Duro é saber que dentro da gente existe um cara besta e mandão que não para de nos julgar. Über-ich é o nome desse alemão intruso. Traduzido, significa “aquele que está acima de mim”. Sim, ele mesmo, o vulgo SUPEREGO. Coisa mais terrível ter na cabeça um general alemão vociferando o tempo todo. Ele nos censura os desejos, ameaça-nos com a possibilidade do fracasso, enche-nos de culpa e, nas nossas costas, vai empilhado, uma a uma, todas as vergonhas das nossas derrotas. Sua ameaça preferida: lembrar-nos do que os “outros” (sempre eles) poderão pensar ou dizer de nós. “Você vai sair assim? Não acredito, já imaginou o que os outros vão pensar de você? Tem certeza de que vai fazer isso? Deus meu, o que os outros não falarão?” É dessa forma ameaçadora que os “outros” entram na nossa cabeça para nunca mais saírem.
Aliás, nessa tarefa de nos ameaçar com o ridículo, o general sempre contou com a ajuda decisiva das mães que, para obterem o que queriam, evocavam a ameaça dos olhos alheios. Depois, essa estratégia maternal, por sucessão natural, acabou nas mãos das esposas, as quais continuam nos mantendo sob a mesma ameaça: “não quer me ouvir, tudo bem, espera então, você vai ver o que os outros vão falar de você!”
Neste exato momento em que escrevo isto, sobre mães e esposas, o general abandonou correndo o plantão e veio estourar os meus tímpanos, acusando-me de porco machista e que será muito bem feito tudo o vierem pensar e dizer de mim. É dose. Além de termos que pagar por toda culpa cármica e, também, por aquela infeliz mordida na maçã, ainda somos obrigados a conviver com esse general horroroso!
A patrulha do Über é tamanha que crescemos enfrentando o diabo, mas fugindo do outro. Vestimo-nos pensando no outro, escrevemos com medo do outro, falar em público nem pensar! Claro, imagine um auditório inteirinho de outros! Que trauma! A opinião alheia é, assim, uma lâmina afiada, guilhotina sobre a nossa cabeça. As consequências desse medo paralisante são as piores possíveis. Perdemos excelentes oportunidades de crescimento pessoal e profissional, abdicamos de sonhos e de projetos e, o pior, desperdiçamos a chance de mostrar às pessoas quem somos realmente. Passamos a vida nos escondendo, bicho procurando toca, se possível, desaparecer.
Fico imaginando quantos talentos precocemente feneceram, quanto sucesso abortado, quantos artistas não chegaram ao merecido palco, quanta criatividade se perdeu. Tudo pelo medo do outro, que bem cedo, fez morada em nossa cabeça. Tão nefasto ele é que acaba imobilizando as pessoas, prejudicando-lhes o desenvolvimento da inteligência e da sensibilidade. Dá para conceber um artista com asas cortadas? Um orador amordaçado? Um trapezista em voo livre se borrando todo com medo do chão? Quem alcançou o sucesso foi obrigado a enfrentar e derrotar esse nosso pior inimigo. Sem correr riscos, nada faremos, muito cimento nos pés.
Será que não estamos superestimando a opinião alheia? Certamente. Temos dado a ela um valor que, em realidade, ela não tem. Boa parte da crítica alheia é pura inveja; outra, maldade pura; algumas vezes, construtiva, quando merece acolhimento e reflexão. E tem mais, de que adianta nos preocuparmos tanto com ela se as bocas são gregas, mas também, troianas. Chumbo grosso sempre haverá.
Agora um detalhe importantíssimo. Esse outro monstruoso, nosso problema, pode ser a nossa solução, nosso aliado. Basta que lhe confessemos os medos que temos, os fracassos que acumulamos, a insegurança que nos acompanha... Basta que sejamos verdadeiros e transparentes, ou simplesmente humanos. Deixemos que o outro veja a nossa cara real, limpa, sem as máscaras habituais. Agindo assim, ganharemos um irmão, que é exatamente esse outro a quem tanto temíamos. Não há quem não admire as pessoas que não se escondem. Difícil é conviver com os eternos campeões, arrogantes e maquiados, cujas bocas só conhecem a primeira pessoa do singular.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras