Bem melhor seria a vida não houvesse tantas esquinas. Esfíngicas, elas bloqueiam nossos os caminhos, indagando-nos sob ameaça: por aqui ou por ali? Por aquela ou por aquela outra? Subindo ou descendo? Esquerda ou direita? Pressionados entre tantas opções, ficamos perdidos, sem saber que caminho tomar. Dúvida, insegurança, medo... Afinal, não podemos falhar. Dobrada a esquina errada, devorados seremos pela incompetência da escolha. Então, a nossa vida que tanto queríamos assim, assim não mais será.
Interessante é constatar que outra coisa não fizemos em cada um dos nossos dias senão escolhas. E a cada decisão, sabíamos que estávamos perdendo as demais possibilidades. O ato de escolha é radical, sempre implica perda. Quem se casa com Maria, sabe que havia outras Marias, outras Lúcias, muitas Luísas, tantas Joanas e até – por que não? - Josés e Antônios. O preço de ter um pássaro na mão é saber que outros para muito longe de nós voarão... Somos, hoje, o exato resultado de nossas escolhas. Certas ou erradas, elas acabaram moldando a nossa cara, a nossa forma de ser. Nossa vida, contudo, poderia ter sido tão diferente se... Culpa ou sorte, o que somos devemos às esquinas da vida.
O sempre sagaz Carlos Heitor Conny, numa de suas belas crônicas, cujo título é justamente “Esquina errada”, fala do momento em que se aproxima o fim da jornada: “...quando o homem faz seu balanço interior, contabilizando lucros e perdas, ele fatalmente se faz a pergunta: onde e quando dobrei a esquina errada?”
Impossível sabê-lo. Da vida só conhecemos o caminho trilhado, os outros não aconteceram, deles nada poderemos saber senão rabiscos de imaginação. Tínhamos à disposição todos os sonhos, projetos, possibilidades... Tínhamos a oferta dos múltiplos caminhos, mas o ato de escolha, feito tesoura, para nossa sorte ou desgraça, foi nos cortando e nos separando de tudo que se nos oferecia como possível para que ficássemos exatamente assim, retrato final do que somos.
Em face do perigo que mora no porão de cada escolha, a pergunta necessária: como escolher? Que caminho tomar? A poesia do inspirado Gilberto Gil, em Mini-mistério, recomenda especial cuidado para achar a essência da qual todos precisamos: “Compre, olhe, vire e mexa, talvez no embrulho você ache o que precisa, compre e olhe, vire e mexa, não custa nada, só lhe custa a vida.”
A complexidade e o perigo que envolvem cada escolha - ela pode nos custar a vida – não nos permitem o simplismo das receitas de autoajuda. Ainda assim, fica alguma possibilidade de reflexão. Melhor do que escolher é deixar que se realize dentro de nós o que escolhido já está: a nossa vocação. Pertencente à semântica religiosa, a expressiva palavra latina “vocare” significa “chamar”. Quem escuta o chamamento interior e dele faz o seu caminho tem tudo para não errar. Nesse contexto, a palavra “vocação” transcende o usual sentido artístico para significar muito mais. Vocacionados todos somos para os mais diversos fins e chamamentos. É questão de se escutar, questão de se descobrir. Se não me ouço, se não me conheço, se ignoro o que em mim existe e pede realização, tenho tudo para errar. O aforisma socrático do “conhece-te a ti mesmo” continua traduzindo essa urgência de se ouvir antes de escolher. Muitos de nós não mais se ouvem, ficaram surdos, abandonaram-se.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras. curso_romag@uol.com.br