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Civilização em tempo de terror

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O terror em Nice, na noite em que se comemorava a Queda da Bastilha e o advento do Estado de Direito, não pode deixar ninguém indiferente. Os corpos de crianças e adultos falam a linguagem eloquente do silêncio da barbárie.

Todos nós nos questionamos sobre as motivações do crime, em particular daquele que é movido pelo ódio e pelo extremismo político-ideológico e, porventura, religioso. O socialista Manuel Valls, primeiro-ministro da França, alega que “os tempos mudaram e nós temos que aprender a viver com o terrorismo”. Parece que razão, mesmo, tinha Santo Agostinho, que foi bispo na Argélia em 430 d.C: “De tanto tudo ver, acaba-se por tudo suportar, de tanto tudo suportar acaba-se por tudo tolerar...” Em ano e meio, aconteceram sete atentados na França. O Estado Islâmico vinga-se das bombas atiradas pelos caças franceses sobre objetivos na Síria. No início da série, a indignação se traduziu pelo efêmero “Je Suis Charlie”.  Quase todos os meses, os noticiários obrigam a mudar a palavra final do grito. “Je Suis Paris”,  “Je Suis Nice...” Os terroristas gostam de deixar um rastro de fama antes de partirem para o Paraíso, ao encontro das tais 70 virgens. Por isso a escolha da idílica Riviera Francesa, por entre o glamour e o vedetismo da Promenade des Anglais. Em Nice, as hospedagens custam menos que no resto da Côte d´Azur, porque as praias são de pedra, mas o mar é o mesmo, de azul profundo. No verão dá para dormir na praia, de graça e ainda desfrutar o panorama.

Ninguém tem solução para o terrorismo porque ele nasce no coração das pessoas e toma conta de todos os sentidos. Os sentimentos de piedade e de compaixão de que falavam os primeiros sociólogos como Comte ou mesmo Durkheim não têm adesão à realidade.  E, muito menos predisposição para a justiça. Como são livres atiradores, os terroristas muçulmanos tanto se utilizam de sofisticados Boeing, para destruir as Torres Gêmeas e investir contra o Pentágono, como de uma doméstica panela de pressão, em Boston. Agora, a arma do crime foi um caminhão de entregas. Há 50 quilômetros/hora, o motorista conseguiu percorrer dois quilômetros da orla de Nice, em ziguezague, apanhando o maior número de pessoas possível. Como se o condutor estivesse num daqueles jogos de computador. Uma mistura de GTA com o novo Pokemón Go.

A tendência é avançar com um fato menor para esconder uma impotência maior. Quando o terrorismo islâmico ocorre nos Estados Unidos, a parceria costuma ser escondida por um pecado local: a criminosa facilidade de se comprar armas. Horrível pecado, mas não o autor principal. Ali, apesar dos fuzis adquiridos em lojas, quem aperta o gatilho é o extremismo religioso. Seria ridículo culpar agora a Scania e Daimler por fabricarem caminhões. “Os tempos mudaram...”, como disse o primeiro-ministro. No século passado Henri Matisse se apaixonava pela luz de Nice e pintou uma série de quadros da praia de pedregulhos, do nascer ao pôr do sol. Hoje, temos que aprender que um caminhão pode ser uma arma terrível. Quem sabe o vendedor ambulante da praia de Ipanema seja um terrorista disfarçado e seu bujão de limonada esconda uma bomba? O momento olímpico será de muita apreensão.

Vi na televisão, o microfone estendido para arrancar alguma frase do homem sentado na calçada, mãos ensanguentadas, sem nada entender. Ao seu lado o corpo da mulher já escondido sob o lençol. Tão cínico quanto Santo Agostinho sobre a nossa frouxidão, interroguei-me do porquê de tanta sanha em expor imagens. Recordei-me dos meus tempos de editor, com a radiofoto da Associated Press na mão: o terror da menina vietnamita, nua e queimada de napalm, a correr na minha direção. Não me lembro de alguém ter protestado contra essa tragédia, com imagem premiada pelo Pulitzer.

O enfant terrible da literatura francesa atual, Michel Houellebeq, tem um ponto de vista iconoclasta sobre o problema. Amado e odiado, para ele ninguém segura a onda islâmica. A partir de 2022, profetiza no seu livro, o califado estará instalado no coração da Europa. A França será governada por um muçulmano e o autor esboça o retrato de seu país sob o governo fictício de um partido islâmico. Pelo menos 10% da população francesa já é muçulmana. Londres acaba de eleger o seu primeiro prefeito muçulmano, Sadiq Khan. Sadiq, em árabe significa “amigo”. Os tempos mudam. A isso chamam de civilização.


O autor é jornalista e articulista do JC

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