.br
| Tempo de leitura: 2 min

Dentre os vários embates acadêmicos aos quais participei, a conduta lógica de discussão mais sorrateira que existe é aquela que se utiliza da famosa sequência de falácias “ego insuflado – ad hominem – vitimismo”. Não ocorrem sempre nessa ordem, mas podem ser facilmente percebidas em discursos caducos e sem conteúdo. Inicialmente o debatedor enaltece suas próprias características nababescas; passa a desmoralizar principalmente a pessoa, e não as ideias, do seu interlocutor e finalmente se vitimiza dentro de uma situação melindrosamente montada em seus raciocínios embutidos de quimeras e devaneios. É simples assim! Fujam desse raciocínio!


Além de não trazer informação nenhuma, ela conduz a falsa inversão de valores éticos. De uma forma bem simplista, o que vimos nos últimos 15 anos de política foi essa sequência de falácias ocorrendo. O enaltecimento messiânico de um “proletário” no poder faz parte de uma conduta de uma parte da população descrita sabiamente por Lamounier como populista e burguês-proletária.

      

E essa parte da população não é o povo da classe baixa e muito menos o proletário, que fique bem claro. É uma visão de mundo que deve ser respeitada, claro, mas deve ser entendida de forma mais profunda pois faz parte de uma contextualização maior. O discurso rancoroso, magoado, vitimista e profético dizendo que a história registrará a perda de um movimento de capitaneamento do povo em prol do povo é um subterfúgio lógico para se redimir de qualquer tipo de ação que possa ocorrer no futuro.

Tudo o que aconteceu atrás, seja má gestão, desvio de verbas, enriquecimento ilícito, obstrução de justiça ou qualquer outro “probleminha” jurídico pode e deve ser apagado na história pois o que importou, de verdade, foi a conquista do povo dentro do poder executivo. É o “combate cultural” marxista em seu mais esplendoroso momento histórico no Brasil! É fácil verificar essas movimentações de disruptura cultural: uma palavra nova sendo criada, como presidenta, a indução de um pensamento polarizado extremista de valores e ideias, a homogeneização da mediocridade. Obviamente a saída desse pensamento é dolorido e causa traumas, pois mexe justamente com a formação da pessoa. É como se o indivíduo adaptado e anestesiado dentro de um sistema de repente acordasse em uma situação diferente de forma abrupta – como no filme ‘Adeus, Lênin’.


De início, a pessoa abre seus olhos lentamente, mas não consegue enxergar de tudo. É lento e gradual o processo para se compreender as novas realidades ao se abrir os olhos. Um rabino contou, certa vez, uma história onde algumas pessoas achavam estranho um cego andar pelas ruas da cidade com uma vela em sua mão. Ao perguntarem ao cego o porquê da vela, já que ele nada enxergava, sua resposta foi contundente: ele a carregava não para ele, mas sim para que os outros o vissem e pudessem ajudá-lo. Ajudaram-no e apagaram sua vela pois, sim, algumas velas devem ser apagadas.  

Comentários

Comentários