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Olho gordo

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

O miserável pode ficar tranquilo: jamais será invejado. O invejoso só tem olhos para cima. É no pódio mais alto que estão  as  medalhas do sucesso. Intranquilo, contudo, ficará o  vitorioso invejado. Ele sabe que o “olho gordo” sempre lhe estará  mordendo o calcanhar.

Para fugir da energia  invejosa, só mesmo o refúgio da toca anônima. Bem o diz um provérbio francês ao afirmar que só viverão felizes os que se mantiverem escondidos (“Pour vivre heureux vivons cachés”). Entre nós, a  cabeça que ousar se levantar acima da linha mediana levará  porretada corretiva.  Volte já  pro seu lugar!

Lancemos alguma luz sobre a figura do invejoso para melhor entendê-lo. Ele só agride porque se sente agredido. O insuportável  brilho alheio obriga-o a encarar a opacidade do seu fracasso.  A superioridade do outro empurra-o para o indesejável encontro com o sentimento de  inferioridade. Sádico  espelho esse que lhe interdita a própria imagem  para  lhe mostrar a indesejável cara, não a dele, mas a  vitoriosa cara alheia. A inveja é assim,  no exato momento em que nasce, faz logo a sua primeira vítima:  o próprio invejoso. Punhal cravado, aguda dor.

Uma distinção:  inveja nada tem a ver com  admiração. Esta, energia boa,  permite-nos o brinde da alegria por estarmos, felizes, aplaudindo o sucesso alheio. Aquela é taça venenosa de tão amarga bebida, difícil de ingerir. Uma nos eleva, a outra nos degrada.

Mudemos, agora, o foco da luz para  iluminarmos os invejados. Alguns ficam incomodados ao perceberem a inveja que provocam, procuram, até mesmo, controlar a intensidade do brilho que emitem. Outros, ao contrário, carregam nas tintas da autoimagem, superdimensionando as vitórias alcançadas, pelo prazer único da ostentação agressiva. Se vencedores  por um lado, por outro notórios perdedores. A desmedida vaidade sinaliza que não estão  bem resolvidos. Há pedras incômodas em seus sapatos.

Mudemos outra vez o foco da luz, agora para  iluminação mais abrangente. Joguemos a mesma luz no invejoso e no invejado, mas agora ao mesmo tempo. Sim porque não é sábio que os  separemos. O invejado, claro, também  olha para cima, daí ser um invejado que também inveja, ou seja, um invejado-invejoso. Por outro lado, o invejoso, apenas  por ocupar lugar na fila,  é também invejado, por isso um  invejoso-invejado será.  

Invejosos e invejados somos assim, humanos. Bobagem essa mania de separação. Não estamos de um lado só,  não somos assim nem assados somos. Carregamos o mundo e suas contradições dentro de nós. Há muito do que enxergamos  no outro  dentro de cada um de nós.  Somos um pouco de tudo, talvez não sejamos nada.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras. - curso_romag@uol.com.br

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