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| Drielly, que completaria 27 anos amanhã, era estudante universitária e esperou vaga para internação por 7 dias |
Quanto vale uma vida? Já se passaram quatro anos desde a mais emblemática das mortes de pacientes que aguardavam leitos hospitalares no Pronto-Socorro Central (PSC) ou em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Decisão da Justiça de Bauru condenou a prefeitura e o Estado a indenizarem a família de Drielly Carla Alves de Brito, que, aos 22 anos, foi a óbito no dia 26 de julho de 2012.
Os entes governamentais ainda recorrem da decisão, enquanto o pai e mãe da estudante universitária esperam a responsabilização de eventuais culpados pela perda da filha e lamentam que episódios como este sigam acontecendo na cidade.
A sentença, proferida pela juíza Elaine Cristina Storino Leoni, determinou o pagamento de R$ 157.600,00 aos familiares da jovem que, se estivesse viva, completaria 27 anos amanhã.
Além disso, dividindo as custas da condenação, município e Estado terão que pagar mensalmente pensão de valor equivalente a um terço do salário mínimo até a data em que Drielly completaria 65 anos.
Retroativamente, o poder público terá que desembolsar ainda dois terços de salários mínimos por cada mês desde a morte de Drielly até o dia em que chegaria aos 25 anos.
Como o caso está sendo discutido em instâncias superiores no Poder Judiciário, a família ainda não recebeu qualquer valor a título de indenização, que, segunda a juíza, tem como intuito propiciar alguma compensação pela dor e angústia sofridas.
Responsabilização
A ação julgada pela 2ª Vara da Fazenda de Bauru reivindicava indenização de R$ 800 mil. Embora o valor concedido seja bastante inferior, a família de Drielly não recorreu da decisão para tentar majorá-lo.
“É claro que a gente tem que correr por todos os lados em casos assim. Mas esse não é o nosso principal objetivo. A gente quer que os responsáveis pela morte da minha filha respondam por isso”, afirma o pai da vítima, Luís Carlos de Brito.
Por enquanto, ainda corre o inquérito criminal instaurado em função da morte de Drielly. Para embasá-lo, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) foi acionado, já que o caso envolve a conduta de médicos do Pronto-Socorro.
O drama
Drielly de Brito começou a sentir dores abdominais no dia 19 de julho de 2012 e procurou o PSC. Lá, ela recebeu medicação e foi liberada. Dois dias depois, realizou exames na UPA do Mary Dota e, com necessidade de internação, voltou ao Pronto-Socorro para aguardar vaga no Hospital Estadual de Bauru. A solicitação para internação clínica cirúrgica teria sido feita na madrugada do dia 25.
Na madrugada do dia 26, o estado da paciente foi agravado e ela precisou ser entubada. Nova vaga foi solicitada ao Estado, desta vez para internação em UTI. O leito foi liberado duas horas depois em Promissão, a 122 quilômetros de Bauru, mas o estado da paciente não comportava seu transporte.
Às 6h do mesmo dia, o PSC voltou a fazer o pedido para internação, que foi atendido às 7h, quando Drielly sucumbiu a uma pancreatite necro-hemorrágica.
Para justificar a condenação solidária entre o município e o Estado, este responsável pela liberação de leitos, a sentença judicial aponta que a prescrição de medicamentos e a realização de exames e procedimentos se deram de forma extemporânea no Pronto-Socorro, evidenciando a ineficiência do serviço público.
‘Uma vida hoje, outra amanhã...’
Desde a morte de Drielly, sua mãe, Renata Cristina Fragoso Alves de Brito, sofre com depressão e depende de medicamentos para dormir. Segundo ela, o que aumenta sua dor é saber que mais pessoas, assim como a filha, continuam morrendo à espera de leitos hospitalares.
“O brasileiro costuma se esquecer das coisas muito facilmente. A justiça não foi feita e os bauruenses não podem deixar passar. Uma vida hoje, outra amanhã. Eu me sinto humilhada e nós somos tratados como bichos”, desabafa.
O pai da jovem, Luís Carlos de Brito, também lamenta acompanhar casos semelhantes pelo noticiário. “Depois de tudo, nada mudou”.
Nas últimas semanas, o JC noticiou mais dois óbitos de mulheres que aguardavam vagas de internação na rede de urgência e emergência. Na noite de ontem, 57 pessoas esperavam, das quase 28 há mais de um dia.
Centenas
Seguem ainda centenas de inquéritos da Polícia Civil instaurados para investigar a responsabilidade por ao menos 581 mortes no Pronto-Socorro Central, entre os anos de 2009 e 2013.
A medida atendeu a um pedido do procurador da República Pedro Antonio de Oliveira Machado e está sob a responsabilidade do delegado Kleber Granja.
