Hoje é dia de decisão do Campeonato Europeu de Futebol. Torço por Portugal, “meu avozinho”, mas também quero que tudo se decida na cobrança de penalidades. Presumo que o pênalti seja o momento mais sublime do futebol. Gosto de analisar a fisionomia de cada um dos batedores e do goleiro, no momento da cobrança. A responsabilidade faz tremer até os consagrados craques. Parece que quanto mais famoso o atleta aí é que se cometem os maiores erros. Quando todos esperam dele a bola no fundo das redes para destampar o grito de gol, o goleiro consegue interceptar o chute ou a bola se perde por cima do travessão.
Pela enorme responsabilidade que pesa sobre o atleta, “o pênalti é coisa tão importante, que quem devia bater é o presidente do clube” – dizia o filósofo Neném Prancha. Ele instruía seus jogadores a bater forte, no canto e ras-tei-ro. Depois de soletrar, Neném explicava que “ A bola é feita de couro. Couro vem da vaca. E vaca come capim”. Na semifinal Polônia X Portugal, partida empatada no tempo normal e na prorrogação, Cristiano Ronaldo, praticamente impôs a João Moutinho, o baixinho da equipe a se inscrever para bater um dos decisivos pênaltis. “Anda a bater. Tu bates bem. Seja solidário. Se errar, que se f...” Moutinho foi lá, deu conta do recado e Portugal está na final contra a França.
O professor Oscar Mangione, referência em psicologia esportiva na Argentina, atribui o fracasso de Messi na seleção do seu pais a “um caso clássico de “indivisão”. A camisa 10 pesou para o maior jogador do mundo e a bola foi às núvens, numa cobrança do pênalti. O Chile ganhou e a Argentina chegou pela sétima vez a uma final, sem ganhar. Indivisão é um termo criado por Freud (1918) para caracterizar a queda das habilidades no momento no qual se juntam extrema pressão psíquica e necessidade de eficiência na motricidade fina. A linha que vai da angústia à indivisão. Merleau-Ponty também navegou nesse mar, ao analisar os significados da experiência humana. A vida humana no entre-dois da experiência. Justamente a indivisão entre o sensível e o não sensível. Um exemplo dado é o primeiro concerto de piano de Chopin em Paris. Ele se bloqueou. Parou. Não conseguiu tocar. E ninguém jamais duvidou da habilidade de Chopin em tocar piano. A gente sempre espera que um craque domine o anímico – o espiritual, o psicológico. Ninguém consegue dominar “a carne emergindo da experiência do corpo”, como prelecionou Merleau-Ponty. Coitado do Messi. Quando a torcida diz: “Perdemos sete finais”, não pensa: “Chegamos a sete finais”. É difícil chegar a sete finais. Muita gente já se esqueceu do lance recente, no Barcelona, quando ele, na cobrança da penalidade rolou a bola de lado para Suárez marcar. Repetiu Cruyff que fez o mesmo no Ajax, em 1982.
A tensão é tão grande que até os juízes se atrapalham com o apito na cobrança dos pênaltis. Tornou-se célebre a gafe do juiz Armando Marques, na decisão do Campeonato Paulista em 1973. Jogavam Portuguesa X Santos. O tempo normal terminou empatado. A prorrogação também. Na cobrança de pênaltis o placar era de 2 a 0 para o Santos e Armando Marques encerrou o jogo. A torcida santista explodiu em festa. Os jogadores da Portuguesa foram para o vestiário chateados e, quase uma hora depois descobriu-se que ainda faltavam duas cobranças de penalidade e a Portuguesa poderia empatar. Tarde demais. Armando Marques errou na conta, ninguém percebeu e ele trilou o apito final.
Há ainda a questão do pênalti cavado durante o jogo. O atleta simula uma queda na área, e o juiz marca. Numa sociedade em que o êxito é valorizado ilimitadamente, essas malandragens acabam acontecendo. Os fins, para eles, justificam os meios. É a ética de resultados. Nada a ver com pênalti, mas, ninguém perdoa o célebre gol de mão de Maradona em 1986 – com exceção dos argentinos, é claro.
Pênalti faz lembrar aquele diálogo rodrigueano: -“Precisamos conversar...” – “Dá para esperar o fim do jogo?” – “Não, tem que ser agora”. “Mas o Baggio vai bater o pênalti do fim da Copa”. – “Eu te traio há dez anos”. - “O Baggio isolou! É tetra! É teeetraaa!”. O erro, o não ganhar e o trair fazem parte da vida. Isso é que nos faz particularmente humanos.
O autor é jornalista e articulista do JC