Tribuna do Leitor

Aos que continuam insistindo na indução mental lobotomizadora

Renato Ghilardi - Professor Unesp
| Tempo de leitura: 3 min

Estava eu numa roda de amigos que, numa forma muito descontraída, conversavam, riam e, claro, praguejavam sobre a atual situação que vivemos. Esládio, homem do interior de Minas Gerais, suspirou e com seus olhos taciturnos lembrou-nos que nos últimos 5 anos tínhamos perdido cerca de 20% de nosso salário real frente ao processo inflacionário. Eu não quis que caíssemos novamente numa discussão melancólica e lembrei que isso era provavelmente oscilatório; a história mostrava esse tipo de acontecimento! Santino, com sua barba rala de recém-formado, desempregado, riu e achou estranho eu usar a palavra história. Justamente eu que sempre preguei que esta era contada e lembrada pelos mais fortes e mais sórdidos. Fechei a cara na hora. Ele estava certo: a história tinha muito mais um viés de manutenção de pessoas que estão no poder pelo simples fato de estar no poder. E, para isso, podem fazer de tudo, inclusive nos induzir a pensar que sua versão de fatos ocorridos é a mais correta.


Raudinei levantou-se de seu banco e, abrindo a geladeira, começou-nos a contar como tinha achado engraçado o fato de ele ter ido ao supermercado com sua camisa do Juventus da Moóca e um indivíduo, que estava em uma gôndola paralela aonde ele estava, gritou para que ele ouvisse: “Loser”! Meus olhos encheram de lágrimas de tanto rir! Achávamos muito “nonsense” pessoas se infantilizarem ao ponto de hostilizar alguém com uma camiseta de um time diferente do teu. Santino botou mas pilha perguntando por que o retardado do Raudinei tinha que sair com as cores do seu time feito um pavão.

Demos mais boas risadas, mas fiquei matutando sobre a necessidade de algumas pessoas polarizarem seus ideais e gostos e materializarem isso em bandeiras, camisas e outros subterfúgios birrentos. Lembrei de 2013. Foram as reais manifestações onde as pessoas saíram de suas casas, espontaneamente, para protestar. Sem bandeiras ou cores. Dei um leve sorriso de canto de boca, sarcástico, ao relembrar alguns grupos bradarem, com birra infantil, a inutilidade daquele movimento que não tinha reivindicações claras e muito menos era partidário. Sei que tal brado é o daquele desesperado que não consegue enxergar que 50 mil pessoas entrarem na sede de um governo é, isso sim, categoricamente um movimento social-histórico. A não compreensão da magnitude disso faz com que aquilo que chamo de forma chistosa de “Madres Birrentas Daquiloquehá” apareçam para desconstruir o processo histórico e reconstruí-lo para que sua ideologia se encaixe de forma afável e comedida. Na verdade, são verdadeiras raposas especialistas na lobotomização e indução do pensar das pessoas. Geralmente estão encaixadas em porções da sociedade que transmitem conhecimento e isso o fazem. De sua maneira.


Paulicéia retirou a franja da frente de seus olhos e pediu a Esládio pegar mais carne na churrasqueira. E este ainda a xingava enquanto a fumaça da churrasqueira o entremeava quando ela, de forma jocosa, me perguntou sobre minhas “Madres”. Seu questionamento era sobre aquelas que tinham um discurso de raiva e ódio, a certos interlocutores, terem se alterado para verdadeiras cordeiras em colunas de jornal. Ela sabia minha resposta. E ela também sabia que aquele comportamento era o clássico de pessoas oportunistas e manipuladoras de discurso. Sei lá, respondi, talvez queiram ser prefeitos, governadores, presidentes e reiterar as enormes mudanças sociais que ocorreram em nosso país nos últimos 13 anos. “Virgisanta”, expressou Esládio em tom de galhofa, mas o que eles farão depois do hercúleo trabalho que tiveram em acabar com pessoas sem-terra e com renda familiar miserável?


Ou ainda existe isso depois de 13 anos de trabalho incessante para o bem social inclusivo? Você precisa ler mais, zombou Paulicéia, mas se racionalizarmos essas “bolsas” eram para ser provisórias. E elas acabaram sendo o CPMF da nova era! Ela sabia que não era bem assim e que o processo inclusivo era histórico, apesar de que a inclusão sem o arcabouço cultural absortivo não ter serventia alguma, mas a analogia era engraçada.


Gargalhamos muito. E a vida continuou, como para todos.

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