O Brasil vive uma fase de “escancaramento”. Sempre se soube, em conversas de bares, praças e varandas, que a roubalheira é geral. Agora, o papo dos comuns virou operações contra graúdos - e todo dia tem alguém sendo preso. Os tentáculos da corrupção e de outros absurdos chegam a todas as áreas, portanto, também na cultural. Errado, contudo, é trocar o palco para ver se a qualidade do espetáculo melhora.
Em outras palavras: não é acabando com Ministério da Cultura, Lei Rouanet, etc., que se resolve a questão de desvios e desmandos. É preciso corrigir, não sepultar. A visão estreita difunde o seguinte: algo está errado? Corta-se. Do ponto de vista histórico, taí um erro e tanto.
Sobre as artes: é o que fica. Um filme, um livro, uma música, um quadro (só para citar alguns) deixam de ser 100% do autor e passam também a ser de todos no momento em que ganham a luz pública. Viram patrimônio da humanidade. Um bem afetivo, educacional, intelectual, perene.
É simplista pensar que, por usufruir de um estímulo, um filme é automaticamente usurpador. Fiscalize-se. Aquele diretor e aqueles atores vão morrer, e a obra vai ficar. Muitas vezes, influenciando gerações. Servindo de documento sobre uma época. Motivando debates, enriquecendo aulas, etc. Claro que sempre será melhor contar com produções totalmente livres de amarras oficiais.
Sempre haverá produção artística mediana, até ruim, e é um risco que se corre. Sempre haverá esta ou aquela panelinha, castas de favorecidos, e assim o ser humano age. Mas arte deve ser alavancada para além da mesquinhez de uns e outros. Ainda mais no Brasil onde há tanta manifestação artística de incontáveis vertentes.
Dinheiro público é para o bem público em geral, inclusive nas artes. Imagine Bauru sem sua Secretaria Municipal de Cultura? Hoje mesmo, e para a coletividade: tem rock, tem música clássica, tem música caipira, e em todas as opções tem a atuação da municipalidade.
“’O filme ‘Aquarius’ vai fazer você querer morar no Brasil”, estampou o jornal britânico Daily Telegraph sobre o longa do pernambucano Kléber Mendonça Filho que concorreu à Palma de Ouro em Cannes e vem ganhando festivais por aí. Nem precisaria chegar a tanto, mas é isso que a arte faz: provocar algo intenso para além do momento. A vida eterna dos humanos existe e é na forma de arte que ela se dá. Basta fazer o certo.
O autor é editor executivo do JC