O miserável pode ficar tranquilo: jamais será invejado. O invejoso só tem olhos para cima. É no pódio mais alto que estão as medalhas do sucesso. Intranquilo, contudo, ficará o vitorioso invejado. Ele sabe que o “olho gordo” sempre lhe estará mordendo o calcanhar.
Para fugir da energia invejosa, só mesmo o refúgio da toca anônima. Bem o diz um provérbio francês ao afirmar que só viverão felizes os que se mantiverem escondidos (“Pour vivre heureux vivons cachés”). Entre nós, a cabeça que ousar se levantar acima da linha mediana levará porretada corretiva. Volte já pro seu lugar!
Lancemos alguma luz sobre a figura do invejoso para melhor entendê-lo. Ele só agride porque se sente agredido. O insuportável brilho alheio obriga-o a encarar a opacidade do seu fracasso. A superioridade do outro empurra-o para o indesejável encontro com o sentimento de inferioridade. Sádico espelho esse que lhe interdita a própria imagem para lhe mostrar a indesejável cara, não a dele, mas a vitoriosa cara alheia. A inveja é assim, no exato momento em que nasce, faz logo a sua primeira vítima: o próprio invejoso. Punhal cravado, aguda dor.
Uma distinção: inveja nada tem a ver com admiração. Esta, energia boa, permite-nos o brinde da alegria por estarmos, felizes, aplaudindo o sucesso alheio. Aquela é taça venenosa de tão amarga bebida, difícil de ingerir. Uma nos eleva, a outra nos degrada.
Mudemos, agora, o foco da luz para iluminarmos os invejados. Alguns ficam incomodados ao perceberem a inveja que provocam, procuram, até mesmo, controlar a intensidade do brilho que emitem. Outros, ao contrário, carregam nas tintas da autoimagem, superdimensionando as vitórias alcançadas, pelo prazer único da ostentação agressiva. Se vencedores por um lado, por outro notórios perdedores. A desmedida vaidade sinaliza que não estão bem resolvidos. Há pedras incômodas em seus sapatos.
Mudemos outra vez o foco da luz, agora para iluminação mais abrangente. Joguemos a mesma luz no invejoso e no invejado, mas agora ao mesmo tempo. Sim porque não é sábio que os separemos. O invejado, claro, também olha para cima, daí ser um invejado que também inveja, ou seja, um invejado-invejoso. Por outro lado, o invejoso, apenas por ocupar lugar na fila, é também invejado, por isso um invejoso-invejado será.
Invejosos e invejados somos assim, humanos. Bobagem essa mania de separação. Não estamos de um lado só, não somos assim nem assados somos. Carregamos o mundo e suas contradições dentro de nós. Há muito do que enxergamos no outro dentro de cada um de nós. Somos um pouco de tudo, talvez não sejamos nada.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras. - curso_romag@uol.com.br