Articulistas

Dos Jardins de Academus

José Carlos Mendes Brandão
| Tempo de leitura: 3 min

Escrevo em nome da Academia Bauruense de Letras agradecendo a todos que colaboraram, às autoridades, funcionários e músicos da Secretaria da Cultura, para o sucesso da sessão solene de posse da diretoria do biênio 2016/2017 e dos novos acadêmicos e correspondentes, ou dela participaram, o que também é uma forma de colaboração. Sempre tenho dito que a própria existência de uma academia de letras é, em si mesma, de uma relevante importância para o país, o estado e, nosso caso, a cidade. Isso se compreende especialmente agora, no momento político que vivemos, abertamente contra a cultura, tão contra que quase extinguiram o Ministério da Cultura. Dizer que precisamos economizar não é justificativa: a pasta da Cultura tem uma verba ridícula. O ministro da Educação diz que o seu ministério está com verba reduzida, que teria que dividir com a Cultura, de onde se pode concluir que teremos menos Educação e menos Cultura.


É a cultura que revela o caráter de uma nação. É inconcebível que seja relegada a um segundo plano, que se queira silenciá-la, atrofiá-la e, enfim, sepultá-la. Cada país tem a sua cultura, influenciada por vários fatores, que lhe revela a alma, a sua razão de ser. Eu me pergunto se um governo transitório, que está apenas tampando buraco, teria competência para exterminar um ministério conquistado a duras penas, quando terminou a ditadura, representando a liberdade de criação artística. Não é à toa que a sociologia vê a cultura como uma variante da herança social. Esse ministério é um sinal de que novos tempos tinham sido alcançados e, após muita pressão, permanecerá. É certo que só um governo contra a cultura, ou, pior, que quer voltar atrás, se arvoraria a um tal desatino. Os artistas não se calarão, correndo o risco de esse governo se tornar com isso muito mais transitório. Lembremos que cultura são todas as manifestações do povo, que o governo claramente quer silenciar, mas está fazendo com que cada vez fale mais alto.  


É altamente saudável ver os poderes públicos de Bauru darem a oportunidade de, depois de vinte e dois anos de existência, a Academia Bauruense de Letras ter a sua sede própria. Bauru perdeu a sua Oficina Cultural nessa luta que sofremos contra a cultura, mas o governo municipal mostra a sua grandeza apoiando a nossa Academia de Letras. A literatura, mais do que um símbolo ou um mero registro, é o que dá permanência viva às criações do povo, à sua cultura. Dizem que as academias de letras, desde a primeira, a francesa, até as últimas, as municipais, são uma reunião de velhinhos inexpressivos, mas todos sabem que, apesar dessa crítica cruel, representam a cultura no que tem de mais profundo. Os Jardins de Academus são, mais do que um templo do saber, uma oficina do aperfeiçoamento do homem. As academias são o humanismo que sobrevive no seu mais alto sentido, os valores do espírito contra a coisificação do homem.


O autor é secretário geral da Academia Bauruense de Letras - ABLetras

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