Atualmente assistimos na televisão a vários políticos proporem uma mudança na “delação premiada”, onde aquele que for delatar não poderia estar preso. Caso seja aprovada a proposta, esta seria uma “delação virtuosa”, onde só se poderia delatar sem coação, espontaneamente, sem cobrar nada em troca. Lindo, né!? O Brasil se transformaria no próprio paraíso. O que mais impressiona é que eles falam sério, sem dar nenhuma risadinha. Daí é possível avaliar o que eles pensam da “inteligência” da parcela da população que dá sustentação a eles. Na prática, esta proposta é uma forma disfarçada de pedir a extinção pura e simples da delação premiada, onde está é faltando coragem para propor isto diretamente.
Não conheço todas as regras legais que cercam a delação premiada, mas sei que se a pessoa não estiver presa ou de alguma forma coagida, ela jamais vai delatar. Delatar pra quê!? Entretanto, um dos procedimentos que está acontecendo com frequência, que é o fato do delator falar o que quiser, sinto que as pessoas comentam que gostaram ou não da delação, apenas dependendo se o que foi dito favorece ou não o lado político que ela está.
Não vejo ninguém questionar se o procedimento de falar o que quiser está correto ou não, ou se a liberdade de imprensa tem o alcance de divulgar qualquer coisa com possibilidade de denegrir injustamente a imagem de inocentes, difíceis depois de recuperar. Não há como evitar que o delator fale o que quiser, mas o mais preocupante é a coisa toda sair na imprensa de uma forma que pode induzir muitos a acharem que tudo que foi dito é verdade.
Lembro-me de algo parecido que ocorreu faz uns 20 anos, quando a imprensa noticiou ilações depreciativas sobre os donos de uma escola de São Paulo, que posteriormente não foram confirmadas. Não adiantou divulgar depois que não era verdade, o estrago já tinha sido feito e a escola precisou ser fechada.
Isto é um perigo e, principalmente, na delação de Sérgio Machado o PT deve estar adorando, pois esta atinge em cheio políticos de vários partidos que estão em oposição ao PT, igualando praticamente todos da classe política no mesmo pacote da corrupção. E isto se agrava ao vermos de forma orquestrada na televisão políticos do PT repassarem para o público, como se fossem verdades, coisas da delação que ainda não foram comprovadas. E muita gente acaba engolindo isto, basta notar a descrença geral que se gerou nos políticos. Pra toda população, acredito que existe no ar um misto de perplexidade, preocupação e indignação sobre o estado de coisas, o que torna também imperativo a definição das investigações em andamento para separar, como se diz, o joio do trigo, e se estabelecer suas respectivas graduações de crimes ou virtudes.
Uma pergunta associada e pertinente seria: o que corrompe com R$ 1 milhão e outro com R$ 1 bilhão cometem o mesmo crime onde a penalidade deve ser a mesma? Ou de outra forma: quem dos dois corruptos prejudica mais pessoas (desemprego, falta de remédios em hospitais, ... ) dos serviços do Estado?
Não dá para acreditar que está tudo contaminado, pois se isto fosse verdade, nosso futuro como nação estaria seriamente comprometido. O que dá pra desconfiar é de alguma manipulação em tudo isto. É verdade que o PT não inventou a corrupção, mas certamente a ampliou, organizou e institucionalizou, tornando-se o grande campeão da modalidade. Apesar de o PT passar por momentos difíceis de sua história, continua um partido aguerrido, organizado e disciplinado, e o fato de estar acuado o torna ainda mais perigoso. Pelo que se conhece do PT, é bem provável que ele próprio possa estar dando uma mãozinha no sentido de complicar tudo para todos, a fim de forçar um grande acordo da classe política para no final todos se salvarem. E o primeiro sinal disto seria a mudança da “delação premiada” para a “delação virtuosa”, seguido do consequente enfraquecimento da Lava-Jato.