Regional

Ex-detento é linchado em Jaú por populares após estupro de criança

Márcia Duran, Rita de Cássia Cornélio e Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 11 min

Douglas Reis
Local onde o ex-detento foi morto por populares, no bairro Jardim Padre Augusto Sanina, na cidade de Jaú

Uma promessa de oferecer um refrigerante a uma criança de 11 anos seguida de abusos sexuais são os indícios fortes do motivo do linchamento de um jovem de 24 anos, na cidade de Jaú (47 quilômetros de Bauru) na noite da última quarta-feira (1), no bairro Jardim Padre Augusto Sani, um núcleo habitacional de baixa renda, conhecido pela forte atuação do tráfico de entorpecentes, conforme o JC noticiou nessa quinta-feira (2). O estupro aconteceu e o homem acusado pelo crime foi morto por populares atingido por pedaços de pau, pedra, tijolos e granito.

A morte por linchamento do ex-presidiário acontece num momento tenso do país. Um estupro coletivo no Rio de Janeiro comoveu os brasileiros e movimentou as redes sociais. Radicalismos à parte, o linchamento do estuprador pode ser sinônimo da mudança de comportamento da população que deixa a Justiça de lado e a faz com as próprias mãos.

Reprodução/RG
Luan Ribeiro, que foi morto

Segundo o titular da Delegacia de Investigações Gerais de Jaú (DIG), Marcelo Aparecido Tomaz Goes, pode se afirmar com certeza que o linchamento aconteceu para vingar o estupro. Outras possibilidades foram aventadas, porém descartadas, porque Luan Felipe de Oliveira Ribeiro, 24 anos é um ex-presidiário. Ele já esteve preso no Centro de Detenção Provisória (CDP) Bauru por lesão corporal até 2013.

A menina conta com desenvoltura sobre o que aconteceu com ela. Pronta para ir à igreja na vizinhança, ela encontrou com dois vizinhos menores, um de oito e outro de 10 anos. Os amiguinhos apontaram para um bar, a cerca de 10 metros, onde um homem teria oferecido guaraná para eles. Curiosa, ela quis ver quem era o homem e também pretendia saborear a bebida.

“Eu fui até lá e perguntei se ele ia dar guaraná para mim? Ele disse que sim e me ofereceu a bebida. Depois que tomei, ele me convidou para ir até a casa dele buscar a carteira para pagar a conta. Eu chamei os meus amigos e fomos. No meio do caminho, ele mandou meus amigos voltarem”, lembrou a vítima na delegacia.

O menino de oito anos, que estava junto com a vítima, contou que eles caminhavam juntos e de repente o desconhecido mandou ele e o amigo retornarem, ficando só com a garota. “Eu voltei para casa e falei para minha mãe que a nossa vizinha estava indo com um homem desconhecido. Minha mãe chamou a mãe dela e avisou. Todo mundo começou a procurá-la.”

A dona do bar, que vendeu o guaraná e preferiu não ser identificada, contou que nunca tinha visto o tal homem no estabelecimento e muito menos no bairro. “Ele pagou guaraná sim para as crianças. Mas não vi ele descendo a rua com elas. Eu estava dentro do bar. Ele tomou uma pinga e depois saiu.”

Na versão da menina, após andar por cerca de 1.500 metros em direção à parte baixa do bairro, o homem  apontou um casebre e ameaçou a menor, dizendo que iria matá-la caso ela não o acompanhasse para dentro de um pequeno estábulo. “Estava escuro, tinha chovido. Ele tirou a roupa dele e mandou eu tirar a minha. Acariciou meu corpo, colocou o dedo dele na minha vagina, beijou meu corpo inteiro e fez sexo oral comigo.”

Depois disso o autor do estupro começou a se vestir, momento que a menina reclamou do frio e tentou colocar a roupa dela. Um descuido dele, enquanto ele se vestia, a menina fugiu e gritou por socorro. Ele fugiu em direção à rua Maria Helena de Campos. A vítima do estupro correu cerca de 10 metros e pediu ajuda para uma moradora. A polícia foi acionada e, em pouco tempo, tomou conhecimento do caso e encaminhou a menina para o atendimento médico.

Ao mesmo tempo, o agressor caminhou cerca de 500 metros e foi morto na avenida Alfeu Fabris. No meio do caminho chegou a abordar um morador e pedir um agasalho porque estava molhado e sujo de barro. Foi agredido com pedaços de pau, pedra, tijolos e granito. Segundo o delegado Marcelo Tomaz Goes, a agressão ficou concentrada na cabeça.

