| Samantha Ciuffa |
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| Sebastião Batista Mendonça é professor de oratória |
Contar a história de vida do professor de oratória Sebastião Batista Mendonça é, ao mesmo tempo, tarefa fácil e difícil. Comunicativo por natureza, é expansivo, o que facilita muito. Sua linguagem é acessível e agradável. Mas ao mesmo tempo fica difícil escolher o que contar da vida desse homem com múltiplas facetas de comunicador. Foi radialista, jornalista, seminarista, é professor, escritor, enfim, um mestre em comunicação. Estudou História, Filosofia e Ciências Sociais, entre outros cursos, para desenvolver o dom de se comunicar. Como professor encontrou a sua veia principal, e vem ensinando há 17 anos a advogados de Bauru e região a arte da oratória (isso sem falar nos 30 anos de magistério estadual), que ele domina como poucos. Ele nos recebe falando com orgulho dos três filhos e cinco netos na véspera de ir visitar um deles, em Sorocaba. E fala também, obviamente, do curso que já teve 74 turmas.
Jornal da Cidade – Na sua história pessoal consta uma verdadeira aventura para conseguir estudar, quando tomou a decisão de deixar a vida rural...
Professor Sebastião Mendonça – De fato. Eu nasci em Frutal, Minas Gerais, e até os 15 anos vivia na fazenda com meus pais. Éramos dez irmãos, vida rudimentar, sobrevivíamos do trabalho braçal no cultivo agropecuário. Tomei uma decisão definitiva. Peguei emprestada a malinha de fibra da minha avó, um par de sapatos e calça do meu irmão, consegui um dinheiro emprestado e fui parar em Ribeirão Preto. Queria estudar.
JC – E foi fácil?
Professor Mendonça – Nada. O que ganhava mal dava para cobrir as despesas. Trabalhava de dia, estudava à noite. Fui engraxate, servente de pedreiro, pasteleiro, vendia pó de café nas casas...
JC – A escola era a sua prioridade, mas era cara, não?
Professor Mendonça - Sim, para pagar os uniformes foi feita uma campanha junto aos colegas para conseguir de um, a calça cáqui; de outro, o paletó cáqui, a gravata azul, a camisa de mangas compridas, par de sapatos preto e meias pretas. Cadernos? Também encontrei a solução: no lixo de uma tipografia havia restos de papel. Ajuntava as folhas melhores e pedia para cortá-las em tamanho padrão e grampear. Estes eram os meus cadernos.
JC – Tem outras lembranças?
Professor Mendonça - Bom, posso contar um incidente. Estava hospedado em uma casa de família, em Ribeirão Preto, quando senti a falta de uma meia do par e, ao perguntar para a dona da casa se sabia do seu paradeiro, ela não se conformou. Ao chegar da escola, por volta das 23h30, meus pertences estavam todos na calçada da rua. A única alternativa foi dormir no coreto do jardim, na Praça 7 de Setembro.
JC - E ficou muito tempo na rua?
Professor Mendonça - Na manhã do dia seguinte, pedi autorização ao guarda e lá permaneci alojado por uma semana. Lavava as poucas peças de roupa que tinha e tomava banho na torneira. Uma família portuguesa, de São José do Rio Preto, que comprava fruta do meu pai, ao saber que um de seus filhos estava em Ribeirão Preto, convidou-me para ficar hospedado em sua casa. Aceitei e fui muito bem acolhido.
JC – Foi nessa época que quis ser padre?
Professor Mendonça – Sim. Permaneci por dois anos em companhia do bispo de Rio Preto, dom José Joaquim Gonçalves, e ele me enviou para o Seminário, em São Paulo.
JC – Mas quando abraçou o magistério?
Professor Mendonça – Bom, tendo concluído Filosofia, voltei para Rio Preto, cursei Pedagogia, depois História (em Catanduva) e Ciências Sociais (em Lins). Acabei ingressando no magistério estadual, onde lecionei por 30 anos.
JC – O senhor também é escritor?
Professor Mendonça – Sim, escrevi dois livros, “Batismo, caminho da graça” e “A comunicação está em você”. Tenho um terceiro que ainda estou escrevendo.
JC - Como o curso entrou em sua vida? Por que a OAB?
