As explicações para a “surpreendente” saída do Reino Unido da União Europeia têm mais a ver com o destino traçado pelas bruxas de Macbeth e com o fantasma de Hamlet do que com as possíveis desvantagens econômicas. Trata-se de uma questão de identidade cultural, em primeiro lugar. Leia-se, aquele conjunto de signos, referências e influências que determinam o entendimento nas relações com o “outro”. O inglês costuma dizer que vai à Europa, quando se dispõe a cruzar o Canal da Mancha, para pôr os pés no continente. A Inglaterra não é a Europa. Basta-se a si mesma. Há muitas razões históricas a justificar esse sentimento. Júlio César (55 a. C.) patrocinou duas expedições contra a Velha Albion e não conseguiu domar os moradores da Ilha. Henrique VIII (1491-1547) trocou a autoridade papal para ter seis esposas e fundou a própria igreja, a Anglicana.
A Invencível Armada de Felipe II foi derrotada pelas tempestades e depois pelo almirante Nelson, sem ter chance de disparar um único tiro de canhão contra a Cornualha. Napoleão engendrou um bloqueio continental para dobrar a espinha dos ingleses, mas acabou encontrando o seu fim na Batalha de Waterloo, derrotado pelas tropas de Wellington, há exatos 200 anos. Na Primeira Guerra Mundial, a marinha inglesa, com duas mil embarcações, garantiu sua superioridade nos quatro cantos do mundo. Na Segunda Guerra, a RAF dissuadiu Hitler de levar avante seu sonho de invadir o Reino Unido.
Os fleumáticos anglo-saxões precisaram muito pouco dos vizinhos do outro lado do Mar do Norte. Fundaram o mercantilismo e se enriqueceram produzindo e vendendo às colônias do Império tão grande que o sol nele nunca se pôs. Lá, também nasceu o liberalismo, com Adam Smith, e o lumpesinato inspirou Marx a conclamar a união do operariado contra o capitalismo selvagem. O Reino Unido entrou contra a vontade na União Europeia, em 1975. Charles De Gaulle, então presidente da França, chegou a vaticinar que o negócio não iria prosperar com esse novo sócio. Os ingleses nunca aceitaram o euro como divisa. Preferiram manter a libra esterlina, de maior valor. Eles não se conformam em se submeterem ao Parlamento Europeu, com sede em Bruxelas, até para simples modificação do horário bancário. Pior ainda: serem obrigados a comprar açúcar de beterraba dos subsidiados agricultores franceses, quando existe açúcar no Brasil, melhor e mais barato.
Os velhos ingleses, saudosos dos tempos de glória, não se conformam em dividir espaço com milhares de imigrantes vindos de países da Zona do Euro, por causa do acordo de livre circulação. São 800 mil poloneses não nascidos na Ilha, pelo menos 250 mil portugueses, outro tanto de espanhóis. Fora indianos, africanos e asiáticos, heranças coloniais. E 120 mil brasileiros “bicões”. Para atender todo esse povo, o sistema universal de saúde - o SUS deles - não dá mais conta. Há espera de três anos para uma cirurgia de hérnia e outras elegíveis. Faltam escolas de padrão britânico. Tudo leva a um sentimento xenofóbico, principalmente entre os mais velhos, que votaram em massa pelo BRexit. Hordas de refugiados sírios e de países muçulmanos invadem a Europa. Querem que a Inglaterra ajude também com sua cota de acolhimento. O medo de atentados virou obsessão.
Para os jovens, é mais fácil aceitar. Nasceram em um mundo ultraconectado, dominado pelas tecnologias informacionais. As distâncias e as fronteiras, antes tão grandes e rígidas, hoje quase se apagaram. Os limites são meras convenções. Os velhos ainda querem tomar seu “pint” de cerveja escura em paz, na velha tradição dos pubs. Será que ainda tem sentido a fuga da tal “aldeia global” para proteger os interesses egoístas? No Reino Desunido, a Escócia quer vender seu uísque para o Continente, grande comprador.
Os ingleses estão cheios de tomar vinho do Porto, por patriotismo, porque são obrigados a comprar grande parte da produção portuguesa em troca dos manufaturados da Ilha. O mundo construído pode fugir do controle se cada um cuidar dos seus interesses, sem pensar no desenvolvimento harmônico, que trará benefícios para todos no futuro. A vida é sempre convivência. “Eu sou eu e minhas circunstâncias”, na lição de Ortega y Gasset. Essas “circunstâncias” são os outros. Nenhum homem é uma ilha - dizia o poeta. Todos nós fazemos parte do Continente. Ainda que essa ilha seja a Inglaterra, com toda a identidade cultural construída através de séculos de história.
O autor é jornalista e articulista do JC