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Ação para resgatar traficante em hospital deixa um morto e dois feridos no Rio

Por Luciana Nunes Leal | Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 5 min

Pelo menos 25 homens armados de fuzis, pistolas e explosivos invadiram na madrugada deste domingo (19), o Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro, e resgataram um traficante internado no sexto andar. No tiroteio entre os bandidos e um policial militar, Ronaldo Luiz Marriel de Souza, que buscava atendimento médico, foi baleado e morreu. O PM e um funcionário do hospital foram atingidos e estão internados.

Os invasores chegaram ao Souza Aguiar às 3h15 e se dividiram: um grupo ficou no pátio em frente à emergência e outro subiu direto para o setor de ortopedia, no sexto andar, pelas escadas. Dois PMs que faziam a escolta do traficante Nicolas Labre Pereira de Jesus, o Fat Family, de 28 anos, foram rendidos na enfermaria bucomaxilo facial. Os bandidos, quebraram a algema que prendia o criminoso à cama com um alicate grande, depois abandonado na enfermaria.

Apontado pela polícia como chefe do tráfico na favela Santo Amaro, no Catete (zona sul), Fat Family, ao ser preso há uma semana, foi ferido no rosto durante tiroteio. Ele é irmão de Marco Antônio Pereira Firmino da Silva, o My Thor, preso na penitenciária federal de Catanduvas (PR) e um dos líderes da facção criminosa Comando Vermelho (CV).

A ação criminosa era de conhecimento da cúpula da Secretaria de Segurança desde a última quinta-feira, quando investigadores da Delegacia de Combate às Drogas (Decod) captaram em interceptações telefônicas o plano para o resgate no Souza Aguiar. Segundo a Polícia Civil, a Secretaria de Segurança e a PM foram logo avisadas. A PM informou que o alerta referia-se a um criminoso internado em outro hospital, onde a segurança teria sido reforçada. Os nomes do hospital e do preso não foram divulgados pela PM.

No Souza Aguiar, o tiroteio aconteceu no estacionamento, quando o PM Fábio Ferreira da Silva, de folga, socorria o amigo Ronaldo de Souza, acidentado em uma festa. Silva e os bandidos trocaram tiros. Souza foi atingido no tórax e o PM, em um ombro. Na troca de tiros, foi baleado o técnico em enfermagem Júlio Cesar dos Santos Basílio. De manhã, o carro do PM, com marcas de tiros, seguiu para perícia na Divisão de Homicídios. Segundo a policia, os bandidos também fizeram disparos dentro do hospital.

Testemunhas e policiais disseram que os criminosos usavam toucas ninjas para esconder o rosto e chegaram ao hospital em quatro motocicletas e cinco carros. Eles renderam o vendedor de uma barraquinha de doces, conhecido como Índio, e uma recepcionista, que foi levada ao sexto andar.

"Índio estava muito nervoso, só me entregou a barraquinha quando cheguei, e foi para a delegacia. Não é a primeira vez que resgatam bandido em hospital. Botam bandido perigoso internado com inocente, bandido tem mais valor que trabalhador. Quem manda no País hoje são eles", protestou Ronaldo Batista, de 54 anos, que há dez anos divide a barraca de doces com Índio, na porta do Souza Aguiar.

O técnico em eletricidade Jorge Ferreira, de 59 anos, que estava de madrugada no hospital para acompanhar um amigo que sofreu acidente de moto, disse que, ao perceber a chegada da quadrilha, procurou se esconder na emergência, com funcionários e outros acompanhantes, que tentavam manter o máximo de silêncio para não chamar atenção dos invasores.

"Eles diziam: 'viemos pegar um parceiro'. Chegaram com um objetivo definido", contou.

Segundo a PM, a custódia do traficante resgatado era feita por quatro policiais militares. Um carro da corporação que estava no pátio foi atingido por uma granada caseira e teve um pneu furado. Em nota, a PM informou que foi isolada a enfermaria onde Fat Family estava internado. No local, havia várias cápsulas de balas, recolhidas para perícia. No pátio do hospital, a polícia encontrou um carro roubado. Até o fim da tarde deste domingo não havia informação sobre a prisão de suspeitos de participarem da invasão.

Coordenador das delegacias de homicídio do Rio, o delegado Rivaldo Barbosa disse que os policiais responsáveis pela escolta seguiram o protocolo para ocorrências dentro de hospitais, ao não reagirem ao ataque dos invasores na enfermaria.

"Se eles reagissem, um mal maior poderia acontecer", afirmou Barbosa, para quem a apuração do que chamou de "ação ousada e covarde" é "questão de honra" para a Polícia Civil.

Os investigadores pretendem interrogar parentes e um advogado que visitaram o traficante no hospital. A suspeita é que eles tenham indicado o local exato onde Fat Family estava internado.

"Vai virar questão de honra a gente resolver isso. Não temos dúvida de que alguém fez todo o planejamento. O que causou perplexidade é que os traficantes que aqui estiveram sabiam exatamente onde ele estava", afirmou Barbosa, ao deixar o hospital pela manhã.

O prefeito Eduardo Paes (PMDB) criticou a falta de policiamento na região do Souza Aguiar e considerou a invasão "assustadora e inaceitável". "Não dá. Temos nossas unidades de saúde funcionando, temos a obrigação de atender todos os doentes, sejam criminosos ou não. Mas há limites. Precisamos das forças de segurança ajudando. Há uma certa perda de controle dessa situação. Tem que ser mais firme. Não dá para a gente expor profissionais de saúde nos hospitais da prefeitura, que são os que funcionam, e fazer com que passem o que passaram", afirmou o prefeito.

Jogos Olímpicos

Maior hospital público do Rio, o Souza Aguiar foi escolhido pela prefeitura como referência para emergências durante os Jogos Olímpicos na zona norte e centro. Os hospitais de referência são indicados para os espectadores das competições olímpicas em casos de necessidades médicas. Em abril passado, o auditório do Souza Aguiar foi usado pela prefeitura para apresentar a profissionais de saúde e representantes de 21 consulados o plano operacional da Secretaria Municipal de Saúde para os Jogos. Na ocasião, os participantes foram levados a conhecer as novas instalações da unidade.

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