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Estupro coletivo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Nenhuma produção jornalística, artística ou literária comporta apenas uma interpretação. Todas se submetem ao julgamento do público, e se enriquecem ou sofrem com leituras equivocadas e até levianas. Todo produto de criação é uma “obra aberta”, ensinava o já saudoso Umberto Eco.

Semanas atrás, escrevi uma crônica, gênero que permite fazer da ficção realidade, e vice-versa, na tentativa de induzir manifestações sobre as temáticas da emancipação da mulher e da igualdade de direitos. O gancho foi a ausência de mulheres no Ministério do governo Temer. Criei um arremedo da chamada cultura machista, invertendo os sujeitos para colocar as mulheres como verdadeiras beneficiárias desse mundo concebido. Posteriormente ao escrito, surge o caso do estupro coletivo, crime com requintes de crueldade contra uma garota de 16 anos. Chocou não só aos brasileiros como repercutiu em todos os países onde essas tragédias não são vistas como corriqueiras. Meu texto, que nada tinha a ver com estupro, serviu à furiosa reação da patrulha ideológica, explorando o clima emocional. Até pensei que este tipo de “aparelhamento” fosse coisa do passado.

Faz parte. Eu só queria mesmo era conhecer opiniões sobre isonomia salarial. As mulheres reclamam que ganham 30% menos do que os homens, mas a Constituição, desde 1946, e a CLT dispõem que todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, idade, estado civil. Por que a lei não é cumprida? Dizem que é um problema de mercado, não só no Brasil. Até nos Países Nórdicos há queixas. O recrutador quer saber se elas são capazes de equilibrar vida pessoal com a profissional. Felizmente, tem subido a participação da mulher na população ativa. É inegável. Mas, bem que poderia ser mais rápido.

“Meu corpo, minhas regras”. Não é do Estado, não é da Igreja e nem dos homens. Que tema mais instigante. O aborto, no Brasil, só é permitido em caso de violação, risco para a mãe e feto anencefálico. Está para ser votado na Câmara, projeto que limita o acesso à pílula do dia seguinte, de autoria do Eduardo Cunha. Proíbe-se a discussão de gêneros na escola. Todo mundo quieto.

Estupro já é um outro departamento. De nada adianta procurar as causas. Tem que acabar a impunidade. O ex-médico Roger Abdelmassih ficou 20 anos abusando de pacientes fragilizadas. Cumpre 278 anos de prisão. Foi um bom começo. A meu ver, estupro nada têm a ver com “sociedade machista”, mas com a banalidade do mal. Ocorre até entre mulheres. Nas melhores universidades, na Igreja, na família, no trabalho, no cinema. Em “O Quarto de Jack”, indicado para Oscar, há uma sequência de estupro vista pelos olhos de um menino. Está nas letras de música, desde Noel, Caymmi. Está na Bíblia. Li que no mundo ocorrem de 2,5 bilhões a 100 bilhões de estupros por ano. Tudo a ver com violência, poder e opressão e não com desejo sexual. Algumas culturas menos complexas criaram o mito da “vagina dentata”, a autodefesa castradora contra os que se atrevem a forçar relações com mulheres. Na modernidade, o mito acabou.

Desconfio que quem criou o baile funk foi Rômulo, o primeiro rei de Roma, há mais de 2.700 anos. Ele chamou os sabinos, para uma festa em homenagem a Netuno e sequestrou as mulheres dos convidados. Os povos entraram em guerra e as sabinas interromperam a batalha para reconciliar os lados. Elas não sofreram abusos sexuais. Sabinos e Romanos formaram uma nação única e dominaram o mundo conhecido. Na Piazza della Signoria, em Florença, há uma magnífica escultura de Giambologna, uma espiral de corpos nus entrelaçados. A lenda romana também inspirou Rubens, Davi e Picasso.  

Há que lembrar outras vítimas de estupros neste país: os milhões de desempregados. O Estado, moral e politicamente doente que nos violenta. A sociedade desonrada.  Foram assassinados 381 homossexuais em um ano; 42 mil pessoas morrem no trânsito; 150 mil assassinatos. Foram detectadas 100 milhões de imagens de violações nas redes sociais. Estatísticas existem para serem esquecidas. A intolerância contra o elementar direito de dizer, o sectarismo, o preconceito, o viés autoritário e a ausência do aprendizado do debate completam a tragédia brasileira.

Em Poema do Estupro, de Brenna Twony, ela, vitima, conclui “(...) todas nós desejamos que a guerra termine/ mas você está encarando um mundo em chamas/ reclamando de como as cinzas são feitas”.


O autor é jornalista e articulista do JC

 

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