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O papel da tecnologia na Educação

Pedro D?Incao
| Tempo de leitura: 3 min

“Se Galileu estivesse vivo e entrasse em uma sala de aula dos dias de hoje, não estranharia quase nada”. Ouvi recentemente essa frase de um doutor em Educação. Trata-se de uma crítica ao formato e à estética da sala de aula tradicional, com seus livros, carteiras, lousa, um professor à frente, alunos sentados. Modelo que nasce por volta de século XII, XIII, na Idade Média e perdura em nossos dias.


Tomando como ponto de partida essa argumentação e sentindo a necessidade de mudança, algumas escolas acreditam que transformando a estética da sala de aula, realizando a digitalização de materiais didáticos, tarefas online  e utilizando lousas digitais estarão renovando e transformando igualmente o processo pedagógico. Seria uma autêntica revolução copernicana pedagógica!


E agora, senhor Galileu? Ao observar o mobiliário disposto de forma diferente,  lousa eletrônica, alunos com livros digitais, ele iria certamente estranhar muito! Mas, se assistisse a aula e analisasse a relação entre o conteúdo e o aprendizado viria que, na realidade, nada ou pouca coisa mudou.


E é justamente essa a visão predominante no que tange à questão do uso da tecnologia nas escolas. A tecnologia tem sido usada como ferramenta substitutiva. Sai o livro de papel, entra o digital, sai o quadro negro entra a lousa eletrônica ou o projetor, sai o caderno entra o tablet. Mas os velhos hábitos continuam. Vemos um currículo escolar engessado, alunos desmotivados com os conteúdos escolares e estudando, quando necessário, apenas para as avaliações.


O raciocínio é mais ou menos o seguinte: a tecnologia substituiu com vantagens inúmeros processos em nossa vida cotidiana, porque não seria vantagem também essa substituição nos processos educacionais? Para contestar esse raciocínio precisamos entender como se dá a interação dos instrumentos tecnológicos no processo educacional.


Segundo Vigotski, psicólogo fundador da teoria histórico-cultural, o processo de mediação por meio de instrumentos e signos é fundamental para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Seja no trabalho ou na ação sobre o mundo para transformá-lo, o homem usa instrumentos. A mera substituição desses instrumentos ou ferramentas se revela inútil ou pouco acrescenta ao desenvolvimento cognitivo.


A tecnologia nesse contexto não deve ser considerada como instrumento  de substituição dos processos escolares, mas como uma ferramenta potencializadora. Steve Jobs considerava o computador uma das mais revolucionárias ferramentas potencializadoras da mente humana, “uma bicicleta para a mente”. Uma outra questão reside na dificuldade em inserir novas tecnologias no processo educacional quando muitas escolas continuam com uma visão distorcida e alienada desse processo. Em 1916, o filósofo Bertrand Russell escreveu: “O sistema de testes e exames e o fato de que a educação é tratada inteiramente como treinamento para a vida, leva os jovens a considerar o conhecimento a partir de um ponto de vista puramente utilitário, como a estrada para o dinheiro e não como a porta de entrada para a sabedoria”.


Podemos adaptar essa frase para nossa realidade em 2016 trocando apenas  a palavra treinamento por adestramento e a palavra vida por vestibular. E é justamente contra essa educação utilitarista, pragmática, que podemos usar os potenciais das novas tecnologias. Através do uso potencializador de computadores, iPads, aplicativos educacionais, ambientes colaborativos digitais e ferramentas de produção multimídia, podemos transformar o ensino utilitarista em ensino significativo sem jamais abrir mão dos conteúdos escolares fundamentais. A Escola é o local onde o aluno deve assimilar de maneira crítica e significativa os conteúdos que foram produzidos historicamente pela humanidade. Deve também ser o local onde se possa refletir de forma crítica sobre o amanhã, sobre a perspectiva futura da humanidade.


Em nenhuma outra época o desenvolvimento tecnológico teve tanto impacto sobre nossas vidas, tanto no âmbito pessoal como no âmbito profissional.


Tendo isso como premissa, uma escola que negue ao seu aluno os ensinamentos tecnológicos atuais e não incorpore em seu cotidiano escolar as tecnologias que já são parte do dia a dia dos alunos, atua de maneira irresponsável naquilo que é dever de toda a instituição de ensino, o de preparar os alunos a fim de transformarem o mundo para melhor. Esse deve ser o papel da tecnologia na Educação.


O autor é diretor do D’Incao Instituto de Ensino

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