Articulistas

Crônica de Milão

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min


Italiano que não gesticula está morto. As palavras nunca tão suficientes para os italianos se comunicarem. Todos eles abusam da gesticulação. Estou sentado num dos centenários cafés da Galeria Victtorio Emanuele, em Milão, e meu amigo Ruperto, que acabo de conhecer, vai traduzindo o que os passantes estão dizendo com o ritmo insano das mãos acompanhando a conversa. Com as mãos amarradas o italiano fica mudo. A Galeria Victorio Emanuelle, construída no século 19, com o teto de estrutura de ferro e envidraçada é o ponto nevrálgico de Milão. Passam por lá milhares de pessoas do mundo inteiro, diante das lojas de grife e de preços astronômicos. Os italianos são facilmente reconhecíveis porque adoram contatos físicos. Caminham com a mão no ombro do companheiro. Quando um deles junta todos os dedos da mão direita no pescoço, Ruperto traduz: “não estou nem aí”. Outro bate a mão direita espalmada no meio do braço esquerdo (vai a farti fottere), ou seja, vai se foder. A senhora elegante, de chapéu e luvas, faz o mesmo gesto para o poodle toy e o yorkshire terrier que conduz pelas coleiras, como se quisesse aplacar a fúria secreta dos pets, em forma de dentes de agulha.

Câmara Cascudo dizia que o beliscão se popularizou com a vinda de D. João VI ao Brasil. Era um hábito português praticado na mulher dos outros e recurso dos professores mais severos. Na Itália, dizem que a mania de gesticular começou quando os galeses assaltaram Roma (362 a.C.) e um dos guerreiros pôs a língua para fora, injuriando os romanos. Engraçado... a cantada do milanês é visual, não-verbal: ele foca a vítima com um olhar trinta-e-três, dá um sorriso safado e acaricia o queixo. Na Galeria, outro tipo de espetáculo é dado pelos turistas. Mesmo com o véu islâmico, a moça árabe faz questão de pisar com o calcanhar do pé direito o testículo do touro, representado no chão por um bonito mosaico bizantino. Reza a tradição que dá sorte dar três voltinhas com o salto do sapato no coglione taurino.

Paguei o cafezinho mais caro da minha vida e fui ver a Catedral de Milão, que eles chamam de Duomo (Casa de Deus). Lembrei-me do tempo em que tentei preencher um álbum de figurinhas e esse templo gótico era a estampa “carimbada”, mais valiosa. Nunca consegui. Agora, estava diante daquela fachada de mármore rosa de Candoglia, muito conservada. Vitrais do século 13 a 20 contam histórias da Bíblia. No subsolo está a cripta onde foi sepultado São Carlos Borromeu, em 1610. Ele foi arcebispo do Duomo. Pôs ordem na casa. A igreja, ainda em construção, era usada como mercado e vendia de animais a hortifrutigranjeiros. Levou cinco séculos para ser concluída (1386-1813) e quase que a destroem nos bombardeios da II Guerra.  São 3.400 esculturas. Uma delas me impressionou: a de São Bartolomeu, obra do renascentista Mario Agrale, do século 15. O apóstolo foi esfolado vivo quando pregava na Armênia. A imagem mostra a musculatura em carne viva, com partes cobertas por um manto que é a sua própria pele. No teto da Capela Sistina, no Vaticano, Michelangelo reproduziu São Bartolomeu segurando a pele dissecada, inclusive com a parte do rosto onde o pintor se retratou. Pedi ao santo proteção para a família, inclusive para o meu amigo dr. Barthô que, por ser xará deve ter os seus privilégios. Dos 143 bispos da história do Duomo, 38 são santos.

Subi ao teto da catedral, com sua floresta de torres de mármore. Numa das agulhas está a Madonnina d’Oro, estátua dourada da virgem que é a protetora de Milão. Luchino Visconti filmou cenas antológicas nesse local, em  Rocco e seus irmãos. Alain Dellon e Annie Girardot se lambuzam de beijos sob o olhar da Madonnina. O filme é sobre a dura adaptação dos italianos do Sul, pobre, na rica Milão. Um escândalo. A cena foi censurada na Itália.

Na saída, na rua lateral do Duomo entro na fila para comprar um panzerotto do Luini, uma padaria do século 19. Só tem duas portas e nenhuma mesa. Parece um pastel, mas a massa é diferente. Diria que é um rissole grande, com mozzarella e tomate ou salame picante. Fui comer o lanche com a Eliane na Pracinha da Igreja de São Fidele, cem metros adiante.

O autor é jornalista e articulista do JC

Comentários

Comentários