| Samantha Ciuffa |
![]() |
| Mário exibindo a miniatura de planador e, abaixo, com a esposa Heloísa, companheira de meio século |
![]() |
Quem o conhece sabe o quanto Mário Bevilacqua Neto é apaixonado pela aviação. Um amor herdado do pai, Luiz de Gonzaga Bevilacqua, o homem que inseriu o Brasil na história da astronomia e das missões espaciais mundiais. Mas, aos 73 anos, além de ser testemunha ocular do surgimento e desenvolvimento da astronomia brasileira, o advogado Mário Bevilacqua tem, ele próprio, muito para contar. Como quando atrasou um voo do Panamá para o Brasil porque a tripulação da lendária Panair esperava por um certo “mr. Neto”.
“Perguntavam para mim meu nome e eu falava apenas Mário Bevilacqua”, conta, aos risos. São tantas as histórias que este espaço é pequeno para tudo o que já viu e viveu. Mário tem consciência disso e sabe que deve um livro com os fatos mais pitorescos que presenciou. “Quero, pelo menos, lançar o livro com a história do Aeroclube de Bauru, porque a aviação nesta cidade é e sempre foi muito importante”, justifica.
Jornal da Cidade – Começando pela cidade, o que Bauru representa na sua vida?
Mário Bevilacqua Neto – Tudo. Nasci na rua Sete de Setembro, em 7 de agosto de 1942. Casei com uma bauruense, meus quatro filhos e seis netos são todos criados aqui. Defendo Bauru com unhas e dentes.
JC - Como vê o atual momento do município?
Mário – É uma pena que já não se desenvolva mais tanto quanto eu gostaria. Bauru teve uma importância enorme no cenário nacional, com as três ferrovias, a Sorocabana, a Paulista e a Noroeste do Brasil, esta última com destaque internacional porque, através dela, se chegava a Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Também era um município estratégico na aviação. Imagina que tivemos aqui voos da Panair, da Vasp, da Transbrasil (a antiga), da Cruzeiro e Nacional.
JC – E hoje...
Mário – Com os jatos, Bauru padece da síndrome de ser uma cidade muito longe e muito perto da Capital. Muito perto de avião (não comporta o custo para uma grande aeronave de 140 lugares decolar, subir e já descer). E é muito longe para ir de carro, não pelos 300 quilômetros de distância, mas pelo trânsito.
JC – Qual é a solução para mais voos?
Mário – Termos aeronaves menores, com 40 a 50 lugares no máximo. Jamais podemos desistir da nossa aviação comercial, até porque só há uma outra cidade, Campinas com dois aeroportos, como nós temos. Bauru é rara até nisso.
JC –Sua carreira profissional foi em outra área...
Mário – De fato. Meus estudos foram feitos na ITE. Sou da turma de 67 e me orgulho dos 15 anos em que trabalhei na área privada e outros 15 na pública, na CESP, sempre no setor jurídico. Os empregos também permitiram que eu alcançasse “outros voos”. Aos 16 anos, já tirei o brevê de planador.
JC – Sua família é de pioneiros.
Mário – O pai da minha mãe era o coronel Manoel Alves Seabra, um dos pioneiros de Bauru. Meu pai veio do Rio de Janeiro, para trabalhar na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Aqui, casou-se com Zilda uma das filhas do coronel. Meu pai, apesar de carioca, tomou um grande amor pela cidade a ponto de ser chamado de “o carioca mais paulista do mundo”.
JC – A história do seu pai está diretamente ligada à da astronomia no Brasil?
Mário – Sim, a vida dele rendeu até livro. Era um visionário e chegou a ser o idealizador da “Lei do Espaço Sideral”, que regulamenta o setor. Foi o fundador do Aeroclube de Bauru, em 1938. De forma que já nasci sendo levado para ver os voos. Além disso, ele participou ativamente das descobertas espaciais. Com os russos e americanos na corrida espacial, papai anteviu que aqui, no Hemisfério Sul, deveria haver centros de observação espacial e sugeriu a criação (ao então presidente Jânio Quadros) do Conselho Nacional de Pesquisas e Desenvolvimento Espacial, que foi o embrião do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
JC – E teve contato com cientistas do mundo todo?
