Nossa sociedade está mais velha, mais tecnológica, mas não eliminou os preconceitos, não conseguiu evitar a constante erosão das famílias, nem acabar com a corrupção. Tornou-se uma sociedade saturada de valores de mercado, uma sociedade de relações temporárias, de vínculos provisórios, de compromissos descartáveis e que presencia uma decadência das instituições da vida social. Uma sociedade que se esqueceu de seus deveres e se esqueceu que o direito é como um cheque: só tem valor se houver um banco e uma conta onde e da qual possa ser descontado.
Virtudes antes admiradas como a modéstia, humildade, discrição e comedimento são objetos poeirentos em exibição num museu de curiosidades culturais. Palavras como “dever”, “obrigação” e “ética” têm uma carga negativa ou nenhum sentido.
A combinação de inveja, raiva e um forte sentimento de injustiça fertilizam o solo para o aumento de protestos e da violência de que ninguém está salvo. Esses e outros problemas não podem ser resolvidos nos termos estabelecidos pela modernidade, pelo simples motivo de que não são processuais, mas sim, morais. O projeto humano é inevitavelmente um projeto moral. Por essa razão, além da educação, as religiões, com seu papel histórico de reflexão a respeito das questões morais, precisam participar mais ativamente desse diálogo. Se os políticos nos avaliam pelo nosso voto, os publicitários pelo que compramos, quem nos avalia por aquilo que somos?
As superpotências econômicas, aparentemente invencíveis no seu tempo, tiveram curta duração: Veneza no século 16, Holanda no século 17, França no século 18, Grã-Bretanha no século 19 e os Estados Unidos no século 20. Em compensação, as religiões sobrevivem. Para citar apenas as mais conhecidas, o Islã tem, aproximadamente, 1.500 anos, o Cristianismo 2.000 e o Judaísmo 4.000. Isto porque as religiões dão corpo a verdades inacessíveis à economia e à política e continuam relevantes mesmo quando todo o resto muda. Elas nos lembram que as civilizações não sobrevivem pela força e sim, pela forma como respondem ao apelo dos fracos; não pelo poder, mas por sua preocupação com os que não tem poder.
As grandes religiões podem ensinar aos nossos meninos e meninas um tipo diferente de sabedoria: a reverência a criação, a responsabilidade em relação às futuras gerações e a moderação porque não devemos fazer tudo o que podemos. Mas, para viver a religião plenamente é preciso ter fé, é preciso viver com a fé que se considera verdadeira. Isso não é relativismo, mas a profunda compreensão de que uma fé coercitiva e fundamentalista não é fé verdadeira. Isto quer dizer que, se amarmos a nossa religião, compreenderemos o valor das outras. Se não valorizamos a religião praticada por outros é porque, na verdade, consideramos a nossa como um fardo ou apenas como uma obrigação social. Compreender a especificidade do que importa para nós é a melhor maneira de apreciar o que é importante para os outros.
O aspecto principal é fazer com que Deus deixe de ser uma força externa para se tornar uma experiência interna e quando isso acontece, vamos da religião para a espiritualidade. Esse é o caminho para tornarmos nossa sociedade melhor. Da história podemos tirar uma lição irônica e ao mesmo tempo muito humana, segundo a qual o que torna uma sociedade invulnerável é a compaixão para com os vulneráveis. Enfim, o valor que se deveria maximizar é o da dignidade humana – a dignidade de todos os seres humanos igualmente, como filhos de um único Criador. Aprenderemos a viver com a diversidade quando compreendermos que a dignidade da diferença é uma dádiva do Criador que engrandece qualquer sociedade.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp – Bauru