Tribuna do Leitor

Bauru e a crise

Renato Cardoso, jornalista, publicitário e bacharel em direito
| Tempo de leitura: 4 min

Se levarmos em conta os números anunciados pelo governo provisório quanto aos desempregados (11,1 milhões) e se trouxermos o mesmo a Bauru, permitimo-nos imaginar aqui um total expressivo de 20 mil desempregados. Talvez menos, considerando o privilégio de, num país pobre, nos situarmos no Estado mais rico da federação. Mas em uma razão direta, podemos pensar em 20 mil desempregados.  Comentarão meus amigos economistas que estou equivocado, porque Bauru não é uma Garanhuns, como também não é uma Curitiba. Não importa, pois não estamos em aula de matemática e sim abordando aspectos sociais e de forma triste, após passar pelas ruas e ver em destaque as incontáveis placas de aluga-se ou vende-se em pontos comerciais.


Reflexo da crise? Imagino não pairar dúvida quanto ao aspecto. Tenho conversado com pessoas, tentado saber tudo a respeito, ler o que comentam os especialistas, ouvir o que nos apontam os políticos e o que nos sugerem os governantes provisórios. Triste, mas além dos problemas da falta de dinheiro, recorrendo ao ditado antigo “em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”, temos de sobra, a discórdia, e não poucas vezes me vi sendo olhado por amigos de toda uma vida, apenas porque publiquei uma foto da passeata com predominância das cores verde e amarelo. “Coxinha” devem ter imaginado, com relação a mim.


Isso é de menos, o que importa no momento é apaziguar os ânimos e irmos em busca da solução, que por certo encontraremos. Nesse sentido, reporto-me a uma viagem feita há mais de 40 anos à Argentina, quando lá vi algo igual ao que vejo e sinto agora, em plena Bauru. Embora passados tantos anos e querendo fazer minha parte, de alguma forma propor uma solução ao imenso problema que direta ou indiretamente afeta a todos, lembro-me que na Casita Suíça, em Bariloche, os empresários se reuniam à noite, num patamar acima do usado pelos clientes, e lá discutiam como foi o dia, considerando o local viver do turismo.


Sem dominar o idioma, mesmo assim deu para conferir que um indagou como foi aquele acidente que feriu uma jovem, como foi aquela reclamação do hotel, o outro que comentou o custo do táxi, as condições do aeroporto local, a falta de atração em um determinado horário do dia e outros mais, no mesmo sentido. Lembro-me rigorosamente bem que o foco era a cidade enquanto polo turístico e que, em sendo, precisando encantar os visitantes.


Por acaso passei pela Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo e lá aprendi que turistas somos todos nós, do japonês com sua máquina fotográfica, ao piratiningano que vem aproveitar uma atração do shopping. Ou mesmo o cidadão do centro que decide conferir como está a Praça Portugal. Turismo é movimentação de pessoas que, em determinado momento, de alguma forma, consome algo. Por aí, ajuda a movimentar a economia.


Oras, se veio de Piratininga, no mínimo passou pelo posto de gasolina e isso faz parte do segmento turístico, daí todos que se colocam no polo receptivo terem que saber o que faz o vizinho, até para indicar, quando indagado pelo cliente que atende naquele momento. Isso! O turista pergunta no posto onde comer um sanduíche bauru, ou como faz para conhecer a copaíba.


Para que seja incutida na cabeça de todos da cidade, até que cheguemos ao ponto dito com relação a Bariloche de 45 anos atrás, temos que manter na cidade um instituto, uma ONG, seja lá o quê, para conduzir a organização receptiva da cidade, visando a geração de mais renda, impostos e, por acaso, aí sim, empregos.


Bauru, há alguns anos perdeu um bonde, quando os empresários locais não entenderam a proposta de termos aqui o Convention & Visitors Bureau, que tem como uma de suas missões exatamente esta, de organizar a cidade, ou seus agentes, ou atores, como queiram, para encantar o turista, seja ele do Japão, seja de Bocaiuva.


Hoje sei que naquele ano da década de 1970, lá no mezanino do restaurante, os membros do Convention Bureau faziam isso que, para muitos, vem a ser uma pólvora que o autor inventa no momento. Aliás, é na crise que devemos reinventar, analisar nosso negócio, nossa atividade e nos prepararmos para o que vem, indo na direção da máxima. “Depois da tempestade vem a bonança”. Todos estamos nos reinventando, fazendo ajustes, orientando melhor os filhos e tirando do momento tido como péssimo, os melhores ensinamentos.


A moça que me serve um delicioso sorvete sabe que no frio vende menos e disse-me: “É quando analisamos nosso negócio e nos preparamos para a nova safra”. Daí a proposta: vamos reinventar a atividade econômica de Bauru? Que tal começarmos pelo Convention & Visitors Bureau? O que sinto em quase toda população é que todos estão mais humildes, ouvindo mais, indagando, querendo saber. Nós não demos a devida atenção quando foi instalado em Bauru o Convention & Visitors Bureu e quem sabe agora?


O CVB atua nos centros mais modernos do mundo e lá sempre se renovando e dele tirando proveito...  Todos os envolvidos nos segmentos produtivos da cidade, da região, envolvendo rotas e roteiros, tudo no sentido de encantar o turista. Aliás,  turista pode ser sua esposa e quem sabe não seja este o momento de reinventar a relação matrimonial? Pronto, acabei de ajudar a floricultura (não é turismo?). Fica uma única pergunta: como fazer isso? E terão a resposta: é só querermos!

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