Moradores alegam que não viram linchamento

O homem morto na esquina chamou a atenção de mais de 100 pessoas, na noite do crime, comenta o titular da DIG de Jaú, Marcelo Goes. “Chegamos lá e havia uma aglomeração de cerca de 100 pessoas. Não identificamos os agressores. Acreditamos que eles estavam em 10. Os parentes direto da vítima de estupro não estavam no local e sim acompanhando o atendimento dela.”

Uma moradora da avenida Alfeu Fabris, que preferiu não ser identificada, contou que não ouviu e nem viu nada. “Passava das 21h. Meu portão é alto e eu durmo cedo. Só fiquei sabendo hoje pela manhã quando vi na televisão. Sai lá fora e o dono do bar tinha sido chamado para lavar o sangue na porta do estabelecimento. Ele também não estava aqui na hora do crime.”

Os demais moradores abordados alegaram desconhecer o fato, cada um com uma desculpa. Fato que comprova que nesse tipo de crime, o silêncio é a forma natural de preservar todos os participantes. 

Violência nasce da descrença no Estado, segundo especialistas

Justiça pelas próprias mãos deve ser evitada e casos refletem a atual desesperança do país    

A rapidez com que ocorreu a “prisão”, “julgamento” e “execução” da pena de um jovem de 24 anos suspeito de estuprar uma menina de 11 anos, na noite de quarta-feira, em Jaú (47 quilômetros de Bauru), escancara de maneira chocante e cruel a frágil relação existente entre a sociedade e o Estado, que é quem deveria garantir a aplicação da lei penal.

Sem sequer ter a oportunidade de se defender das suspeitas que pairavam sobre ele, Luan Felipe de Oliveira Ribeiro foi espancado até a morte por um grupo de moradores do bairro onde a criança mora. Na opinião do antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor da Unesp Bauru, situações somo esta refletem a descrença que as pessoas têm na Justiça.

“Todos os problemas que vêm surgindo atualmente têm aumentado ainda mais a nossa descrença frente à atuação do Estado. É como se ele não existisse. O linchamento, a justiça popular, se dá exatamente quando a sociedade não vê ou sente o Estado presente, ou seja, o Estado não vai fazer justiça e, portanto, a sociedade faz, e de imediato”, afirma.

O filósofo Fausi dos Santos compartilha de mesma opinião. “O linchamento faz parte, muitas vezes, dessa sensação que temos de que a justiça criminal, judiciária não dá certo: ou é morosa demais ou não dá a punição que deveria ser dada. Mas eu acredito que, em hipótese alguma, a gente deva acreditar que esse tipo de atitude seja a mais coerente”, analisa.

Ele diz que o linchamento remonta ao que o filósofo Thomas Hobbes chamou de “Estado de Natureza” na obra Leviatã. “Por não existir o Estado, valia a lei do mais forte”, explica. “A partir do momento em que nós estabelecemos o contrato social e o Estado civilizado, nasce a justiça. E é pela justiça que a gente estabelece os direitos e deveres de cada um”.

Na avaliação de Santos, o Estado brasileiro adoeceu em meio às crises econômica, política e moral e os sintomas são a desesperança, violência, regressão da civilidade e busca da liberdade individual em detrimento da liberdade coletiva. “As instituições pouco funcionam. Vivemos em uma sociedade que não forma o indivíduo e, por conta disso, você tem um sujeito também doente”, avalia.

“As pessoas acabam tendo muita dificuldade de lidar com suas próprias pulsões e com seus próprios instintos porque, uma vez que os mecanismos educacionais, por exemplo, não funcionam na medida de formar o caráter do sujeito de uma forma equilibrada, o indivíduo se torna muito instintual, muito compulsivo”.

Machismo e aspectos culturais contribuem para legitimar violência

João Rosan/JC Imagens
Cláudio Bertolli diz que o linchamento se dá exatamente quando a sociedade não vê ou sente o Estado  

Um ponto que ajuda a contextualizar a violência exacerbada das pessoas, segundo o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, é uma questão histórica que defende a morte de adultos que cometem crimes bárbaros contra crianças. “Tem uma história que vem desde o Brasil colonial de estupradores de crianças serem assassinados por membros da sociedade”, revela.

Ele chama a atenção, ainda, para o questão do machismo, que está enraizado na sociedade. “Existe uma construção da mulher pelo olhar masculino, que é histórica, de que mulher existe para servir ao homem. Nesse sentido, se um homem se sente tomado pelo desejo e pela vontade de manter relações sexuais, a mulher tem que se submeter a ele”, diz.

