Regional

Fazenda de Duartina de amigo de Temer é invadida mais uma vez

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos: Alex Mita
A Fazenda Esmeralda foi ocupada ontem por integrantes da Frente Nacional e Luta (FNL)
Integrante da FNL decidiu dar um mergulho na piscina existente na propriedade rural invadida
Tirda prepara doce de mamão verde na Fazenda Esmeralda

Em menos de 10 dias, a Fazenda Esmeralda em Duartina (38 quilômetros de Bauru), pertencente ao ex-coronel da Polícia Militar João Baptista Lima Filho, amigo do presidente em exercício Michel Temer (PMDB), é novamente invadida por movimentos sociais. Desta vez o grupo intitulado Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL) ocupou a propriedade com cerca de 650 famílias por volta das 3h dessa segunda-feira (23).

A fazenda, de 1.500 hectares (2.100 campos de futebol), está registrada no nome de João Batista Lima Filho, amigo do peemedebista desde a década de 80, e à empresa Argeplan Arquitetura e Engenharia, que tem o próprio Lima como um dos sócios. Nos anos 1990, tanto Lima como a Argeplan contribuíram para as campanhas de Temer à Câmara. Em 1994, a empresa doou a ele ao menos R$ 100 mil (R$ 490 mil em valores atualizados). Temer é acusado de ser sócio oculto da propriedade, o que foi negado por ele.

O juiz de Duartina, Luís Augusto da Silva Campoy, deferiu nessa segunda (23) a ordem de reintegração de posse do imóvel, que deve ser cumprida ainda nesta terça-feira (24).

O representante da FNL Silvio Estevam Pereira explica que a ocupação já estava programada há tempo. “Nós estamos esperando um pronunciamento do Michel Temer sobre o novo presidente do Incra, que estava tratando da pauta de reivindicação de áreas aqui em Bauru. O atual governo desvinculou o atual presidente e nos deixou sem respaldo. Procuramos o contato com ele e não fomos atendido. É uma forma de protesto essa ocupação. Para que eles nos atenda e se posicionem sobre o novo presidente do Incra em Brasília,” afirma Pereira.

O grupo quer que suas reivindicações regionais seja atendida. “São a compra de imediato da fazenda Santo Antônio e da São Leopoldo destinadas a penhoras e sem retomada de recursos aos proprietários. O Ministério Público identificou que um deles tem mais de R$ 6 milhões em dívidas com a União. A gente esbarra na falta de atenção. A estratégia política é cobrar de Temer a deliberação dessas áreas para a reforma agrária.”

Na avaliação de Pereira, as duas fazendas destinadas a reforma agrária daria para assentar as 680 famílias que estão acampadas no local. “Chegamos essa madrugada e não temos data para sair, uma vez que vamos aguardar as providências do governo interino. Não viemos aqui para quebrar e nem depredar nada. Os locais que estão fechados continuam fechados.”

Os cerca de mil integrantes da FNL acampados na fazenda Esmeralda estavam usufruindo das casas. Cozinhando, ouvindo música, nadando e aguardando que suas reivindicações sejam atendidas. As mulheres estavam fazendo até doce de mamão verde. Eles prometem não pichar mais os imóveis. O local, que tem produção de eucalipto e criação de gado, foi pichado na primeira invasão no começo do mês com inscrições como “Golpista”, “Temer Ladrão” e “Ocupando Latifúndio do Temer” na área de lazer da sede da fazenda e nas paredes de cômodos da casa.   

Um funcionário da fazenda que preferiu não ser identificado revelou que o pessoal da FNL são mais acessíveis. “Nós retiramos todo o gado numa boa. Não estamos impedidos de entrar e sair. Eles são educados.”

A FNL, liderada por José Rainha Jr., é uma dissidência do MST.

Alex Mita
Transexual Giovanna Magrini integra grupo de sem-terra na ocupação de área

Transexual no movimento

Giovana Magrini, uma transexual entrou para o movimento social da Frente Nacional de Luta (FNL). “Entrei por não ter os meus direitos sociais e como ser humano respeitados. Por ser transexual sou considerada uma marginal, um lixo, não tenho oportunidade de trabalho. Tenho 40 anos e não tenho um único registro em carteira.

A sociedade não quer ver o transexual trabalhando, tendo dignidade. Para eles convém a gente ficar numa esquina se prostituindo.” Ela explica que tinha uma visão limitada do movimento e pensa em ter uma terra para poder abrigar quem vive na mesma situação como a dela.

Reintegração de posse

Alex Mita
"Chegamos essa madrugada e não temos data para sair", diz Silvio Estevam Pereira - representante da FNL 

O advogado do proprietário da fazenda invadida, Sylvio Clemente Carloni, informou ao JC no início da  noite dessa segunda-feira (23) que a Justiça de Duartina deferiu o mandado de reintegração de posse da área e de interdito, do qual determina que os integrantes do sem-terra têm de deixar o imóvel e estão proibidos de voltar. “O horário da desocupação vai depender de uma reunião entre o oficial de justiça e a Polícia Militar. O cumprimento do mandado de reintegração de posse deve ser imediato nesta terça-feira”, declarou.

O advogado ressaltou que, após a desocupação da área, será feito levantamento se houve estragos na propriedade. “Na primeira invasão houve muitos danos e ainda está sendo contabilizado para chegar a um valor e instruir a ação de cobrança. Da segunda invasão, ainda não tivemos acesso à propriedade”, informou o advogado.  O delegado da Polícia Civil Luis Carlos Amado na ocasião determinou realização de perícia na propriedade e pediu um levantamento detalhado dos danos e objetos furtados para instruir a investigação.

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