Tribuna do Leitor

A Mordaça e a Mordacidade

José Carlos Brandão (dos ?Aforismos de Gregório Vaz?)
| Tempo de leitura: 2 min

Se você está morto de frio, você não está morto; se está morto de fome, não está morto; se não está desesperado diante da vida, está morto. O homem é um cadáver à beira do túmulo com vergonha do seu cheiro futuro. Em outras palavras, você pode estourar de riso como o idiota que é, mas não morrerá mais feliz por isso. Pense bem, a loucura não é contagiosa: a maioria dos homens é simplesmente néscia. Zenão me ensinou que nunca alcançarei a tartaruga e que devo fazer todos os esforços fúteis e inúteis para fingir que, hipocritamente, tento alcançá-la.

Você reage como uma prostituta diante da desgraça, mas não tem a coragem que ela tem. O homem não prova nem a si mesmo que não é um rato de esgoto. O homem sente um infinito prazer de parecer a todos que o conhecem um infinito sofredor. Morremos de pena dos pedintes porque morremos de pena de nós mesmos ou odiamos os pedintes porque odiamos a nós mesmos? Por que você quer ser diferente? Todo mundo toma sua ração diária de injustiça. Você não sente nojo de si mesmo quando vê um mendigo cheio de chagas na rua e percebe que você não é aquele mendigo?

Vivemos entre a mesquinharia da submissão à sociedade ou à moral. O avanço tecnológico é proporcional ao recuo da ética. E no fim das contas, a maior moralista que eu conheci era dona de um bordel. O que o homem seria sem a sua vileza? Não sou contra a moralidade estabelecida; ela é que é contra mim. Eu me orgulho de meus fracassos, de meus defeitos, de todos os meus atos ridículos, de tudo que me torna ridículo aos olhos dos outros. Dante estava errado: é o ódio que move o sol e as outras estrelas.

Um pernilongo sabe mais do que você sobre a vida. Quem está vivendo mais intensamente, o homem feliz ou o homem angustiado? Toda dor pressupõe uma dor maior que pressupõe outra dor maior e assim ad infinitum. Por que então nos preocuparmos em sofrer uma dor? O homem é um narcisista: vive lambendo até as próprias feridas (ou até as próprias fezes?). É masoquismo amar ao próximo como a nós mesmos. Afinal, quem tem um espinho na língua não deve beijar.

Não se acuse ninguém da falta de ideias; a falta de ideias já é uma ideia. E não falem mal do preguiçoso: as melhores coisas do mundo se fazem na cama. É sensatez saber quando não usar a sensatez. A mordaça aumenta a mordacidade.

 

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