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Resposta ao texto de Zarcillo Barbosa, veiculado nessa coluna em 22/05/2016

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(“Se a questão feminina parece tão absurda é porque o homem fez dela uma querela e quando as pessoas querelam elas não raciocinam bem” – Djamila Ribeiro, Secretária de Direitos Humanos do Governo Municipal de São Paulo.) 

Lamentavelmente, na mesma semana em que o sr. Zarcillo Barbosa teve a infeliz iniciativa de publicar um texto machista e misógino, altamente equivocado, nesta coluna, no qual ele exalta, veementemente, o “sofrimento” do homem na sociedade patriarcal para manter o que ele chama de “comodidades” femininas, uma adolescente de 16 (dezesseis) anos foi estuprada no Rio de Janeiro por 33 homens. Exatamente isso, 33 homens!

Infelizmente, casos como o da garota carioca não são fatos isolados. O grande efeito do patriarcado nas relações de gênero foi a “coisificação” das mulheres, ou seja, elas eram, e ainda são, em muitas situações, consideradas como um objeto que compõe o patrimônio masculino. Por óbvio essa herança legitima violências inconcebíveis.

Imaginem que há pouco mais de uma década o homem ainda era considerado por lei o chefe da família e por um longo período a legislação penal não criminalizava a conduta do marido que cometia homicídio face a mulher, motivado pelo que se chamava de “legítima defesa da honra”. Claro que o mesmo direito não era estendido ao cônjuge do sexo feminino. Somente com o advento da Constituição de 1988 as mulheres alcançaram, dentro do contexto jurídico e político, a tão desejada igualdade.

A lei mudou, somos iguais! Os dados por sua vez mostram uma cruel realidade, o que evidencia um longo caminho a ser percorrido. Poderíamos abordar um leque gigante de situações que vitimam as mulheres, porém, dadas as circunstâncias, optamos pela violência de gênero com contornos sexuais.

Um estudo publicado pelos pesquisadores Daniel Cerqueira e Danilo Santa Cruz, em março de 2014, na revista de n. 11 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, traz números alarmantes. Esse estudo estima que a cada ano cerca de meio milhão de pessoas são estupradas no Brasil; 89% dessas vítimas são mulheres; 50% têm menos de 13 anos; 15% dos estupros são cometidos por dois ou mais agressores; 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos das vítimas.  

A garota carioca é uma dentre tantas outras vítimas da barbárie machista, que vê no corpo feminino um objeto que não merece respeito, que não possui vontades próprias, que pode ser usurpado e exposto segundo seu bel prazer. Apresentamos aqui a realidade do universo feminino, que nada tem a ver com o mundo cor-de-rosa que o sr. Zarcillo expõe em seu texto.

O sr. quer mesmo direito à igualdade com o universo feminino, sr. Zarcillo? Oferecemos então a nossa realidade, aqui exposta através dos dados acima mencionados. Bem-vindo ao nosso universo, faça um bom proveito!

Não podemos deixar de mencionar que o texto publicado pelo sr. Zarcillo causa revolta não só pelo teor, mas pela biografia de quem o redige, já que se trata de um professor da cadeira do curso de Jornalismo de uma das universidades mais importantes do país, nossa tão estimada Unesp. Trata-se de um personagem local com voz em uma das principais estações de rádio do município, a quem muita gente ainda deposita algum crédito. Dizemos isso para deixar um alerta sobre o fato de que a ignorância sobre a condição da mulher é algo tão grave que ainda está presente inclusive no mundo acadêmico.

Ressaltamos, por fim, que o movimento feminista não tem como bandeira primordial o “poder”, mas sim a igualdade de oportunidades, a liberdade de escolhas e, essencialmente, o direito de dizer “Não”!


Aline Rodriguero Dutra, Procuradora Jurídica – Feminista. André Rodrigueiro C. P. de Oliveira, PhD em Ciência da Saúde – Feminista; Anna Paula Grossi, Advogada – Feminista; Cibele Fernandes do Prado, Advogada – Feminista; Douglas Maranhão Marques, Advogado – Feminista; Fellype Borges, Estudante de Direito – Feminista; Joicy Romano, Analista de Promotoria do MP/SP – Feminista; Jorge Antônio Soriano Moura, Advogado – Feminista; Karla Castilho, Advogada – Feminista; Maria Cristina Zanin Sant`anna, Advogada – Feminista; Márcio Machado, Advogado – Feminista; Nádia Fernanda Silva, Advogada – Feminista; Renata Cezar, Advogada – Feminista; Thiago M Aguiar, Advogado – Feminista e Williana Ojas, Advogada – Feminista

 

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