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O capotão, as traves e o campinho de terra em Bauru

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Samantha Ciuffa
Na última quinta-feira, por volta das 17h, lá estava o grupo arrancando tufos de grama em um dos lados do campinho que não era usado.

O planeta bola dá chutões no pessimismo na periferia. No Jardim Colina Verde, em Bauru, uma dúzia de garotos decidiu mudar a ‘regra do jogo’ para impedir que a solitária opção de lazer em área pública não acabasse. Eles emprestaram enxadão, enxadas e rastelo, adicionaram uma boa dose de boa vontade e iniciativa cidadã e resolveram não deixar que o palco das peladas de final de tarde fosse fechado.

Na última quinta-feira, por volta das 17h, lá estava o grupo arrancando tufos de grama em um dos lados do campinho que não era usado. Afinal, estava em jogo o fim da brincadeira entre amigos. E haviam três motivos principais para os garotos adotarem postura de reação pró-ativa diante do impasse. E o fim virou o começo.

Motivo um: a “cartolagem” dos vizinhos de um dos lados estava elaborando abaixo-assinado para impugnar o “campeonato” da molecada junto à Prefeitura de Bauru, proprietária da área que é utilizada como “arena”. Convenhamos, as casas localizadas atrás de uma das traves virarem alvo da má pontaria dos garotos todo final de tarde, quando os vizinhos chegam depois de um dia de trabalho, não é espetáculo que se queira compartilhar.

E antes que alguém arbitrasse o fim das peladas, os jovens tiveram um estalo: “Os vizinhos estão bravos porque no gol do lado de cá (fundos para a rodovia) o chute sempre ia na direção das casas. Era bolada o tempo todo na grade, no muro, telhado. E a gente também correu risco de perder a bola que caia no quintal, ou tinha de entrar lá para pegar”, conta Michael Cesar Rosa da Silva, 19 anos, de enxada em mãos para a “reforma do estádio”.

Motivo dois: a trave do outro lado também era problema. Uma armadilha, na verdade, impondo sério risco à integridade dos jovens atletas por ter a rodovia em pista dupla ao fundo. Isso sem contar o permanente risco irreparável para os jovens da periferia de perda da única bola. “Na trave do lado da rodovia a gente ia buscar muita bola na pista e isso é muito perigoso. E também perde bola ou atrapalha porque demora para buscar”, completa Bruno Alexandre, 18 anos. 

Motivo três: o campeonato informal dos meninos poderia parar para sempre se houvesse a  interdição do campinho de terra. Foi ai que o espírito coletivo, associativo, de assertividade e amizade entrou em cena. O grupo se reuniu e, em rápida ‘assembleia’ deliberou pela imediata necessidade de reforma do “estádio” de bairro.  Estava decidido outro desfecho para essa batalha campal. Sem nenhuma pieguice: Jovem tem energia de sobra. Só precisa perceber que impulso não é bicudão. Até na brincadeira de rua é preciso ter mira, objetivo. 

E, então, os garotos trataram de explicar para alguém ligado à associação do bairro, que segundo eles deteria o direito de uso do terreno por cessão realizada pela Prefeitura, que a saída era mudar as traves de lugar. Mas, para tanto, os lados antes não utilizados do campinho precisariam de uma “garibada”. Os jovens emprestaram enxadas, enxadão e um rastelo e iniciaram a “reforma”.

Virando o jogo

De pronto, um benefício que nem os jovens tinham dimensionado saltou aos olhos. A mudança na posição das traves – que só foi realizada em razão da reclamação dos vizinhos e o perigo da rodovia – não só eliminou esses problemas como aumentou a área de jogo.
O campinho era estreito e quadrado. E como garoto tem pressa em tirar par e ímpar para começar logo as peladas, ninguém tinha dado conta de que o espaço tomado por ganxumas e toceiras de grama seria fundamental para melhorar o palco de chão batido.

A moçada eliminou as toceiras, rastelou o excesso e deu umas cavocadas para “nivelar” a terra nessas laterais. O ajuste final virá do próprio uso. A pelada, afinal, não pode parar.

Detalhe final: o campinho do Colina Verde permaneceu uma área pública subutilizada por muito tempo; alguns dos garotos preferem jogar descalços, por gosto e falta de pisante; a maioria da dúzia de garotos que decidiu virar a mesa para que as cortinas não se fechassem em seu único palco de lazer é morador no bairro há não mais que 1,5 anos. 

Eles vieram de moradias precárias, muitos de favelas em outra região da cidade. São os novos vizinhos do Jardim Colina Verde, agora moradores de um condomínio do programa Minha Casa Minha Vida, instalado umas cinco quadras do campinho. Vieram para transformar suas vidas e dispostos a mudar o resultado do jogo. Futebol de campinho é além de filosofia, é práxis de organização social, embora, desde a infância, a brincadeira tenha sua própria “Constituição”.

Regras do campinho de terra

A maior parte das ‘convenções’ do futebol de campinho segue as regras abaixo. As poucas mudanças são de questões culturais de cada região. Em Itaberá (SP), valiam essas:   
Os dois craques nunca ficam do mesmo lado. Os melhores também costumam ser quem tira o par-ímpar para escolher os times.
Os piores ficam sempre por último na escolha.
Um dos times joga sem camisa. 
O perna de pau, em geral, vira goleiro, quando falta quem seja arqueiro nato. 
Se não houver goleiro, os jogadores de linha fazem revezamento.
Em geral, cada jogador de linha ‘cata’ até sofrer um gol. 
Se houver pênalti, quem pega melhor no gol pode tentar pegar a cobrança. 
O perna de pau fica ajudando na zaga, o craque faz tudo, dribla tudo e decide quase tudo.
O dono da bola costuma jogar no mesmo time do melhor em campo. 
Não tem juiz. A falta é marcada no grito. 
Não tem impedimento. Portanto, pode fazer gol na banheira.
Se a bola saiu do campinho, quem está na jogada pede dizendo “nossa” e fica com a bola.
Arrancar a tampa do dedão, dar canelada, tropeçar e levar tombo é normal. 
Quem chutou a bola longe vai buscar.
A partida acaba com o cansaço, quando escurece ou quando o dono da bola é chamado pela mãe para ir pra casa. 
A partida pode ser do tipo 5 gols vira e 10 termina. Ou quem fizer o último ganha. 

       

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