Na contramão da estatística nacional, que aponta crescimento dos casos de Aids no Brasil (leia mais abaixo), o número de pessoas com a doença em Bauru despencou, conforme levantamento divulgado pelo Departamento de Saúde Coletiva, através da Secretaria Municipal de Saúde. A população vivendo com Aids caiu de 94, em 2014, para 38 no ano passado, com 25 mortes em todo esse período. Até maio deste ano, foram 27 casos e dez óbitos.
A intensificação nas campanhas junto à praticidade na realização dos exames, atualmente, explicam a redução, uma vez que os pacientes estão sendo diagnosticados quando ainda são portadores do vírus HIV – período em que, geralmente, não há manifestação de doenças ou baixa imunidade. Sendo assim, o tratamento com coquetéis, por exemplo, é iniciado precocemente e o vírus não evolui para Aids, fase mais crítica e de difícil reversão.
A constatação é da infectologista Maristela Pastore de Oliveira, chefe do Centro de Referência de Moléstias Infecciosas (CRMI) da Secretaria Municipal de Saúde. “Demora de cinco a dez anos para o vírus se manifestar. Se a pessoa nunca fez um exame, vai ficar esse tempo sem saber que tem HIV, até que aparecem as doenças graves como pneumonia, tuberculose. Quando ela procura o médico, então, descobre que já tem Aids, cujo estágio é mais complicado de tratar”, explica.
A redução dos casos em Bauru, entretanto, refere-se aos pacientes que descobrem a doença mais tarde, reforça Oliveira. “Acontece que o número de exames para identificar o HIV tem sido feito com mais frequência do que há alguns anos e, por isso, o diagnóstico ocorre mais cedo, quando ainda está na fase do HIV. Isso é resultado de nove anos de campanhas que fazemos na cidade, além da agilidade e facilidade na realização dos exames”, detalha.
Uma hora
A infectologista ressalta que, antigamente, o resultado do exame demorava 30 dias para ficar pronto. “Muitos nem voltavam depois de um mês para buscá-lo, pois tinham medo de dar positivo. Há algum tempo, todo o processo, entre colher o sangue e o resultado, dura cerca de uma hora. Além disso, em outros procedimentos médicos já são requisitados o exame de HIV, como no pré-natal das mulheres grávidas, entre outros”, aponta Oliveira.
A reportagem solicitou à administração municipal estatística de pessoas portadoras do vírus HIV em Bauru, mas tais dados, entretanto, por não representarem a realidade da cidade, uma vez que parte da população desconhece que tenha o vírus, não são registrados oficialmente, informou a assessoria de comunicação da prefeitura.
Preocupação mantida
Por sua experiência, a infectologista Maristela Pastore de Oliveira disse que percebeu uma leve queda também nos casos de HIV, mas, segundo ela, trata-se de uma redução sazonal. “Ainda podem aumentar. Por isso, fazemos um apelo para que as pessoas percebam a importância de fazer o exame e se prevenir”, finaliza.
No Brasil
Enquanto em Bauru diminuiu a quantidade de pessoas com Aids, esse número subiu em todo o Brasil, conforme dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids). A quantidade de pessoas vivendo com a doença no País passou de 700 mil, em 2010, para 830 mil em 2015, com 15 mil mortes por ano.
Segundo a Unaids, o principal fator da alta no Brasil, que responde por 40% das novas infecções de Aids na América Latina, foi o avanço de novos casos entre homossexuais e homens que mantêm relações com homens.