Professor Mendonça – Em 1998, já aposentado, criei o curso “Oratória, A Arte de Falar em Público”. A Casa do Advogado é o ambiente propício. É constrangedor para os magistrados e preocupante para os clientes verem advogados que não se preparam convenientemente, balbuciando alegações frágeis e desordenadas. O bom advogado, bem como o professor, precisa ser comunicador por excelência. Para estes profissionais, o livro deve ser considerado o seu laboratório, e a palavra, a ferramenta de trabalho. Desde o Império Romano, a imagem do advogado é vista como orador qualificado. Se num evento social estão presentes professores, advogados, médicos, engenheiros, empresários, havendo necessidade de uma saudação ou de uma apresentação mais sofisticada, com mais formalismo, é a um advogado a quem se pede que tome a palavra.
JC – O senhor se preocupa também com a postura, não só com a fala. Não se deixar fotografar de braços cruzados, por exemplo.
Professor Mendonça – Sim, é um equívoco, algo que nem todos conhecem. Mais do que timidez, estar fechado bloqueia a comunicação. Durante o curso de oratória, o participante conhece a importância da comunicação verbal e da não verbal e a busca pela ética. Pela comunicação é possível a troca de ideia, conhecimento, experiência, cooperação mútua, integração das pessoas, amizade, negociação, intercâmbio econômico, diálogo fraterno ou até monólogo. Olhos, ouvidos, a palavra, gestos e a postura são os principais canais de uma mensagem.
JC – Assim acaba influenciando o outro?
Professor Mendonça - Sim, no curso se aprende como influenciar as pessoas pela fala, o desenvolvimento da autoconfiança, aprimoramento da voz, dicção, como dominar a timidez, medo e insegurança, utilização correta de gestos, como proferir um discurso lido, o improviso, técnicas de entrevista, regras de etiqueta, cerimonial e protocolo, postura corporal em ambiente de trabalho e muito mais.
JC – Como ser um bom orador?
Professor Mendonça – Adquirir o hábito de praticar boa leitura em voz alta, diariamente, com atenção nas ideias das palavras, ler pausadamente com pronuncia correta, boa ressonância, dicção, observar outros oradores, participar de palestras e simpósios.
JC – Quando o orador é eloquente?
Professor Mendonça – O orador retórico deve ser também eloquente ou parcialmente eloquente em suas apresentações. Enquanto a retórica se manifesta pelo conhecimento, uso da razão, pensamento, técnicas e métodos, a eloquência vai mais longe. Ela estabelece juízos de valores e manifesta-se pela força da ética. O orador eloquente usa de uma arma poderosa, que é a humildade e a simplicidade, tendo como característica comover o público. Cristo é o maior modelo de orador eloquente.
JC – O balanço que se faz é que já passaram por suas aulas mais de 600 advogados...
Professor Mendonça – Na OAB, encontramos um pessoal muito acolhedor e familiar. Toda diretoria passada e a atual, funcionários, sempre nos acolhem com muito carinho e respeito. Muito temos que agradecer aos então presidentes: Gerson Morais Filho, Edson Roberto Reis, Caio Augusto Silva dos Santos e ao atual, Alessandro Biem Cunha Carvalho. A imagem que temos da Casa do Advogado de Bauru é sempre fortalecedora, jamais será esquecida. Centenas de advogados, magistrados, estudantes, professores e outros profissionais participaram do curso, criando um ambiente sadio e enriquecedor. Temos certeza de que produziu muitos frutos. Deixou muita saudade.
Perfil
Sebastião Batista de Mendonça
Tem 76 anos e é do signo de Aquário. Nasceu no município de Frutal (MG) e chegou a Bauru em 1988, de onde não saiu mais. E é casado pela segunda vez, com Celina de Oliveira Ferraz. Teve três filhos: José Alexandre, Luís Eduardo e Paulo Ricardo, todos da primeira esposa, Maria Elisa, falecida no ano 2000.
Seu livro de cabeceira: a Bíblia
Filme preferido: Gladiador
Seu hobby: ler e escrever
Nota 10: Papa Francisco
Nota 0: Lula e o PT
E-mail: mendonca.blv@terra.com.br
