| Bruno Freitas |
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| O técnico Cali Amaral durante treino no BTC: “Gostaria muito de trabalhar com formação” |
Técnico de triatlo consagrado, orientando há anos atletas olímpicos e medalhistas em Pan-Americanos, Antônio Carlos Moreira do Amaral, o Cali Amaral, está em Bauru há sete meses, iniciando trabalho que pretende ampliar rumo ao sonho de transformar a cidade em polo de treinamento da modalidade no Brasil. No momento, Amaral comanda o projeto de triatlo no Bauru Tênis Clube, onde treina atletas amadores e profissionais, e planeja expandir o projeto e iniciar trabalho com a base com vistas ao alto rendimento, repetindo experiência bem sucedida que teve em São Carlos, de onde saíram triatletas de destaque no Brasil, que foram formados sob seu comando.
Mas a história de Amaral no esporte começou longe do triatlo. O início como atleta foi como jogador de futebol, quando defendeu a Ferroviária durante seis anos. Uma lesão no joelho abreviou sua trajetória como atleta profissional. “Paralelamente à carreira de futebol, me formei na Universidade Federal de São Carlos em Educação Física”, relata. Quando parou de jogar futebol, Amaral passou a trabalhar como técnico de natação, função que exerceu durante 20 anos em São Carlos. “Tive o privilégio de conhecer o Gustavo Borges, que morou durante um ano e meio comigo. Eu era um dos técnicos da equipe na qual dele nadava. Depois ele foi para São Paulo, Estados Unidos e se transformou no grande nadador da história do Brasil”, comenta.
O triatlo surgiu por acaso na vida de Amaral. “Eu montei uma estrutura de natação em uma cidade perto de São Carlos, chamada Dourado. Entre meus alunos, apareceu uma menina chamada Carla Moreno. Ela fazia corrida até contra a minha vontade, mas se destacou a tal ponto que eu abri os olhos para o triatlo e passei a investir nesta modalidade”, conta. A parceria com Moreno rendeu a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg (Canadá), em 1999. “Também neste mesmo ano ela foi campeão mundial amadora na Áustria”, destaca.
A partir daí, não parou mais e já compôs a equipe de treinadores brasileiros que esteve em Sydney-2000, quando o triatlo estreou como modalidade nos Jogos Olímpicos. “Estive lá com a Carla. Na sequência, eu também classifiquei a Carla para os Jogos Olímpicos de Atenas (2004)”, aponta. Como integrante da comissão técnica brasileira, Amaral participou ainda das Olimpíadas de Pequim-2008 e Londres-2012, e dos Pan-Americanos de Santo Domingo-2003, Rio de Janeiro-2007 e Guadalajara-2011 , treinando atletas como Mariana Ohata, Juraci Moreira (bronze no Pan do Rio), Reinaldo Colucci (ouro em Guadalajara) e Virgílio de Castilho (prata em Santo Domingo).
Amaral permaneceu trabalhando com triatlo em São Carlos por mais de dez anos, três dos quais em um polo de desenvolvimento de alto rendimento da modalidade que revelou atletas de destaque no cenário nacional, como Luísa Batista, Flávio Queiroga, Edivânio Monteiro, além de Reinaldo Colucci. Até que um dia decidiu dar um tempo (leia texto ao lado).
‘Demanda treino e abrir mão de muitas coisas’
O triatlo é uma modalidade esportiva relativamente nova, surgiu na década de 1970. Cali Amaral explica que o triatlo propõe um desafio aos atletas, um esporte muito exigente com os praticantes e que pede qualidades de natação, ciclismo e corrida. As distâncias olímpicas são 1,5km de natação, 40km de ciclismo e 10km de corrida. No Iron Man as distâncias impressionam. São 3,8km de natação, 180km de ciclismo e 42km de corrida. O técnico aponta os fatores que fazem um bom triatleta. “Hoje, para um triatleta se dar bem nos Jogos Pan-Americanos e Olímpicos, tem que ter uma natação sensacional. Caso contrário perde o pelotão do ciclismo, vai sobrar e não consegue chegar na corrida. Porque o nível da corrida hoje está muito forte. Já no Iron Man a natação não conta tanto quanto no olímpico. Temos que ter um atleta muito bem formado na parte de ciclismo e com estrutura boa para maratonas”, avalia.
O treinador aponta que que a logística e abordagem precisam ser diferentes no treinamento de atletas amadores e profissionais. O fator psicológico nas provas é fundamental, principalmente para atletas amadores e nas provas de Iron Man, onde entre 95% e 97% dos atletas são amadores. “Nem todos estão 100% preparados. É uma prova que dura para os amadores entre dez e 20 horas ininterruptas de atividade. Demanda muito treino e abrir mão de muitas coisas. Nós, treinadores, tomamos muito cuidado para que não exceda, tirando convivência com a família”, destaca. “Diferentemente do profissional, que vive e compete para isso. Algumas pessoas me perguntam se o treinamento não era muito duro e eu respondo que não, o treinamento é compatível com uma pessoa que trabalha oito horas por dia”, define.
Caminho até Bauru
Em 2012, Cali resolveu fazer uma pausa na carreira. “Fazia muito tempo que eu vinha classificando atletas para os Jogos Olímpicos, fazendo muitas viagens internacionais e achei importante dar uma pausa para uma avaliação da minha vida como treinador, como alguém que lutou pelo esporte brasileiro”, comenta. Parou logo após os Jogos de Londres e ficou um ciclo olímpico fora do triatlo. A decisão de voltar ao triatlo ocorreu em meados de 2015 e foi quando o Bauru Tênis Clube (BTC) surgiu como boa opção. “Fiquei sabendo que em Bauru tinha um clube muito bom e fiz uma visita. Gostei muito do que vi, a estrutura é das melhores. A partir dali comecei a ter os contatos”, relata Amaral. O trabalho em Bauru começou em janeiro. “Desde então, vários atletas do Brasil e de outras partes da América do Sul têm entrado em contato comigo”, celebra Amaral, que já conta com dois peruanos e uma colombiana treinando em Bauru sob sua orientação. O objetivo em curto prazo para o trabalho realizado em Bauru é ter um triatleta disputando os Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru, que serão realizados em 2019. “Em um próximo passo, gostaria muito de trabalhar com formação, que são os jovens que vão suprir o ciclo. É a combinação da base com alto rendimento”, projeta Amaral, que aposta nos bons resultados do trabalho para atrair patrocínio e apoiadores para o projeto.
Bicicleta roubada
Nos muitos anos em que trabalha com alto rendimento em triatlo e participa de competições por todo o mundo como técnico de atletas de ponta, Cali Amaral já passou por muitas situações inusitadas. Uma delas marcou sua carreira. O roubo da bicicleta de sua atleta Carla Moreno momentos antes do embarque para o Pan-Americano de Winnipeg, no Canadá, em 1999. “A situação causou uma comoção nacional, todos viram a triatleta chorando. Eu estava no aeroporto a esperando. Ela passou em Campinas para pegar a bicicleta que estava em revisão e foi assaltada. Por fim, achou-se tudo, a bicicleta e as malas dela, estivemos em Winnipeg, a Carla foi medalha de prata, muito próxima de ganhar o ouro. Quando chegamos ao Brasil, era entrevista para todos os lados. Até brincamos na época que foi uma situação de desastre, que se tornou muito boa”, lembra o técnico.