Mário – De fato, um dos meus orgulhos é esta foto (ao lado), onde ele está em um congresso em Roma, ladeado pelo russo Leonidi Ivanovithc Sedov e por Wernher von Braun, simplesmente o cientista alemão pioneiro dos foguetes espaciais, que, graças aos seus estudos, nos EUA, fez o homem chegar à Lua.
JC – Falando em orgulho, há outros na área esportiva...
Mário – Graças ao incentivo do então delegado de esportes Caiado (Claudino Caiado de Castro) e do entusiasta Raduan Trabulsi montamos o time de basquete do Aeroclube e tivemos uma equipe muito boa. Tem uma passagem interessante, porque eu treinava o time feminino, onde inclusive jogou a professora doutora Maria Fidela Navarro (da FOB/USP). Para mim, é um orgulho ser apresentado como ex-técnico dela.
JC – Mas tem mais, não tem?
Mário - Ah, sim. Na minha cola, nos treinos, havia um cara mais jovem. Quando fui para a ITE, indiquei esse cara, para cuidar do time delas no meu lugar e deu no que deu, um homem de sucesso.... era o Barbosa.
JC – O treinador da seleção brasileira feminina?
Mário – Sim, o próprio Antonio Carlos Barbosa. Até hoje brinco com ele que, se não fosse eu desistir, ele não teria sido o que é (risos).
JC – Sua vida é pródiga em amigos famosos, o coronel Ozires Silva, por exemplo...
Mário – Ozires é desses homens extraordinários que entram no caminho da gente e de quem só temos que nos orgulhar. Ser amigo de quem foi o fundador da Embraer, o bauruense que colocou a aviação comercial nacional entre as melhores do mundo, posso dizer o quê?
JC – Recentemente, o senhor foi a ponte entre Ozires e o monumento do avião Bandeirante?
Mário – Tudo o que fiz foi lutar pela ideia do vereador José Roberto Segalla que sempre achou que Bauru não tinha homenageado Ozires à altura da sua importância. Para nós, trazer um avião Bandeirante e construir o monumento em zona nobre foi um desafio. E deu certo.
Nota da Redação: o Bandeirante ganhou um pedestal de sustentação e está instalado na praça Duarte Silva, espaço público adotado pela Associação dos Maçons de Bauru (Assoma), na avenida Mário Matosinho, ligação da Getúlio Vargas à Marechal Rondon.
Perfil
Mário Bevilacqua Neto tem 73 anos e é casado há 48 anos com Heloísa Maria Segalla Bevilacqua. São 50 anos juntos desde o namoro. Tem os filhos Luiz Alberto, Marcelo, Ricardo e Flávia e os netos Guilherme, Isabelle, Vitor, Gabriel, Letícia e Rafaela (de apenas 1 ano).
Sonho: Na verdade, são dois. O primeiro é dar uma destinação de estudo para o motor que veio com o Bandeirante do monumento. Penso que o ideal seria que o Senai o usasse para aulas práticas. O outro é corrigir uma injustiça com o general Marinho Lutz, diretor da NOB (Noroeste do Brasil).
Recentemente, a Câmara não aceitou dar o nome dele ao “viaduto inacabado”. Infelizmente, temos, entre os políticos, alguns destruidores de heróis. O general foi um abnegado, visava o bem dos ferroviários, construiu o Hospital “Salles Gomes”, na Bela Vista, que atendia os ferroviários da Noroeste e seus familiares. E ainda foi o grande responsável pela construção do estádio do Noroeste.
Nota 10: Sou egoísta (risos). Para meus pais, minha esposa, filhos, enfim, para os meus (risos).
Nota 0: Para o Lula (e sei que não estou sozinho nessa). Ele conseguiu bagunçar este País.
E-mail: mbevi@uol.com.br

