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O fim das fitas

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Houve um tempo em que a coisa mais desafiadora a se fazer, digna de virar prova olímpica, era trocar a fita da máquina de escrever. Oh, boy: o que era aquilo?! Dedos ficavam sujo-coloridos, a vista jovem forçava como se velha fosse...

Fitas, inclusive as outras, sempre foram assim: funcionavam que é uma beleza, mas quando algo fora do script ocorria... Você, leitor e leitora com alguma estrada já percorrida, sabe o que digo.

Basta lembrar da fita cassete. Gilmar Dias pode gostar até hoje, eu também gosto e tenho, mas se se arrebentava, já era. Que decepção.  Fui a (e fiz) muito bailinho na base das fitinhas. Basf Chrome e Scotcht BX não-sei-o-quê eram das preferidas, além de Philips Super Ferro. Na falta delas, íamos de Vat mesmo.

Fitas, num mundo digital, parecem condenadas ao saudosismo.  Acaba de sair a seguinte notícia: a Funai (nada a ver com nossos índios), última fabricante de videocassetes, deu seu suspiro final. A empresa, do Japão, parece ter sido vencida pela falta de peças básicas e fundamentais – e, claro, pelo Netflix.  Assim, os aparelhos de VHS deixam de ser produzidos.

Videocassete deveria estar em festa de aniversário (afinal, o primeiro aparelho surgiu no planeta em 1956). Com a popularização de seu preço, a partir dos anos 80, assistiu-se a uma verdadeira invasão caseira. Agora, zefini.

Bem, mas como o mundo é cíclico, não deve demorar muito para voltar à tona, como moda retrô. Basta verificar que tal ressurgimento já começa a rolar com a fita cassete – que, parece, retoma fabricação no Brasil neste ano. Nem vou falar do disco de vinil, que puxa a fila retrô em grande estilo.

Seja como for, e voltando ao videocassete, o momento ainda é de divertida consternação. Claro que o digital é melhor. Mas só o videocassete proporcionou, a mim e a tantos, as emoções de assistir, por exemplo, a um filme longo, como “Doutor Jivago”, falhando de vez em quando na imagem – e a gente na torcida para a fita não enroscar de vez.

Gabriel, em casa, colocou fim à saga: em casa, ainda pequeno, arrebentou com tudo. Minha nova missão olímpica será consertar “Doutor Jivago” e, quem sabe, voltar a fita para assistir tudo outra vez.


O autor é editor executivo do JC.

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