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Com crise, abandono de animais triplica

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Samantha Ciuffa
Questão de saúde pública: cão caminha pela rua 

na Vila Industrial

Em grupos de ajuda, imagens deles estão por toda parte. Magros, feridos ou ainda com aparência de bem tratados, animais domésticos abandonados são cada vez mais frequentes nas ruas de Bauru. Segundo estimativas de ONGs vinculadas à causa, o volume praticamente triplicou nos últimos meses - um resultado, em grande parte, provocado pela crise econômica e pela mudança de muitos donos para apartamentos.

Na última semana, postagens em páginas de organizações de proteção animal na Internet procuravam encontrar voluntários para acolher pets descartados, tais como objetos, nos mais diferentes bairros da cidade, como a Vila Industrial, Jardim Nova Esperança, Jardim Ouro Verde, Núcleo Gasparini e Jardim Estoril 3. São, quase em sua totalidade, cães e gatos sem raça definida, que perambulam pelas ruas em busca de alimento e, com alguma sorte, de um novo abrigo.

Segundo a vice-presidente da ONG Bem-Estar Animal, Damair de Almeida, o número de animais abandonados cresceu consideravelmente em 2016 e, nos últimos 30 dias, ganhou “proporções assustadoras”. “Dias atrás, um cachorro foi encontrado em meio ao lixo. Mas um dos locais campeões de descarte continua sendo o Vale do Igapó, mais afastado, em que o dono tem maior garantia de não ser visto e de que o animal não vai conseguir voltar para casa. É cruel”, lamenta.

A ativista explica que, com a expansão dos prédios residenciais em Bauru, o volume de desova de bichos domésticos também aumentou devido à mudança dos proprietários para apartamentos. “A pessoa simplesmente se muda e deixa o cão ou o gato no quintal da casa antiga, sem alimento, sem água, sem qualquer tipo de assistência”, comenta.

Vulneráveis

Presidente da ONG Naturae Vitae, Fátima Schroeder conta que boa parte das vítimas de abandono são animais já bastante idosos ou com doenças incuráveis, que demandam cuidados especiais e, por consequência, mais despesas e tempo dedicado por parte dos proprietários. “Muitos até tentam encontrar quem possa ficar com o animal, mas, se não conseguem, o destino acaba sendo a rua”, pontua.

De acordo com Fátima, o número de voluntários dispostos a abrigar temporariamente estes animais até que ele seja encaminhado à adoção também tem reduzido, muito em função da crise, mas também devido à grande quantidade de pets que muitos já acolheram. “Tentamos ajudar com divulgação, mas tem sido bastante difícil”, reclama, salientando que os donos que abandonam seus bichos não têm consciência sobre guarda responsável.

“Às vezes, é por ignorância mesmo. A pessoa leva o filhote para casa sem pensar que ele vai ficar grande e que vai viver por mais de dez anos, não pensa que precisa vacinar, dar ração, dar banho, recolher fezes. Não é algo simples”, pontua.

Na avaliação de Damair de Almeida, proprietários que enfrentam dificuldades devem procurar ajuda, até mesmo junto às ONGs, para cuidar dos bichos em vez de deixá-los à própria sorte. “Se há real interesse no bem-estar do animal, se há amor, a pessoa não irá abandoná-lo”, considera.

Zoonoses

Somente neste ano, de janeiro até a última terça-feira, o CCZ já havia recolhido 154 animais das ruas de Bauru. No ano passado inteiro, foram 262 bichos. Segundo o órgão, a recepção só ocorre em situações específicas, quando os animais representam risco de transmissão de zoonoses, foram atropelados, estejam em sofrimento ou sejam agressivos.

Projeto de lei para multar pessoas que abandonam chega à Câmara

Nesta semana, deu entrada na Comissão de Justiça, Legislação e Redação da Câmara Municipal projeto de lei de autoria do vereador Markinho da Diversidade para punir o abandono de animais em Bauru.

Segundo o texto do projeto, donos que abandonarem seus animais em áreas públicas ou particulares por mais de 48 horas poderão ser multados em R$ 1,5 mil, valor que sobe para R$ 3,5 mil se os responsáveis forem empresas. Em caso de reincidência, a multa será aplicada em dobro. A ideia é que a quantia arrecadada seja destinada ao Fundo Municipal de Proteção Animal.

Maus-tratos a animais, em que o abandono pode se incluir, já são considerados crimes no artigo 32 da Lei Federal número 9.605/98. Caso seja denunciado, o autor de qualquer prática abusiva contra animais domésticos, silvestres, domesticados, nativos e exóticos pode ser condenado a pagar multa e à prisão de três meses a um ano.

No entanto, como o crime é considerado de menor poder ofensivo, geralmente, a pena é convertida em prestação de serviços à comunidade ou doação de cestas básicas.  As denúncias podem ser feitas na Polícia Militar ou Civil da cidade ou diretamente em uma associação de defesa dos animais.

Campanha terá início

A Comissão de Defesa e Proteção Animal da OAB de Bauru dará início, a partir deste sábado, ao “Programa Permanente  de Conscientização para Guarda Responsável de Animais Domésticos”. A intenção é promover encontros com comunidades de vários bairros periféricos da cidade para prestar orientação sobre a importância dos cuidados que os pets devem receber, como vacinação, vermifugação, castração, alimentação e higiene, além da prevenção ao abandono.

O primeiro bairro a receber o programa será o Jardim Europa, a partir das 16h. “Lá, temos uma alta incidência de TVT (tumor venéreo transmissível entre cães). Levaremos veterinários, protetores de animais e advogados da OAB para este encontro, que será realizado na praça central”, adianta Thais Viotto, presidente da comissão.

Por outro lado...

Ainda que aumento do abandono seja sentido por várias ONGs de Bauru, muitos donos continuam dedicando especial atenção a seus bichinhos. O reflexo de todo este cuidado é sentido todos os anos pelo segmento pet, que bateu novo recorde de faturamento no ano passado.

Em 2015, o setor movimentou R$ 18 bilhões no Brasil, uma alta de 7,6% em relação a 2014, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). Segundo o IBGE, 74,3 milhões de cães e gatos habitavam os lares brasileiros em 2013.

Incluindo outros bichos de estimação, como aves, peixes e répteis, o montante chega a 132,4 milhões de animais, o que coloca o Brasil como o segundo maior mercado pet do mundo, atrás dos EUA. Trata-se de um nicho que envolve não apenas clínicas veterinárias, pet shops e lojas que comercializam casinhas e roupas, mas também um segmento de luxo, que envolve padarias, buffets para festas de aniversário e até joias especificamente pensadas para os animais de estimação.

Catioro GO!

A Prefeitura de Esteio (RS) pegou carona na nova febre do entretenimento mundial, o “Pokémon GO”, jogo eletrônico de realidade aumentada. Conforme o JC divulgou, o município gaúcho lançou, anteontem, nas redes sociais, uma ação para incentivar a adoção de animais abandonados. “Desenvolvemos o Catioro Go! Temos muitos bichinhos em nosso canil municipal, com diferentes habilidades, aguardando por um treinador que possa lhes dar muito carinho e ajudá-los a evoluir”, inicia o texto bem-humorado. A campanha está sendo veiculada no Facebook, pelo perfil oficial da Prefeitura de Esteio. A campanha vem sendo sucesso nas redes sociais.

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