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Plano B: para virar a vida ao avesso

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Divulgação
Fernando Mendes trocou vistoria em barragens por franquia de boteco; hoje, realiza o sonho de velejar e vive mais no mar que em terra
Lucas Torres Gimenez deixou a paixão natutral pelo mato aflorar e trocou o escritório de advocacia pelo plantio de orgânicos
Gustavo Fainer, Rodrigo Matos e Kiko Júnior deixaram suas profissões para montar barbearia

Qual a semelhança entre um engenheiro agrônomo que virou dono de franquia de bar temático, um advogado que deixou o terno para produzir hortaliças orgânicas e um profissional de tecnologia da informação que hoje é sócio de uma barbearia? A história que os une é o da guinada profissional, o “Plano B” capaz de resgatar o sonho de infância ou a coragem de largar a profissão que lhe consumia em estresse e contragosto em troca de algo prazeroso ou, ainda, a busca pela sobrevivência em um “novo mundo de relação de trabalho”.    

Embora com peculiaridades em cada trajetória, uma dessas variáveis é que tem levado inúmeros trabalhadores, autônomos, operários ou empresários a mudar de vida para buscar a sorte, dinheiro em maior abundância ou, simplesmente, prazer pelo que se faz. 
Depois de trabalhar 15 anos como auxiliar no açougue do pai e de ter buscado identificação com a engenharia agronômica trabalhando por outros três anos em vistorias por barragens da Cesp, o empresário Fernando José Mendes deu uma verdadeira “cambalhota” em sua vida. 

No início, ele apostou tudo do pouco que tinha. Emprestou uma parte e assinou, em forma de coragem, três cheques pré-datados para adquirir um boteco em Bauru. Partiu para o negócio junto com a companheira, a então bailarina Paula Lamberti, e incluiu um Jeep Terios usado no negócio.

Treze anos depois, Fernando e Paula passam a maior parte de suas vidas em alto mar. De lá, administram o balanço dos negócios de nove franquias do “Bar do Português”. E o que tem a ver o mar com essa história? É que entre a trajetória do açougue às vistorias em barragens hidrelétricas, Fernando Mendes e Paula Lamberti ainda partiram para realizar o sonho de velejar. Hoje, vivem ora ancorados em Parati (RJ), ora em outras maresias. 

“Fiz agronomia em Garça porque tenho identificação com a área. Mas trabalhei 15 anos no açougue com meu pai até ir para a Cesp. A certa altura, vi que era mais difícil ganhar dinheiro na área e apareceu o negócio do bar e resolvi entrar nessa história. Realizei o sonho de velejar e viver boa parte do tempo em contato com o mar e gerenciamos a rede de franquias que saiu da matriz do Bar do Português, em Bauru. Estou feliz”, resumiu, pelo telefone, durante uma parada em Angra dos Reis, nesta semana.

O terno e a horta

O pai de Lucas Torres Gimenez é advogado de boa tradição. O tio, delegado. Tais referências o levaram a cursar Direito e a trabalhar por quatro anos no escritório do patriarca. 

Mas eis que a relação com a terra brotou dentro de si de forma abrupta. “Eu desanimei com a rotina da advocacia e passei a experimentar, como uma espécie de terapia pessoal, montar canteiros de horta em paralelo. Sempre gostei de estar em contato com a terra e as plantas. Mas tinha a noção de que ganhar algo suficiente com agricultura só seria possível em escala, com maquinários e tudo”, lembra.

Mas o sítio do pai passou a ser visitado com tal frequência que suas mãos visivelmente já eram muito mais eficientes em aprontar covas para a ceiva das sementes do que para dar nó em gravata. “Fui gostando cada vez mais dessa relação com a terra, aprontar canteiros para as sementes, prestar atenção no clima, nas plantas em formação. Despertou a natural paixão pelo mato, pelo campo. E aí ficou difícil eu conciliar. A gravata e o paletó estão lá no armário e eu estou aqui no sítio produzindo hortaliças todas orgânicas, usando homeopatia para os processos de proteção da planta e fazendo disso minha forma prazerosa de trabalhar”, confessa Lucas. 

Trio de tesouras optou pelo fim da pressão diária   

A união de Rodrigo Matos, Kiko Júnior e Gustavo Fainer, em torno de um negócio pode ser sintetizada pela busca tríplice de um caminho que juntasse o fim da pressão diária com uma profissão onde pudessem decidir como trabalhar e sob qual regime. 

Um estava cansado das metas da área comercial, o outro começou a ter queda de rendimento no plano de estudos para concurso na área de Direito e o terceiro já se via de cabelo em pé com a linguagem binária do mundo da tecnologia da informação.

Fainer, Matos e Kiko então montaram a Barbearia Bauru, na zona sul da cidade. Quem puxou a fila foi Matos. Ele começou a reunir, por anos, objetos antigos para a decoração de um futuro negócio pessoal. A certa altura, falou para Kiko que ia aprender a cortar cabelo e aparar barba. 

De mãos dadas com o estresse em suas profissões originais, eles viraram sócios. Matos concebeu o negócio e Kiko veio em seguida. Ao longo do percurso, o amigo Fainer também fez curso de cabeleireiro e, finalmente, os mosqueteiros lá estavam com suas tesouras e navalhas em mãos. O que os une, além do negócio? “A busca por algo que seja prazeroso, pelo desafio do próprio negócio com a nossa cara, um espaço onde ir trabalhar vá muito além da obrigação”, resume Matos.

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