Articulistas

Um general na minha cabeça

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Duro é saber que  dentro da gente existe um cara besta e mandão que não para de nos julgar. Über-ich é o nome desse alemão intruso. Traduzido, significa “aquele que  está acima  de mim”. Sim, ele mesmo, o vulgo SUPEREGO. Coisa mais terrível  ter na  cabeça um  general alemão vociferando o tempo todo. Ele nos censura os desejos, ameaça-nos com a possibilidade do fracasso, enche-nos de culpa e, nas nossas costas, vai empilhado, uma a uma, todas as  vergonhas das nossas derrotas. Sua ameaça preferida: lembrar-nos do que os “outros” (sempre eles) poderão pensar ou dizer  de nós. “Você vai sair  assim? Não acredito, já imaginou o que os outros vão pensar de você? Tem certeza de que vai fazer isso? Deus meu, o que  os outros não falarão?” É dessa forma ameaçadora que os “outros” entram na nossa cabeça para  nunca mais saírem.


Aliás, nessa tarefa de nos ameaçar com o ridículo, o general  sempre contou com a ajuda decisiva das mães que, para obterem o que queriam, evocavam a ameaça dos olhos alheios. Depois, essa estratégia maternal, por sucessão natural, acabou nas mãos das esposas, as quais continuam nos mantendo sob a mesma ameaça: “não quer me ouvir, tudo bem, espera então, você vai ver  o que os outros vão falar de você!”


Neste exato momento em que escrevo isto, sobre mães e esposas, o general abandonou correndo o plantão e veio  estourar os meus tímpanos, acusando-me de porco machista e que será muito bem feito  tudo o  vierem  pensar e  dizer de mim. É dose. Além de termos que pagar por toda culpa  cármica e, também, por aquela  infeliz mordida na maçã,  ainda somos obrigados a  conviver com esse general horroroso!


A patrulha do Über é tamanha que crescemos enfrentando o diabo, mas fugindo do outro. Vestimo-nos pensando no outro, escrevemos com medo do outro, falar em público nem pensar! Claro, imagine  um auditório inteirinho de outros! Que trauma! A opinião alheia é, assim, uma lâmina afiada, guilhotina  sobre a nossa cabeça. As consequências desse medo paralisante são as piores possíveis. Perdemos excelentes oportunidades de crescimento pessoal e profissional, abdicamos de sonhos e de projetos e, o pior, desperdiçamos a chance de mostrar às pessoas quem somos realmente. Passamos a vida nos escondendo, bicho procurando toca, se possível, desaparecer.


Fico imaginando quantos talentos precocemente feneceram, quanto sucesso abortado, quantos artistas não chegaram ao merecido palco, quanta criatividade se perdeu. Tudo pelo medo do outro, que bem cedo, fez morada em nossa cabeça. Tão nefasto  ele é que acaba  imobilizando as  pessoas, prejudicando-lhes o desenvolvimento da inteligência e da sensibilidade. Dá para conceber um artista com  asas cortadas? Um  orador amordaçado? Um trapezista em voo livre se borrando todo com medo do chão? Quem alcançou o sucesso  foi obrigado a enfrentar e derrotar esse nosso pior inimigo. Sem correr riscos, nada faremos, muito cimento nos pés.


Será que não estamos superestimando a opinião alheia? Certamente. Temos dado a ela um valor que, em realidade, ela não tem.   Boa parte da crítica alheia é pura inveja; outra, maldade pura; algumas vezes, construtiva, quando merece acolhimento e reflexão. E tem mais,  de que adianta nos preocuparmos tanto com ela se as  bocas são gregas, mas também, troianas. Chumbo grosso sempre haverá.


Agora um detalhe importantíssimo. Esse  outro monstruoso,  nosso problema,  pode ser a nossa solução,   nosso aliado. Basta que lhe confessemos os  medos que temos, os  fracassos que acumulamos, a insegurança que nos acompanha... Basta que sejamos verdadeiros e transparentes, ou simplesmente  humanos.  Deixemos que o outro  veja a nossa cara real, limpa, sem as máscaras habituais. Agindo assim, ganharemos um irmão, que é exatamente esse  outro a quem tanto temíamos.  Não há quem não admire as pessoas que não se escondem.   Difícil é conviver com os eternos campeões, arrogantes e  maquiados,  cujas bocas  só conhecem a primeira pessoa do singular.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras

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