Há cinquenta anos, meu Anjo da Guarda me protegeu da agressividade de um homem que adentrou a casa pobrinha de meus pais, roubou-lhes o pagamento do mês e, passando sorrateiramente pelo meu quarto, achou-se no direito de satisfazer seus impulsos sexuais. Eu dormia e tinha apenas doze anos. Antes de me agredir, ele destramelou a janela do meu quartinho para facilitar-lhe a fuga e desparafusou a lâmpada, deixando entrar a claridade da lua.
Acordei com o Anjo rangendo das velhas dobradiças que prendiam as folhas da janela de madeira, me assustei e gritei. Gritei muito... tanto que fiquei completamente sem fala por muito tempo. Era speaker do programa infantil Carrossel da Cidade, na Rádio Clube de Ourinhos. Fiquei sem trabalhar. Adquiri calos nas cordas vocais e perdia a voz toda vez que me sentia tensa ou em perigo. Não fui abusada, mas fiquei marcada pelo horror e pelas imagens nítidas até hoje.
Inúmeras vezes ministrei aulas escrevendo no quadro negro as explicações que daria aos alunos, porque não tinha voz... Muitos de meus alunos são ainda testemunhas disto, porque se lembram das aulas silenciosas. Nenhum fonoaudiólogo conseguiu curar meus calos vocais. É claro. O problema não estava ali e sim no trauma psicológico que o pavor me causou.
Já se passou mais de meio século e a falta de Educação Sexual ainda é tabu nas escolas, na sociedade brasileira e no mundo. Rousseau dizia que “a ignorância é a melhor garantia da manutenção da pureza infantil”. Hoje temos convicção do equívoco de Rousseau.
A intenção de se implantar uma proposta de Educação Sexual nas escolas não é nova. A França tentou na 2ª metade Séc. XVIII. Era preciso redefinir os limites e os significados da sexualidade, combater a masturbação, questionar e verificar se o novo campo da liberdade teria condições de dar sentido ao destino biológico da sexualidade. No final do séc. XIX, as doenças venéreas, o aborto e, enfim, a tal degenerescência das raças reascenderam as discussões. Em 1920 a França proibiu o aborto. No Brasil, em 1973, decidiu-se sobre a inserção deste estudo nas escolas e, três anos depois, a Secretaria da Educação definiu que este assunto era de responsabilidade exclusiva da família, que ainda se compunha de pai (homem), mãe (mulher) e filhos, com avós, tios e primos consanguíneos.
Na década de 80, a ação reservou-se a tarefas de serviços telefônicos, programas de rádio, publicações em fascículos e o polêmico programa da socióloga Marta Suplicy, na TV. Dez anos depois, considerando a urbanização acelerada e a desestruturação da família clássica, a Secretaria Municipal da Educação de São Paulo, sob a direção de Paulo Freire, preparou professores para esta missão. Em 1992, doze mil alunos já recebiam orientações sexuais nas escolas. O exemplo foi seguido por Porto Alegre, Florianópolis, Recife, Campo Grande (MS), Goiânia, BH e Santos. Era urgência urgentíssima porque a Aids já se alastrava.
Em 1995, os “Parâmetros Curriculares Nacionais”, pulverizou o assunto entre os temas transversais periféricos. Não só a psicologia, a biologia, a história, a filosofia e a sociologia deveriam estar envolvidas, mas também a Ética, a Saúde, o Meio Ambiente, a Psicanálise e a pluralidade cultural no processo de educação sexual. Recentemente, a família passou a ser “as pessoas com quem a gente convive”. Para educar nossas futuras gerações entraram em cena as creches, as escolinhas públicas ou particulares, as casas de mães do coração e muitas igrejas pseudo- cristãs. Estranhamente, o antigo amor familiar e Deus Misericordioso minguaram nesta tarefa.
A educação que ainda existe tem se caracterizado, principalmente, pelo aspecto informativo, indiferente e biologizante da questão. Os significados da expectativa, da descoberta, dos perigos, da curiosidade, dos medos, das inseguranças e da responsabilidade inerente contam pouco. E na prática social, corre solta a satisfação do prazer erótico e, no reino dos hormônios efervescentes, os descalabros sexuais. Suplicy (1994) afirmou que a prática da sexualidade mudou tão rapidamente nas últimas décadas, que dificultou a construção de um sistema de valores. A revolução sexual promoveu a divulgação de uma nova moral, estimulou os jovens para a vida sexual ativa, mas não os preparou para isto.
Pelo que tenho lido, a geração Y exige aprender no âmago da questão: educar o desejo sexual. Os seus e os do outro. Exigem aprender como se controlar, com se orientar diante de uma ansiedade nevrálgica ou de uma excitação espontânea sexual. Exigem conhecer a evolução das práticas sexuais ávidas de prazer e suas consequências. Exigem diferenciar o que é pornografia do que é sexo saudável.
A esperança é que consigam recolocar as ideias no lugar que é seu por natureza e resgatem a dignidade de que se investe o próprio sexo. A cultura oriental é rica em recursos para administrar os desejos. Os homens equilibrados também. É preciso provocar um processo educativo que abrace os indivíduos onde eles possam mostrar a melhor versão de si mesmos.