O que fazemos quando repetimos durante a mesma semana o mesmo cardápio, tanto no almoço quanto no jantar? E pode ser o nosso prato preferido. Enjoamos. Tanto o fatídico jogo contra a Alemanha, como o do Haiti, recentemente, depois do terceiro gol, perdemos o interesse de prestarmos atenção à partida. As férias são bem-vindas, em função do tempo de trabalho que desgastamos nossas energias. O mesmo filme que adoramos assistir no cinema, não conseguimos repetir a dose sistematicamente. E assim, tudo na vida que acontece repetidamente, perdemos o interesse com o tempo decorrido. Até no relacionamento amoroso, se não for cultivado diariamente, entra na rotina e vai esfriando.
As manchetes diárias sobre corrupção, políticos, prisões da operação Lava-Jato, já estão se tornando tão enfadonhas, e já fizeram tantos estragos nos relacionamentos que estão esfriando o interesse do povo. As confusões propositais criadas pelos advogados e juízes desses processos estão turvando as ideias, que já chegam à saturação e levam ao desinteresse como discussão desses assuntos entre amigos.
Essa Constituição Brasileira tem sido citada rotineiramente, tanto pelos defensores quanto pelos acusadores, levando-nos a concluir sobre a necessidade de uma revisão que promova menor dubiedade. Tanto o Poder Executivo quanto o Legislativo recorrem frequentemente ao Judiciário, que virou a cereja do bolo. E, com isso, a desaceleração da economia, o aumento do desemprego, a volta de uma forte inflação vão corroendo a renda das famílias, que se encolhem até um limite que poderemos “temer” uma situação semelhante à que vive a Venezuela, onde a imprensa mostra fotos de pessoas e cães dividindo os sacos de lixo em busca de comida.
Sem entrarmos no mérito da questão, numa entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, o polêmico senador Romero Jucá profetizou que de tanto vermos atitudes políticas incorretas, as próximas eleições levarão a nomes completamente desconhecidos, que podem ser menores ou maiores problemas futuros, o que concordo, pois se as eleições fossem nesta semana, em quem votaríamos para presidente, senador, deputados estadual e federal, governador, vereador e prefeito?
Os que aí estão já sabemos como atuam, a maioria deles defendendo a si próprios e dando as costas para os interesses do povo que os elegeram. E os novos, teriam outros objetivos mais nobres, ou seriam mais do mesmo? Aproveitando o veio ferroviário de Bauru, imagino-me parado com o carro na frente de uma cancela, da rua Antônio Alves, esperando a passagem de um grande comboio, que parou no meio do caminho. Esse comboio chamarei de Brasil, com seus inúmeros vagões (estados).
O que devo fazer? Esperar por um novo maquinista, que faça esse imenso trem, começar lentamente a se locomover? Manobrar o carro e seguir por ruas que me levem a algum viaduto que transponha essa via férrea? Como está o meu tempo disponível para permanecer parado? Esse maquinista dará uma ré no comboio, porque precisa pegar um desvio, ou esperará um mecânico? E as pessoas que estão esperando as mercadorias levadas nesses vagões, por quanto tempo poderão ou deverão esperar?
É um tal de políticos defenderem ferrenhamente suas legendas (diga-se, a si próprios), que todas e todos estão comprometidos até o último fio de cabelo. A cultura da corrupção está enraizada até nas consultas médicas, onde podem ser adiantadas, mediante pagamento de atendimento particular, pois muitos casos urgentes não podem ser atendidos daqui a 6 meses, quando tem horário “disponível”. Desafio proposto: estamos dispostos, todos nós, a irmos ao sacrifício até o extremo do interesse individual para revertermos esse status quo?
O autor é professor FOB-USP e membro do Lions Clube de Bauru Centro - 60 anos.