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Bateu, levou

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Quem dá na cara, leva no nariz. Quem muito  ventou,   que espere a tempestade. Quem com ferro feriu, ferrado  será.  Nesse vai e vem,  ninguém  devendo fica. Aquele que bateu apanha e quem apanhou bate também. Pronto,  justo empate, zero a zero ou um a um.

O bateu-levou é uma síntese perfeita. Primeiro na sonoridade: lá e cá. Depois, no justo ritmo do ping-pong: o que vai tem que voltar. E  há, ainda, aquela pérola popular: “Na cara  que mamãe beijou, vagabundo nenhum põe a mão”.  Quem o troco dá, lava a alma e não  leva  desaforo  pra casa.  

Eu sei que não foi nada disso que Cristo pregou no célebre Sermão da Montanha. Exatamente o contrário:  “...se alguém te ofender com um tapa na face direita, volta-lhe também a outra.” Mais uma sublime lição do Mestre. Quem a outra face oferece  evidencia superioridade de espírito e perfeito domínio das emoções, além de dar ao  agressor a oportunidade do arrependimento.

Contudo, ainda que eu esteja   correndo o risco de blasfêmia ou  de heresia, insisto em situar esse bateu-levou no tempo da resposta instintiva. É o que ocorre  quando não se dá ao estapeado o mínimo tempo de reflexão. Não custa lembrar que  refletir só é possível havendo cabeça fria. Se for um tapinha - e um tapinha não dói - até  consigo entender a lição de a outra face oferecer. Mas, quando se   desfere na  cara do coitado um  murro, daqueles que resumem todas as  mágoas e   frustrações mundanas, fica difícil cobrar dele qualquer coisa que não seja a  instintiva reação violenta. Pudera, não dá tempo  sequer de lembrar  que existe uma segunda face. Explodindo a bofetada, desaparece o homem e toda a cultura do homem, fica só o bicho espumando, nada além do que a ferocidade do troco.

Como pedir àquele coitado,  cujo pior calo foi violentamente pisado, que  não empurre o pesado agressor? Como exigir-lhe que  ofereça biblicamente o   outro calo? Também não se pode esperar  de  uma violenta martelada no dedo  um inspirado “Virgem Maria!”. No mínimo, o infeliz berrará, com toda a força dos pulmões, uma solene homenagem  à mãe de um cristão qualquer. Não sei não, mas acho que a humanidade  não está suficientemente preparada para assumir tão nobre comportamento bíblico. Nosso vaidoso espelho, que é a nossa cara,  quebrado repentinamente pelo tapa, retira-nos qualquer possiblidade  de pensar na segunda face.

Lerdo como sou, escrevi  tudo isso, mas não disse, ainda, o porquê desta crônica. Demorei muito na introdução e me perdi. Não introduzi o que de fato quero dizer.   Então, sem mais delonga, confesso que ando apanhando muito na cara e na alma  sem devolver  o tapa recebido. É que, no momento da  pancada, fico praticamente em estado de choque. Apalermado, apanho  e nada respondo. Claro que estou falando do tapa-palavra, da sutil agressão verbal, que bate como se não o tivesse  feito.  Incrível como as pessoas se especializaram nessa arte de ofender, valendo-se de perífrases, metáforas e, sobretudo, da terrível ambiguidade. Batem sorrindo, ofendem abraçando. Um exemplo?   Bem no meio de uma conversa afável, quando estou certo de que tudo é alegria e amizade, a boca maldosa me dá uma alfinetada tão perversamente pensada, que me deixa sem a mínima reação. É o tapa inesperado.

Então,  perco o chão, perco o céu e, principalmente o inferno, que  naquele momento me seria de grande valia,  e nunca   dou o troco necessário. Me dá um branco paralisador, fico  um perfeito idiota apanhando nas duas faces. Só depois, aliás muito depois, já  em casa, vem-me à cabeça a resposta prontinha, perfeita, redondinha,  que eu deveria ter dado e não dei. Emputeço-me por ser assim tão retardado. Já tentei sair dessa letargia, não consigo, continuo apanhando e perdendo a oportunidade do revide. Em mim, desgraçadamente, o “bateu-levou” virou o “bateu-levei”. Com o tapa ardendo na cara e  carregando o peso do mundo nas costas, volto humilhado. Levo o desaforo in-tei-ri-nho para casa.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br

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