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"O amor que não ousa dizer seu nome"

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A homofobia é a aversão que pessoas ou grupos sentem contra homossexuais, lésbicas, bissexuais e transexuais. Os estudiosos do comportamento humano são quase unânimes em afirmar que a homofobia provoca um certo desvario entre aqueles que se negam a sair do armário. Os que ainda não definiram completamente sua identidade sexual, torturam-se por terem que guardar para si as tendências reprovadas pela sociedade e pais castradores. As dúvidas geram revoltas, transferidas para aqueles que já definiram suas preferências sexuais.

Parece ser bem o caso de Omar Mateen, 29 anos, muçulmano, vindo de relações frustradas com o sexo oposto, frequentador da boate gay de Orlando onde praticou o morticínio. Está afastada a hipótese de ato terrorista. O terrorismo é desprovido de discurso. Os terroristas trazem consigo o enigma de uma intenção indecifrável. Baudrillard, sociólogo e filósofo francês, foi o primeiro a nos advertir, embora com pouco sucesso: não se deve procurar um sentido nas motivações do terrorismo porque ele não tem sentido, e é paradoxalmente um acontecimento num mundo cada vez mais saturado de sentido e eficácia.

“O Amor que não ousa dizer o seu nome”, do soneto de Oscar Wilde, carrega o estigma do Levítico, um dos cinco primeiros livros bíblicos (Pentateuco), atribuídos a Moisés – 1.400 a.C. “Se um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável; serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles” (20:13).  O Alcorão menciona a história do povo de Lot que teria sido destruído por participar de atos homossexuais. Em alguns países árabes, em pleno século 21, há punições frequentes, com sentenças de morte.

Aqui mesmo no Brasil, até 1990 o homossexualismo era considerado “transtorno mental”. Somente em maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu, legalmente, a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça regulamentou o casamento civil gay no Brasil. Por paradoxal, aumentaram as demonstrações de homofobia. A intolerância, como no racismo, nega a humanidade e a dignidade às pessoas, tidas como imorais. Houve avanços consideráveis. A Receita autoriza a inclusão de companheiro na declaração, como dependente homoafetivo. É uma expressão jurídica para rotular pessoa que gosta de outra do mesmo sexo. Pensões por morte têm sido concedidas; companheiros de ambos os sexos são admitidos no plano de saúde, ou como beneficiário de seguro da previdência privada. Tudo ainda na base da concessão especial.  

Considerando-se as pesquisas norte-americanas, e a transposição dos seus parâmetros, devemos ter 16% da população brasileira constituída por LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Transgêneros, Travestis e Intersexuais). Coisa de 3O milhões de habitantes. Noventa por cento no “armário”. É o grande obstáculo ao combate da homofobia, com políticas afirmativas. Se a comunidade é invisível, fica difícil lutar contra a impunidade. Insulto a negro é crime inafiançável. A violência contra homo deve ser tratada no mesmo nível de repressão. A educação sexual nas escolas ainda é tabu. O governo do PT, vetou a distribuição nas escolas do kit anti-homofóbico, avalizado pela Unesco.

Foi preciso percorrer um longo caminho, ao longo de décadas, para que uma variada comunidade LGBTI pudesse se reunir num sábado à noite, sem se esconder, em uma casa noturna de uma cidade socialmente conservadora. Seja em Orlando ou em Bauru. E é justo que celebremos o Orgulho Gay. Os Estados Unidos começaram a evoluir desde que, em 1969, um grupo de homossexuais e lésbicas começou a manifestar-se contra a repressão policial no pub Stonewall, de Nova York. Naquele momento, os que demonstravam abertamente sua homossexualidade se tornavam proscritos, sujeitos a discriminação legal em todos os âmbitos, desde a saúde até o emprego ou o Exército. O que deveria ser normal, ainda é considerado tratamento especial. Para que dois homens se beijem e se deem as mãos ainda é preciso que a comunidade se contenha no seu próprio perímetro.

Em algum momento no futuro será preciso ir mais além: se de verdade houvesse aceitação e normalidade social, não seriam necessários os milhares de bares no mundo, como o Pulse, lugar onde foi tão fácil cometer uma chacina. Os gays deveriam poder se mostrar como eles são onde quer que fosse, sem medos, sem riscos, sem apreensões. Ainda uma utopia, mesmo nos países mais avançados.


O autor é jornalista e articulista do JC

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