O colesterol, em si, é um lipídio necessário para o funcionamento do organismo, mas, como tudo o que acontece no corpo humano, seu excesso gera desequilíbrio e aumenta risco de doenças, sobretudo o infarto e o acidente vascular cerebral (AVC), o popular “derrame”. Amanhã, comemora-se o Dia Nacional de Controle do Colesterol e entidades advertem para o crescimento descontrolado do problema entre crianças, inclusive nos primeiros anos de vida (leia mais abaixo).
Conforme o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia - Regional Bauru, Alexandre Volney Villa, em meio a um turbilhão de informação disponível e, contraditoriamente, da falta dela na prática, a sugestão é enfatizar o essencial. “A mensagem do colesterol é a importância da detecção precoce e a avaliação pessoal, de cada um, para os hábitos de vida. Quem faz checagem desde cedo e cuida de seus hábitos de vida e alimentares faz prevenção para o futuro. Porque, em geral, o colesterol apresenta seus males no tempo”, enfatiza.
Para Volney, entre as informações públicas importantes sobre as doenças decorrentes deste mal, a sociedade precisa ser conscientizada das consequências do colesterol para o futuro, a longo prazo. “As pessoas precisam entender que o abuso no consumo de gorduras saturadas, a falta de cuidados com alimentação e não ter uma vida saudável é que geram os efeitos mais negativos. E isso se dá de forma até silenciosa, porque as consequências aparecem, em geral, algum tempo depois, mas já com elevado risco”.
E é exatamente a ausência de noção em relação à fixação silenciosa nas paredes das artérias que amplia o alerta para o aumento da presença de níveis elevados de colesterol entre crianças. “É preocupante a incidência de colesterol fora do padrão entre crianças. E, nesse caso, os pais refletem nos filhos muitos de seus próprios hábitos equivocados. Preocupa os pais desatentos com os hábitos alimentares dos filhos e a negligência em relação à ingestão sem regra de muito alimento com açúcar, doces e a presença desenfreada de gordura saturada”, ressalta.
O cardiologista lembra que a criança atua na insistência. “A criança insiste, faz birra se não for corretamente corrigida. E esse comportamento exige rigor dos pais na dieta. Sem controlar açucares e carboidratos de absorção rápida, como chocolates, esses pais estão prejudicando em muito a saúde de seus filhos”, menciona Volney.
Doutor em cardiologia pela Universidade de São Paulo (SP), o médico Otavio Gebara reitera que os problemas cardiovasculares causados pelo colesterol começam a ser construídos na primeira infância, até os 5 anos de idade. “O processo de depósito de gorduras nas artérias começa bem cedo”, explica.
Gebara lembra que são múltiplos os fatores que contribuem para o aumento do colesterol, como tendências genéticas ou hereditárias, obesidade e falta de atividade física. Mas o mais comum é a dieta inadequada. “Cerca de 70% do excesso de colesterol LDL é produzido pelo fígado e o restante (30%) vem da ingestão de alimentos ricos em gordura. Como o excesso de colesterol LDL não apresenta sintomas, é indicado fazer exames com frequência, principalmente se a pessoa ingere muita gordura saturada, está acima do peso, é sedentário ou se tem histórico familiar de morte por infarto”, cita.
‘Crianças com 2 anos já estão com taxas elevadas’
A nutricionista Eliane Petean Arena revela que está assustada com o aumento de crianças com níveis elevados de colesterol, sobretudo até os cinco anos. “Eu estou muito assustada com isso. É muito comum no consultório pais em busca de ajuda para corrigir a alimentação e hábitos porque seus filhos com dois anos já estão com colesterol elevado”, fala.
Isso confirma, diz Petean, que os erros alimentares ocorrem desde a fase bebê. “Mães que não conseguem amamentar usam leite sem ser pasteurizado e usam leite em pó integral. Isso nas camadas mais pobres é ainda mais grave. Até o primeiro ano de vida é recomendado corrigir isso”, diz.
