Articulistas

Saudação ao inverno

Alfredo Enéias Gonçalves d?Abril
| Tempo de leitura: 3 min

Pedrito, assim conhecido, nasceu e foi criado na fronteira dos pampas gaúchos quase na divisa com o Uruguai. Com o pai, mourejava com gado leiteiro, acostumando-se em razão dessa atividade com a fresca do vento minuano, ainda fraco no início da estação, mas ganhando fôlego nas suas aragens diárias, fortalecendo-se afim de soprar gelado nos dias de inverno. Todo ano esperava a aproximação do inverno para dar boas-vindas ao minuano, observar as árvores despejando suas folhas sem vida num vai-vem a deriva, sob o comando do vento e, na escuridão do campo, contemplar o encontro do céu anoitecido sob o fulgor de incontáveis estrelas. Tornou-se adulto, formou-se em magistério e mudou-se de Estado onde iniciou a missão de professor de ensino fundamental. Uma noite adormeceu mais cedo, sonhando caminhar pelas calçadas.

Nas passadas, cruzou com algumas pessoas e, uma delas, do sexo feminino, mostrava no seu conjunto ótico uma mulher atraente e com jeito que estava desorientada. Parou-o para perguntar onde se localizava uma padaria que ouviu dizer existir nas imediações. Respondeu a ela que ficava a alguns metros dali, lembrando naquele momento do sonho que tinha saído de casa para comprar pão.

- Disse-lhe Pedrito: vamos juntos, é ali mesmo. Ela respondeu: tudo bem!

Entraram e saíram juntos da padaria com o alimento comprado, e, na calçada, tentou espichar o tempo para melhor conhecê-la, perguntando se morava em outro bairro. Ela, demonstrando pressa, respondeu ser de outra cidade e estava por aqui de passagem. Então, como nada mais restava a indagar e sem disfarçar a ansiedade para trocar mais algumas palavras com a jovem, apontou o dedo para o céu forrado de estrelas, perguntando sua opinião sobre o inverno. E aí veio a resposta, decepcionante:

- Estamos no mês de inverno? Nem tinha percebido, cara, e para ser franca acho que todas as estações são iguais, exceto meu adorado verão que espero sua chegada todo ano para curtir o sol duma praia. Surpreso, Pedrito ainda arriscou ouvir uma resposta mais apropriada à pergunta, dizendo-lhe:

- Mas dá para notar a diferença do céu no inverno com o de outras estações por ser despido de nuvens e povoado de estrelas, não acha?

- Desculpe-me, respondeu, não olho para o céu há algum tempo desde que meu namorado que era aviador foi embora sem despedida, e, além disso, detesto esse ventinho chato que o senhor diz ser o prenúncio do frio.

- Como seu namorado foi embora? Por acaso sofreu algum acidente grave, perguntou curioso.

- Nada disso, respondeu: ele tinha outra namorada sem o meu conhecimento e decidiu viver com ela. É por isso que desprezo o céu e nunca olho para o alto. É a minha vingança.

E o senhor? indagou a senhorita, por acaso trabalha com alguma coisa que tem a ver com a astrologia para falar do céu com esse jeito apaixonado?

- Não, respondeu Pedrito, sou apenas um professor aposentado e por falta do que fazer admiro o céu durante as noites de inverno recordando minha infância nos pampas. E para não ficar à-toa, ocupo-me nas manhãs na varrição da calçada para dela retirar as folhas mortas. Cochilo após o almoço, às vezes jogo dama ou trilha com os idosos na praça pública, e a partir das 18 horas visto o pijama e vou assistir televisão com uma leve manta sobre as pernas para espantar esse ventinho chato anunciando o inverno. Pedrito acordou sem antes dizer boa noite à jovem.


O autor é professor universitário, aposentado.

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