Tribuna do Leitor

Reflexão sobre o trabalho

José Misael Ferreira do Vale
| Tempo de leitura: 3 min

Amigo, companheiro fraterno, que passa célere pela calçada da frente e cruza a rua de repente, sabe o que significa o trabalho diário da gente? Para além da sobrevivência e do esforço que fere o músculo e as mãos, o trabalho disciplina a mente, cria valor às coisas produzidas e gera o excedente para aqueles que por meio do salário e da maquinaria podem valer-se do trabalho coletivo pago por ninharia num contexto dominado por poderosos financistas, com a ajuda pronta, imediata de economistas.  

Sabe, caro passante, que um por cento da população, num país como o Brasil, domina o espaço da produção  e dita as regras para a economia da nação capitalista. Sabe você que numa economia capitalista de mercado, a mercadoria é o foco central do sistema burguês que, a partir do século dezenove, surge, a todo vapor, no solo inglês?

A mercadoria emerge como dialética do valor de uso e do valor de troca. Destarte, a mercadoria precisa ser útil aos humanos de vez. Ao ser útil aos desejos humanos, ela será objeto de compra. Para os humanos vale o valor de uso do objeto à venda.

Neste valor de uso reside a qualidade do valor de revenda. O fabricante endinheirado sonha com o momento azado da alienação ou venda do objeto útil às pessoas de toda idade.

Ao fabricante de sapatos, haja sapatos feitos em quantidade a fim de que a multidão de pessoas que anda pelas ruas da cidade possua, para si, um objeto útil e estético de proteção aos pés. Assim, o pisante é reunião, síntese de qualidade e de quantidade.

Em boa dialética, não se pode, na prática, pensar separadamente os momentos do par dialético, do modo de produção hoje vigente. Longe estaremos da visão racionalista de linha filosófica cartesiana,   ao não aceitarmos a separação da realidade mundana presente. O relógio que usamos reúne em si a qualidade e a quantidade.

Podemos descrevê-lo e usar um sem-número de suas qualidades: bonito, funcional, resistente, dourado, bem desenhado, social.

Mas nenhum químico, nenhum sábio poderá, ao examiná-lo, encontrar nesse objeto útil e valioso um aspecto crucial, nodal à sua existência, como objeto de desejo humano, muito real . Ninguém encontrará no relógio de pulso, objeto, às vezes caro, a razão efetiva de sua existência, neste mundo de intenso mercado.

Prezado amigo: você não encontrará inscrito no relógio criado as relações sociais de trabalho que permitiram ver no objeto dado o dito relógio como algo que, além de útil, exigiu do operário trabalho real e poupança do comprador, neste mundo sob horário. Saiba mais. No modo de produção antigo ou atual, o trabalho é mediação essencial entre o ser humano e a natureza de fato.

Sem o trabalho, bem sabemos, não haveria a mínima possibilidade de o ser humano criar as condições de sua existência real. O trabalho, afinal, é parte da inseparável da intensa vida social.

Ele é ontológico, próprio ao ser humano, diz a filosofia histórico-social. O trabalho material é dirigido à produção de objetos ou mercadoria. E o trabalho não-material ou trabalho intelectual-espiritual é responsável pela produção de ideias, leis e princípios científicos que permitem avanços no desenvolvimento tecnológico e cultural.

A dialética nos ensina que qualquer que seja o trabalho produtivo, envolve-se intelecção, razão e conhecimento, trabalho não material.

O pintor, ao imaginar a tela, executa trabalho não material, ao vivo, mas a tela somente toma corpo e realidade quando o imaginário se revela como forma, cor, composição, traço, perspectiva, massa e estilo. Podemos dizer, ao fim e ao cabo, que todo trabalho humano desvela a relação fundamental entre o material e o formal, antes planejado, entre o material (objetivo) e o espiritual (imaginativo e criativo), entre o objeto planejado e o objeto realizado, entre o ideado e o materializado.

Vivam aqueles que, suados e fatigados, por meio do trabalho, criam a vida social.

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