Tribuna do Leitor

?Boa vida das fêmeas?? Sério?

Camila Turtelli, jornalista e mestre em comunicação e semiótica
| Tempo de leitura: 2 min

Ao que se deve a tal dita “boa vida das fêmeas”? Há séculos as mulheres lutam por direitos iguais na sociedade, para deixarem de serem tratadas como seres inferiores aos homens. Lutam contra a diferença salarial, pelo direito de vestir o que querem, dizer o que pensam, votar e simplesmente não serem estupradas. Parecem questões batidas, mas só para citar um exemplo, de acordo com os dados levantados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) em 2015, o salário das mulheres brasileiras é em média 30% inferior ao dos homens.


Há tempos mulheres trabalham fora e dentro de casa, são provedoras de muitos lares. Um exemplo muito atual são as famílias com bebês vítimas de microencefalia no Nordeste do País, em que muitos pais não aguentaram o fato da doença e acabaram abandonando mulheres e filhos. Sobre o “o bafo da oposição sedenta”, as ainda poucas mulheres que alcançam cargos de destaque na política têm sabido enfrentar muito bem não só estas “críticas ferinas”, mas também as ofensas sexistas que nada agregam às suas governanças, independentemente de partido ou posição à direita ou esquerda.


Em relação ao infeliz conto sobre a troca de pneu, que reforça estereótipos, conduzindo a figura feminina a um objeto sexual, em o que se ressalta é o tal vestido colado e o salto alto -  o fetiche estereotipado da femme fatale que esconde a pulsão de um eros reprimido. Lamento que um conceituado comunicador e professor de uma das melhores universidades de jornalismo do País faça esta conotação.

Este relato corrobora com a educação misógina que ainda predomina na nossa sociedade e que leva muitas vezes à culpabilização de vítimas de estupros, como o caso ocorrido no Rio de Janeiro nesta semana, em que os agressores se sentem legitimados a realizar tal violência. Desculpe-me pegar tão pesado, mas infelizmente é este o caminho e é preciso parar com isso. No Brasil, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada, segundo o nono Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de 2014. Sem contar, na generalização.

Quantas mulheres não trocam pneus, pintam casas, constroem estradas, tocam boiadas, costuram, escalam montanhas, fazem música, dirigem caminhões e tudo mais o que se há para fazer no mundo? Não há privilégios dos sexos! Não vamos agora voltar para a época das cavernas. E antes que eu me esqueça, os homens choram e o mundo já percebeu isso há algum tempo.


Sobre a história da moda, qual é o intuito das gravatas? E dos sapatos lustrados? Das Ferraris e das canetas Mont Blanc? Querem iludir às mulheres, assim como os saltos e batons?  


Por fim, o jornal, ao ceder seu principal espaço de opinião a este texto, corrobora com a visão do articulista, algo que não condiz com perfil progressista desta cidade. Não se trata de censura, mas de uma questão de bom senso de não se fomentar discursos de ódio. Nenhum passo atrás!

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