De outro lado, os pais também misturam verduras e legumes e preferem bater tudo no liquidificador, o que também é um erro. “A criança não acostuma com o sabor dos alimentos misturados e triturados. Tem de separar. E, após um ano, tem de picar em pedacinhos e dar separado. Também tem de inserir fibra a partir de 1 ano de idade. Com isso, a criança passa a identificar, desde cedo, cor, textura e sabor. Isso se incorpora a seus hábitos”, argumenta.
A nutricionista sugere que os pais continuem a dar sopinha depois dos seis meses, mas separando cada tipo de alimento. “Façam e ofereçam tudo separado para o bebê, para ele se acostumar com o gosto da fruta separado da verdura e dos legumes. Depois de um ano, é preciso controlar doces, frituras, salgadinhos e industrializados com alto teor de gordura e sódio”, acrescenta Eliane Petean.
Ela lembra que as crianças comem gordura trans “direto na fonte” ao ingerir o recheio de bolachas. “Tirem as bolachas recheadas e deem as integrais. Não precisa ser tudo integral, mas é preciso equilibrar, incluir sucos naturais, carne sem gordura, arroz e feijão”, lembra.
Além da bolacha recheada, ela orienta os pais a declarar “guerra” contra o consumo de chantilly, peixe gordo, vísceras, queijo amarelo, embutidos, bacon, maionese, excesso de chocolate e até azeite em excesso. Depois de um ano, pode inserir leite desnatado. “As crianças que chegam ao consultório estão com pouco músculo e fofinhos, embora muitos dentro do peso ideal para a idade. Pais, olhem para a qualidade do peso de seus filhos e não para o aspecto externo”, finaliza a nutricionista.
O mito do remédio
Otavio Gebara chama atenção para outra cultura: a de que o consumo de remédio controla, por si, a questão do colesterol. “Existem remédios para controlar o colesterol alto. Mas ele só é eficaz com uma mudança no estilo de vida”, explica o médico. Reduzir o estresse, fazer exercícios, manter a pressão arterial estável e o peso sob controle são fundamentais para a “gestão” saudável do colesterol.
O que controla qualquer indicador de saúde, de fato, é o hábito e a regularidade. Por isso, são igualmente imprescindíveis praticar exercícios físicos com regularidade, não fumar, evitar se estressar com qualque coisa, comer uma variação permanente de frutas e vegetais, dar preferência para carnes grelhadas ou assadas, ingerir alimentos ricos em fibras, como aveia e pães integrais, limitar a ingestão de gorduras saturadas - como as derivadas de leite -, limitar os alimentos ricos em colesterol, evitar frituras, em síntese, fazer uma dieta com baixos níveis de gordura e colesterol.
Os alimentos isentos de colesterol são os de origem vegetal. Estão na lista: ameixa preta, couve-flor, mamão, amora, damasco, mandioca, azeite de oliva, ervilha, pão integral, pera, cenoura, pêssego, feijão e vegetais folhosos.
Outra advertência: as gorduras trans. Elas são encontradas em alguns produtos industrializados e acabam elevando o LDL (ruim) e reduzindo o HDL (bom). Entre os principais alimentos considerados vilões, estão bacon, chantilly, biscoitos amanteigados, pele de aves, camarão, queijos amarelos, carnes vermelhas “gordas” e creme de leite.
‘Gordura vicia’
O médico Alexandre Volney Villa explica, na lata, a sedução indireta pelo colesterol, embora em excesso ele faça tão mal. “Comer é gostoso e comida com gordura tem mais sabor. E controlar o que é gostoso é o mais difícil. Muito tempero e gordura são viciantes”, afirma. E, neste ponto, é que é ainda mais fundamental a formação do hábito, desde o nascimento. “A rotina, a correria e os abusos com a dieta rápida, como o fast food, geram obstáculos à alimentação saudável. Começar a ensinar o organismo com gostos diferentes e mais suaves, como os presentes nas verduras, é essencial. Se começa desde bebê, o organismo acostuma”, insiste Volney.