“Pequenos atos que vemos no cotidiano nada mais são do que uma reiteração, uma repetição de atos que são legitimados há séculos ou milênios. Isso é considerado pelo homem, ou pela maior parte dos homens, ou pelo menos por uma parte dos homens como algo extremamente natural. Há o desejo e, portanto, a mulher está lá para satisfazer o homem”.

Bertolli Filho pondera, contudo, que as recentes discussões sobre a chamada “cultura do estupro”, que se intensificaram a partir do caso de uma adolescente de 16 anos que foi vítima de estupro coletivo no Rio de Janeiro, corroboram para que haja uma intolerância generalizada em relação aos crimes do tipo. “Isso incrementou a indignação pública”, avalia.

‘Fúria popular’

Um dos perigos do linchamento público, na avaliação do antropólogo Cláudio Bertolli Filho, é a punição de um inocente. “Até o julgamento formal e legal, vira e volta, acaba cometendo grandes injustiças. Essa fúria popular se dirige a indivíduos que, muitas vezes, não têm nada a ver com o assunto”, observa. “A justiça popular é muito mais falível do que a justiça institucionalizada. Por isso que é muito perigoso a gente falar aquela bela frase: ‘A voz do povo é a voz de Deus’. Tragicamente, pode não ser”.

Caso será apurado por duas delegacias

Douglas Reis
Delegado Marcelo Goes vai apurar quem são os responsáveis pela morte de Luan Ribeiro

O caso de estupro seguido de linchamento foi desmembrado para duas delegacias. A Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) investiga o estupro de vulnerável. A DIG vai apurar quem são os autores do linchamento. A comprovação do crime sexual, sem conjunção carnal, ficou comprovada, alega a titular da DDM de Jaú, Isabel Cristina Maziero Martignago. “A vítima alega que não houve conjunção carnal. O laudo médico vai comprovar isso.”

O autor do estupro foi identificado nessa quinta-feira (2) após a polícia  localizar a carteira de identidade de Luan Felipe de Oliveira Ribeiro no estábulo onde o crime aconteceu. Em meio ao barro, o documento foi achado e ajudou a identificá-lo. Segundo o delegado Goes, o homem morto tem antecedentes criminais. 

Menina abraça emocionada dona de casa que a ajudou após o estupro

Um abraço histórico cheio de carinho marcou o encontro da moradora que socorreu a menina de 11 anos após o estupro. A vítima retornou ao local nessa quinta-feira (2) para mostrar a polícia onde ela passou momentos terríveis nas mãos de um desconhecido. Espontaneamente, a menor correu abraçar a dona de casa que retribuiu o carinho com mais atenção.

Faltavam vinte minutos para as 22h quando a dona de casa Ana Lúcia Lopes ouviu uma criança gritando por socorro. “Abri o portão e me deparei com a menina. Ela tremia muito. Estava apavorada, cheia de barro, toda suja. A blusa dela foi colocada de trás para frente e estava esquisito. Acionei a polícia.”

Segundo a dona de casa, a menina pedia encarecidamente que ela a levasse para casa porque um homem havia “mexido” com ela. “A polícia chegou e levou a menina para a Santa Casa. Ela estava com muito frio, mas não tinha ferimentos aparentes.”

Infância atropelada

Uma criança abusada, dizem os especialistas, nunca voltará a ser normal. Marcas profundas ficam em seu emocional e podem influenciar seu futuro comportamento perante a sociedade. Pensei em tudo isso quando vi a menina de 11 anos junto com a mãe. De pronto, ela falou que não queria aparecer. Menos tímida e machucada do que eu esperava encontrá-la, ela contou com detalhes os fatos ocorridos no casebre.

Fiquei estarrecida, mas ela se manteve firme. Falou dos traços do agressor, suas tatuagens, sua maneira de ser. Em minha cabeça, por um instante passou a ideia de válvula de escape. Rota de fuga, aquele botão acionado para nós livrar de um sofrimento ou dor profunda. Até que a ficha caia o nosso cérebro trabalha para enxergarmos como uma ficção. Algo que aconteceu fora de nós, longe da gente. Bendito cérebro que por algumas horas preservou a menina.

Um casebre no meio do mato

Douglas Reis
Local que aconteceu o estupro é coberto com lona e cercado de madeira para guardar animal

O local onde o crime de estupro se consumou é um espaço coberto de lona e cercado de madeira onde fica um cavalo. Ao lado, num local fechado, fica uma carroça. Existe há bastante tempo, reclamam os vizinhos. “No verão o cheiro é insuportável. Já pedimos duas vezes para a prefeitura retirá-lo dai. No inverno é bem escuro e propício para esse tipo de coisa. Os gritos da menina foram ouvidos, mas não dava para identificar de onde saiam,” conta um morador.

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